Marcado: vida

Algo Sobre Uma Beleza

Falar de periferia é um fácil clichê, difícil mesmo é ser morar lá (Periferia no sentido do que é a periferia de São Paulo, os bairros mais simples da cidade, Capão Redondo, Campo Limpo, Jd. Angela, Grajaú, Vila Fundão). Não por ser ruim, não porque é mal localizado, por dizerem que é esquecido, pelo medo na vizinhança e até preguiça dos outros de chegar à sua casa; não pela “pobreza de traços arquitetônicos”, nem pelo baile funk ambulante que às vezes passa em frente à porta.

Porque mesmo é difícil morar lá? Afinal, na rua todo mundo se conhece como quem vive em cidade de interior, as crianças brincam e gritam a tarde toda até à noite, e em frente a sua casa pode ter uma mecânica, uma igreja, um cabeleireiro, uma vendinha, um boteco, um barzinho, todos com o portão de enrolar levantados, as correntes e cadeados guardados, os mais sofisticados colocaram portões de vidro em seus comércios – mas aí é outra coisa, em geral todos têm a mesma carinha e apenas mudam os nomes, as funções e as relações, porque essas pessoas veem os filhos dos vizinhos crescerem e os filhos dos filhos dos vizinhos nascerem e moram nos seus comércios ou comerciam em suas casas. Engana-se quem pensa que periferia é um lugar empobrecido de população pobre em poder aquisitivo, ou pior, que periferia é lugar pobre em cultura.

Têm loja de roupa, loja de calçado, loja de “um real”, padarias, mercados, sacolões, costureiras com brechós e sebos no mesmo lugar, sorveteria, doceria, floricultura, e até o must dos últimos tempos: aquelas casas de vender coisas naturais e orgânicas que tem um nome verde pra você assimilar que tudo é saudável – que são legais! O mundo mudou na periferia, e eu vi isso.

As ruas são cheias de expressões únicas, e aqui ou ali pode ouvir alguém falando de política, economia, música, teatro, aulas, livros, religião, e às vezes, se escuta que o preço da carne subiu ou sobre o personagem da novela que morreu também.

Nas escolas, os muros de fora não são pintados com crianças felizes e saltitantes que estão indo para um lugar mágico, mas com cores vibrantes e figuras extraídas de mentes de pura imaginação, desse pessoal que suja os dedos de tinta e embeleza a rua. Nas árvores, às vezes, tem outras plantas germinando, e são dos mais variados tipos; os jardins, quando existem, são estilo tia cotinha, mas eu diria que são contemporaneamente bucólicos! Têm também aqueles jardins feitos de latas e expostos nas lajes e nas varandas, esses periféricos estilosos cheios de sustentabilidade e verde aflorando de dentro pra fora, os reutilizadores primários desse tipo de sociedade em metrópoles!

E essa vontade toda de inovar reutilizando materiais, eu me lembro de uma época que isso não era ‘cool’, mas coisa de pobre. Gosto de ver como a pobreza se elitizou ultimamente, e como o novo status que ela tem de “sustentabilidade” ou “verde” agrada bem mais às pessoas, do que serem simplesmente chamadas de “pobres” por serem criativos e livres desses paradigmas estéticos arquitetônicos dos últimos gritos das tendências. Sim, há espelhamento de uma ideia elitizada do que é uma casa, mas uma ideia antiga, em que traços de herança histórica, influências e condições econômicas se misturam.

Em se tratando de arquitetura, bem, pode-se dizer que muitas soluções criativas e inusitadas que vi na minha curta vida como estudante de arquitetura, até agora, estão na periferia, questões de técnicas construtivas a parte. Totalmente desprendido de padrões de estética da arquitetura formal, bem como das técnicas construtivas ou de dimensinamento do desenvolvimento tecnológico, o resultado é muito interessante (quando chegam a um final). Antes de 2008, voltando pra casa todo dia da escola do ensino médio acompanhava parte de uma obra erguida por um morador ali na Vila das Belezas, que fez um terceiro pavimento TODO de vidro, com restos e esquadrias de madeira. Ficou muito bonito e diferente, apesar de hoje a acumulação de coisas internamente do pavimento tornou a ideia um fracasso, na minha visão engessada de futura arquiteta.

A vida é muito longa e estamos sempre a mudar para que nossas residências fiquem imutáveis ao tempo e às nossas evoluções. Felizes são aqueles que deixam os ferros dos pilares e das vigas apontando para fora e a pintura por fazer, que continuam o traçado de sua vida eternamente, transformado em construção e espaço de viver.

Penso num mundo com arquitetos menos dogmáticos sobre o que é belo. Que entendam as rachaduras e costurem esse tecido urbano, meticulosamente. E espero um dia eu também chegar lá.

Sabrina Vieira

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Trecho Sobre o Belo e a Paisagem

A primeira coisa que escrevi neste texto foi o título. Isto é um trecho, um recorte ínfimo da monumentalidade da memória. Ele está sendo escrito de forma torrencial, sem muita análise factual, apenas é um esboço mais refinado de algumas anotações relâmpagos que surgem sem pedir permissão em cadernos e papéis espalhados sem ordem cronológica.

Uma das coisas que mais me deixam maravilhado é poder viajar. Após ler alguns textos do Mário de Andrade intitulados de “O Turista aprendiz” por causa de um estudo que ando fazendo sobre a relação de Luís Câmara Cascudo e a obra da arquiteta Lina Bo Bardi, fui investigando de modo desorganizado, e à deriva, textos que se relacionassem nesse âmbito. Claro, calhei no Mario de Andrade e me senti incentivado a continuar fazendo algo mais além: fui querer dissipar o ano fazendo uma coisa que nunca fiz: ver os fogos da virada do ano “na praia”, especificamente na cidade Santos. Isso faz parte de uma experiência inconsciente de conhecer o Brasil, sendo que a maioria das viagens foi no estado de São Paulo, que é uma fração do imenso território brasileiro. Devido a ânsia literária e cultural, longe do cunho arquitetônico e urbanístico (parece que existem viagens que somos “pré-preparados” [pleonasmo, eu sei] para conhecer a arquitetura e certas temáticas urbanísticas, e deixo claro que não houve uma preparação prévia para isso) quis viajar sem destino seguro, me entregando a um estado que conheci muito mais nos últimos 8 meses do que na minha vida inteira. Me entreguei a um sistema de não planejamento de viagem, sem roteiros e com pouquíssimo dinheiro no bolso. Marcava as viagens no próprio dia e saía, mal deixando avisado as pessoas de minha volta para onde ia e quando voltava. Sei que parece um esquema aparente de fuga porém gosto de definir como “esquema de escape pessoal à normalidade tediosa que o mecanismo metropolitano da cidade de São Paulo impõe ao famigerado estilo de vida que possuo”.

Passei por cidades que já conhecia, ou aparentemente conhecia, conheci novas cidades e vilas e nem conheci 10 por cento do estado de São Paulo. Em alguns casos conheci pessoas pela internet e veículos sociais ou conheci pessoas na própria cidade ou aqui em São Paulo e em outros casos não conheci ninguém. A fórmula derivada de encontros pessoais estava, talvez por causa de motivos não tão assim fáceis de explicar ou correlacionar, ligadas à paisagem. É uma questão de ótica ou semiótica deturpada, que comento e encerro o assunto por aqui.

Os trajetos em grande parte foram feitos por meio terrestres, seja em carro ou ônibus, de dia, tarde, noite ou madrugada. Em cada trecho de estrada, esses relâmpagos de escrita foram se somando, sobrepondo as memórias recentes ou antigas, as especulações sobre o futuro e anseios que foram surgindo como as luzes da estrada, hora de modo rítmico e organizado, hora em hiatos, hora em distribuições sem nenhuma lógica ou padrão. Ver a paisagem passar pelo vidro, numa velocidade média de 80km/h não me permitia capturar com a câmera cada fração dessas mesmas paisagens, mas me outorgava o poder de as possui-las por um instante por meio de uma fotografia.

Entre essas viagens frequentei displicentemente as discussões do Alvoroço, que foram bálsamo de ironias com relação aos meus fundamentos sobre o belo, seja ele ideal ou não. Ver o contexto do belo citadino através de algumas fotos ao redor do mundo, apenas me fez voltar os olhos pra dentro de um tal nacionalismo tardio, sem o peso político do nacionalismo assim como da revolução derrocada de 1932. Na verdade, se transformou numa busca pelo brasileiro e o belo brasileiro. Poderia me ater ao belo universal, mas não, não quero isso, como o umbigo é meu e o texto também, decidi não me ater ao academismo que tem sempre mais do mesmo e sim a uma leitura quase sábia desse anseio de descobrir o que é do Brasil e suas belezas que se abriam como os pequenos palcos de circos já extintos em alguns lugares, itinerantes. Somando essa busca do belo aos diálogos difusos em meio a cervejas baratas e cachaças, licores da terra, o meu paladar foi se tornando terra vermelha, fértil, onde um milharal ou talvez um cafezal extenso foi se multiplicando, somado ao sabor de bananas da terra e vacas atoladas, porções de carne seca com licores de jabuticaba e figo, paneladas de tutu de feijão e jambolão como sobremesa.

Temporariamente senti o gosto de cada trecho percorrido e reorganizado mentalmente sem cronologia nenhuma, vendo a ação das pessoas de cada cidade e seu modo de lidar com o território em que elas conviviam e habitavam, seja na escala do pedestre, acucarado, seja pela escala de um ônibus de viagem onde o ir e vir dos viajantes fazia com que o tecido do banco tivesse cheiro de suor gasto. E nessas concepções surgiu-me a expressão pós-moderna (carece de classificação mais precisa) entendida como “beleza”. Costuma-se aliar essa expressão à pergunta: “ Beleza? como estão as coisas”, resposta “beleza”, seguido de uma complementação, seja ela “as coisas vão indo”, “tá tudo bem”, etc. Essa expressão que deve ter sido difundida por meios televisivos antes dos meios virtuais (entenda-se “a internet”) encontrei em muitas cidades do interior. E a mente com suas correlações (corre-laços-laços-grandes) fixou essa expressão que também anotei fugidamente em algum papel. A tal “beleza” como uma resposta pronta demonstrou algo semelhante ao significado de paz, que não é ausência de guerra, paz que pode ser compreendida como “normalidade”. A beleza na sua concepção pura, isso se formos entrar no sentido técnico e crítico (o Lavecchia deverá escrever sobre isso), está presente debaixo dos lençóis territóriais e étnicos do Brasil, não como um estado puro do sentido do belo, mas na condicionante “as coisas não estão bem, ou belas, mas essa é a beleza”.

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 Assim como a cidade de Leme tem destruído seus marcos arquitetônicos contando até com um episódio interessantíssimo de uma gangue especializada em roubar sinos de igrejas por causa do bronze, resgata-se o amor à memória da cidade por meio dos relatos orais que tive a oportunidade de escutar. A paisagem de Leme hoje, em sua tranquilidade, em sua quase planície completa me trouxe à memória uma pequena cidade que visitava com a minha mãe quando era criança, perto de Bogotá, Colômbia. Cravada na serra, La Calera é um lugar extremamente turístico, com um ar de cidade inacabada diferente que as cidades em construção. Não estou querendo aqui fazer uma comparação sem medida, já que as duas cidades são completamente diferentes e não possuem quase nenhuma semelhança. Leme não possuí nenhuma ciclovia, apesar de ser umas dez vezes maior em extensão territorial do que La Calera, mas La Calera tem uma porção de faixas para bicicleta em seu pequeno centro e arquitetônicamente falando as duas cidades nem tem referências próximas a não ser o materialidade do tijolo, não do estilo baiano, mas o tijolo compacto e maciço. Talvez foi isso que minha memória correlacionou entre as duas cidades, como se fosse o pequeno  e único fio entre as duas: estético. E distante, um lugar que apenas vi por fotos, chamado de Muuratsalo na Finlândia, a Casa do Alvar Aalto que serviu para seus experimentos em madeira, mas principalmente em tijolo, lugar que guardo como intenção de visita desde meu primeiro ano quando cursava arquitetura e urbanismo se juntou a esse fio de correlação.

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 Volto novamente ao crivo, depois de uma viagem e tanto procurando ser mais objetivo. Vendo os pacotes facilitadores para turistas, erguidos com bandeiras de CVC, cruzeiros Worlds, Imperials, ou nomes parecidos, ficou mais fácil visitar lugares ao redor do mundo, com destinos certeiros, com lazer garantido, tranquilidade ou agitação, lugares aptos para cartões postais e souvenires (aquelas lembrancinhas que podem ir do cafonismo ao lirismo num pulo). Porém tais destinos se assemelham cada vez mais. A paisagem é que muda, porém o hotel, as propostas construídas com base da publicidade turística tem uma padronização que me irrita. Talvez nessas pequenas cidades não turísticas e acabadas pelo esquecimento dos seus moradores ou pela lembrança exacerbada dos mesmos, seu contexto geográfico, pela culpa da moda e tendências que usurpam todo o potencial de um território deixando as cidades “menos interessantes” ao pó (cabe aqui uma leitura quase que obrigatória ao livro “Cem anos de Solidão” do García Marquez) são as cidades que me fazem pensar de que cada cidade tem alguma coisa para mostrar de “bela” e meu papel não beira o pedantismo de “achar o belo em cada coisa” mas procurar o olhar belo, aguçando-o através do sentimento de perdido, à deriva, não com o olhar de projeto, projétil com alvo certo, mas sim um tiro cego, no escuro, mesmo que acerte o vazio e que nesse vazio possa encontrar o belo. O belo territorial, sem saber especificamente suas margens, onde acaba esta ou aquela paisagem e sim procurar limites que mais parecem manchas ao invés de colocar um rótulo ou uma linha demarcadora do quê é o quê.

Nisso figura a Land-Art, discutida por Robert Smithson e Sol LeWitt, entre outros precursores. Me aproximei mais desta expressão por causa de dois livros: “Walkscapes” de Francesco Careri e “Leituras: do espaço íntimo ao espaço público” de Michèle Petit. A leitura desses dois livros é cíclica, não se acaba, ela começa e recomeça, sem saber já onde é seu começo. Figura também o entendimento da caminhada e a observação da paisagem, pois a Land-Art não pode ter sido “inventada” pelo grupo do Robert Smithson, ela sempre existiu, talvez o trabalho de Robert Smithson foi o de catalogar, uma velha mania cientifica que temos como humanos, na ânsia de organizar as coisas. A Land-Art existe desde muito antes, seja pelas pirâmides no Egito ou pelos caminhos invisíveis que os índios tupi-guaranis traçaram sem demarcação física e sim pela força da memória (podemos ter um exemplo no filme “A Missão” dirigido por Roland Joffé e ganhador do Oscar de melhor fotografia em 1986), ou também pelos templos budistas cravados nos abismos do Nepal e por ai vai. A paisagem e sua beleza tem aparecido mais constantemente pra mim como uma questão de observação. A diferença entre ver e enxergar é um problema de observação, profundidade e ângulo. Vemos muito e isso é mais um mal-estar contemporâneo, porém, temos deixado como sociedade de enxergar. Muito do belo tem se perdido entre essas duas palavras irmãs. Vi os fogos na orla de Santos mas não os fotografei. Me tive à bagunça padronizada da ocupação da praia, que começou compulsivamente meia hora antes da meia-noite, numa procissão em adoração à luz mecanizada. Vendo o instante em que árvores luminosas se abriam sobre o pano escuro do céu em escala monumental, durando instantes, apagando-se para dar outra sequência que tinha como partido um epicentro com destinos radiais terminando em serpentinas rosas, douradas, brancas ou gotas que pareciam desobedecer as regras físicas da gravidade, observei que as pessoas se atinham mais ao registro do momento do que ao momento. Elas viam, viam muito, portadas de telas de retina, grandes angulares, filmando mais do que fotografando e depois se auto retratando, com paus de selfies num sentido bem pornográfico do mesmo, pois ver é pornografia, enxergar é erotismo e aqui fico com a busca do “enxergar” como processo de atingir o belo, se der.

O mesmo aconteceu quando fui visitar a exposição dos “cabeções” do Mueck na Pinacoteca. Após tentar achar meu lugar ao sol diante de cada obra, para poder enxergar certos detalhes, procurei meu descanso vendo o movimento do vai e vem de visitantes, principalmente na obra instalada no octógono e fiz os seguintes registros que publiquei no palco exibicionista da imagem chamado “instagram”:

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Decidi encontrar uma resposta válida para a quantidade de registros fotográficos feitos nessa exposição, mas deixo isso para pessoas especializadas no assunto. Apenas me pergunto se a captura da imagem, que neste caso vou catalogar como “bela” é mais importante que a própria memória. A imagem guardada em disco rígido, memória flash (o nome diz tudo) ou na nuvem (esses sofismas tecnológicos) inferiria no alcance da “memória do belo”? Essa última pergunta me surgiu após voltar de bicicleta da Pinacoteca à caminho de casa. Tinha passado pelo que chamo de “food truck de viciado”, a cracolância itinerante, ao lado da linda estação Júlio Prestes. A paisagem contrastante poderia ser considerado um cenário decadente, mas considero como paisagem, porque o vício que vi era vegetativo e não sei porque loucura correlacionei também com vegetais, plantas, plantações. Achei a correlação bela, a paisagem não, mas tanto faz.

 

Filipe Barcelos de Faria