Marcado: resistência

NÃO, GAFAAM, NÃO!

A realidade e o tempo tem se revelado de uma forma ambígua. Claro,
existe o amadurecimento, sim, ainda mais vendo que quase metade
daqueles que fundaram o pequeno grupo de alunos da faculdade Anhembi
Morumbi, já estão formados e seguem com seus propósitos, batalhando
por uma educação e formação adequada, seja perante o IAB, CAU e o mais
importante, perante a sociedade.
Ser estudante e não estar estudando. Essa é a diferença, foi isso que
nos uniu no começo, pois sabíamos que não estávamos estudando somente
e sim nos encontrávamos subjugados a outra condição: o de estar
condenados ao jugo da arquitetura e do urbanismo, vivendo-a e sendo-a
nos estudos, uma propriedade que talvez não entendiamos em 2011,
quando nem sabíamos direito o que era fazer a mediação de um debate,
organizar palestras enormes com pessoal da Espanha, Portugal, França e
ainda não pagar nem um tostão para termos exposições acadêmicas que
dão prazer, que mudaram turmas e formações que criaram debates
internos entre os próprios alunos ajudando a re-desenhar a história do
curso de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Anhembi Morumbi, na
cidade de São Paulo, no grande país que é o Brasil.
Decidi acompanhar de perto todas as situações que aconteciam na
Universidade onde me formei porque os professores viraram amigos e os
alunos eram (e são) os meus iguais e isso é motivo suficiente para que
meu diploma me fizesse voltar os olhos para minha formação, tendo sido
completa ou não e decidir ainda pedir e solicitar ao jugo
arquitetônico algumas mudanças.
Foi na Anhembi Morumbi e principalmente, conhecendo e participando do
GAFAAM, que vi que meia dúzia de pessoas poderiam incomodar o setor
jurídico de uma associação internacional de ensino que não visa mais o
conhecimento e sim somente o reconhecimento de aplicações monetárias
dos seus investidores. Foi nos corredores do galpão em 2009 que
esparramamos as carteiras, as mesas e começamos a gritaria e o próprio
Fábio Mariz (um dos melhores coordenadores que já vi e tive
oportunidade de conviver) deu as caras e foi falar de turma em turma
dando os pareceres e justificações de certas coisas mas não só isso, a
ele se somavam aulas inspiradoras, enraizadas no verdadeiro sentido de
expor a experiência dentro do campo da arquitetura.  Talvez fosse o
presságio para que a ativação da não conformidade extrapolasse e
violentasse o espaço stricto sensu do ensino e do aprendizado. Me
entreguei ao GAFAAM sabendo que seria o melhor erro da minha vida.
Foi lá que tive que ver a Maria Helena Flynn ser demitida embora por
uma broma incrédula de próprios alunos acomodados com sua segurança,
retirando uma das fundadoras do curso na Anhembi Morumdi. Junto com
ela o admirável Oprheu Zamboni que com seu humor atravessado impactou
a formação de muitas pessoas sendo sincero como uma estrutura
aparente, sem o pastiche do revestimento-máscara que permeia entre a
arquitetura que vemos em muitas das nossas esquinas atualmente.  Foi
na Anhembi Morumbi que vi o Chichierquio contando sua história a uma
legião de alunos que queriam entender o processo de aprendizado dos
seus professores e o próprio Chichi (como chamamos ele, sim, de jeito
carinhoso com o mesmo respeito aos avós, não só pela velhice, e sim
pela experiência e o saber fazer) com seu tom amável e explicativo
mostrou os motivos de mudança para lutar contra a estagnação.
Muitas outras experiências organizadas pelo GAFAAM renderam histórias
como as viagens ao Rio, Curitiba, Brasília e a Santos com o surgimento
da rádio-comédia Térreo+1 (pois o ônibus tinha dois andares), assim
como o relacionamento estreito que houve entre o Sr. Élio, Imperador e
catalogador do NupDOC, onde todos os mapas, trabalhos e histórias da
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Anhembi Morumbi se encontram,
nutridas por um humor sério e irônico do Sr. Élio que não esquece e
não permite que outros esqueçam também.
Bem, cadê o GAFAAM? Evaporou. Hoje é um conglomerado que ainda procura
batalhar, passando por dificuldades de comunicação com os alunos e
principalmente com a coordenação, pois a própria Anhembi Morumbi acha
um incomodo ser criticada, ouvir sugestões, aplicá-las e o objetivo
ultimamente tem sido fragilizar possíveis estruturas que querem mudar
o panorama da educação. Como o GAFAAM é composto por alunos tem que se
entender que são alunos batalhando pelos alunos. Alunos que não são
pagos, que não recebem benefícios ou bolsas para produzir eventos ou
as famosas Semanas de Boas-Vindas, simplesmente são alunos que não
querem ver as coisas acontecerem, eles fazem as coisas, mesmo que não
sejam espetaculares e procuram até hoje dialogar, mesmo em meio a
gritaria da mensalidade abusiva, de alunos patogênicos que desejam
apenas criticar e dar a bunda para a instituição sem ao menos ter
prazer, prazer de estar na instituição para estudar pois penso que
essa é a intenção quando se entra na faculdade. Se o GAFAAM está em
seu estado gasoso, é por que faz parte do processo. Às vezes é
necessário evaporar para depois chover como canivete sobre o teto de
vidro da instituição econômica e penetrar profundamente na mente dos
alunos. É necessário fazer sangrar para desinfetar essa ferida
educacional que também tem se instalado no GAFAAM, que tem que ser
ovacionado e ao mesmo tempo espancado pelos alunos que querem mudança,
pois é o GAFAAM que poderá representar a voz e o coro da mudança.
Por isso procurem quem é do GAFAAM e o coloquem contra a parede porque
assim, de certo modo vocês estarão juntos na briga, pois a coisa menos
importante que se deixa na Anhembi Morumbi é o dinheiro, outras coisas
são principais, como o tempo que passamos pensando nos projetos,
refletindo nas aulas, no tempo em que olhamos para o rosto do
professor vendo seus gestos e desenhos, suas orientações e
desorientações, absorvendo as críticas e propondo soluções
alternativas, tudo isso é por causa da Faculdade de Arquitetura e
Urbanismo. E não é culpa do GAFAAM que a educação esteja melhor ou
pior (dicotomias e contrariedades à parte), por que o próprio nome do
GAFAAM quer dizer a coletividade, o grupo de alunos, é o espelho, é a
mesma coisa, porra.
O GAFAAM não é quem representa oficialmente o GAFAAM e sim todos,
vocês, nós, ALUNOS, bons e ruins, bonitos e feios, esquerdistas e
direitistas, putos ou santos, não interessa, se perceberem que o
diploma é um papel apenas e que a formação vai além do que cumprir a
burocracia do escutar e não questionar, principalmente as normas de
uma instituição sustentada por vocês mesmos e que ao mesmo tempo educa
e gera profissionais que literalmente “constroem”. O problema é que a
Anhembi só quer sua presença e não sua cabeça. Um modo passivo de
prostituição, um pacto com o demônio da educação econômica
contemporânea.
Façam acontecer ainda a Semana de Boas-vindas deste semestre, discutam
abertamente em qualquer lugar da faculdade e levantem-se diante das
fôrmas mal elaboradas da instituição, entulhadas aos professores que
tem que seguir uma cartilha pacifica de contestações ou críticas.
Saibam que o tal mercado que a o Templo Educacional
Laureate-Cacete-Murcho diz, é malvado, mas é também antigo e
monárquico, factível de morte se alguém decidir apunhala-lo.
Por isso, eu, arquiteto e urbanista, humano, eterno aluno e membro do
GAFAAM por prazer e obrigação da consciência, me preocupo com os
futuros profissionais que hoje estão na graduação, às vezes perdidos
ou convictos do que realmente querem e que precisam tomar decisões
bruscas sobre a realidade de sua formação.
E aos que hoje representam o GAFAAM, nada de ficar cabisbaixos com
problemas que querem corromper a alegria de ser parte dessa mudança,
não fiquem estáticos esperando as estrias chegarem nos músculos da
mente, nada de peidarem para a opinião de quem critica o grupo, nada
de se revoltarem como criancinhas mimadas com frescuras tão frescas
que até o tempo fresco do conforto tem nojo. Lembrem que nunca vai
terminar essa merda, pois fora da faculdade as coisas somente mudam de
nome e ser contingente ao desânimo absoluto é se suicidar com um
escalímetro enterrado nos olhos. Não centralizem essas coisas à uma
única pessoa, sejam maduros para saber quem é o líder, se é que existe
um. Apontem os erros, mas abracem essa merda e queiram se sujar de
verdade, não pensando que OMO vai limpar essa sujeira, vocês fazem a
merda e vocês mesmos limpam a merda e isto é aprendizado. GAFAAM não é
um fardo triste e sim um fardo feliz. Se se tornou triste, beba uma
pinga e volte pra soltar esse bafo entorpecente na cara do sistema
vigente com um sorriso no rosto e uma marreta na mão, pois assim como
Roterdã destruiu o que pouco restava depois da Segunda Guerra Mundial,
eles decidiram erguer as coisas do zero, coletivamente, não apenas
“construindo” mas pensando o que construir, como construir e se era
mesmo necessário construir, pois esta é talvez a limítrofe entre o
construtor e o arquiteto urbanista e pelo que eu sei, os alunos que
estudam Arquitetura e Urbanismo não querem ser somente construtores.

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Publicado originalmente em

http://mutatismutandisescritos.blogspot.com.br/2014/08/nao-gafaam-nao.html

Filipe Faria

Arquiteto Urbanista

Membro fundador do GAFAAM

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