Marcado: felicidade

Ideal de Cidade x Cidade Ideal

“Não basta que seja bela, que guarde riquezas, cresça; nenhuma cidade pode ser melhor que a MINHA cidade, ainda que tenha o que ela não tem ou lhe tente ofuscar com grandezas.

Minha cidade guarda em si o ideal que construí. Sonhos que me deixei sonhar e em algum momento foi, é, ou ainda virá a ser: a cidade em que vivo.”

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Nunca foi fácil descrever a cidade ideal, tão substancial e palpável quanto a felicidade, por exemplo: simplesmente não ‘é’. Felicidade é relativa; para alguns, ela reside no ter um teto, uma padaria em que se chegue a pé por perto, um espaço de céu sem concreto por onde o sol se permita bater na janela, amarelar algumas folhas de árvores e acordar aves no telhado; para outros, o pisar da grama ao acordar em qualquer lugar que não lhe pertença. Para mim, alguns dias, é apenas um copo de café e um bom livro no metrô. Individual, mas em algum momento, ela pode ser coletiva.

Já me propus a pensar sobre felicidade, acredito todo dia ser uma questão interessante. Nunca vi ou ouvi dizer sobre felicidade que se faz sozinha. Não sabemos conviver com o vazio, com a inexistência ou com a ausência. Sócrates afirmava que “uma cidade, nasce ou é tal porque se dá o caso de cada um de nós não ser auto suficiente, mas carentes de muitas coisas. Deu-se o nome de cidade à essa convivência de muitos carentes”, auto-suficiência, individualidade, contradiz a definição de cidade, contradiz a feliz-cidade, a felicidade.

Ainda acredito em cidades como organismos, é vivo, pulsante, e talvez orgânica. Se faz pela sua natureza e, se transforma e é transformada pela natureza de cada um, pela felicidade, a ausência ou busca dela, ainda que individual.

Não vejo ações cidadãs que se afirmem sem que tenha em seu contexto a constante busca por um ideal, o grande objetivo da humanidade: felicidade. Assim, é consequente a pré-concepção da cidade ideal frente a cidade idealizada, propondo-se o ideal como questão e aceitando-o como inatingível frente a aceitação do inatingível mas permitindo-se o sonhar: a utopia de grandes cidades; cidades tão humanas quanto os reflexos culturais e pessoais no construir de uma pequena casa: orgânicas, moldáveis, passíveis de transformação.

 Joseph Rikwert já colocava a cidade como a maior conquista inalienável da humanidade em “A sedução do lugar” e, é desta forma, que ela se transforma sob os aspectos culturais e humanos de seus cidadãos, suas buscas, seus ideais e anseios que vão além do platonismo da cidade ideal, residente no belo. O belo está nos olhos de quem a vê e cada um a vê sob os reflexos de sua história. A cidade se transforma, e busca o prevalecer de sua projeção ideal sobre imposição de grandes planos capitais.

É certo que tenhamos hoje, como já afirma Rickwert, instituída a grande capital, o centro do mundo, como sendo o centro financeiro mais notável: Manhattan e; como afirma Lefebvre em sua produção literária: “(…) as cidades se isolam da natureza” e, cada vez mais, de sua própria natureza . Contudo, quanto mais se pensa a felicidade e contrapõe esta às cidades em que vivemos, centros econômicos ou geográficos, menos se prova que a cidade global que almejamos, idealizamos, buscamos projetar ou alcançar diariamente seja um centro financeiro.

Se a cidade se molda e se faz ao seu cidadão, tem-se a cidade representação espacial da identidade de um povo e apesar do modelo econômico que vivemos desenhar nossas vidas, a cidade representa mais do que imposição de valores (capital), representa uma cultura, um desejo, uma busca. Talvez o desafio da cidade resida justamente no valor: a distinção / contradição entre os valores ideais que usamos para nossa cidade idealizada e, os valores que tomamos para nós nas atitudes cotidianas.

Assistimos ao longo dos anos nossas cidades assumirem um papel antropofágico, mas o que se absorveu foi um modelo de ocupação americano onde tradição e valores começam a sucumbir perante a incerteza do novo e tecnológico, cujo resultado é a busca por ocupação de um vazio não apenas externo (paisagem), mas também interno (humano); de forma inconseqüente, que leva a criação de cidades supra-ocupadas, centros de passagem e o caminho a ações destrutivas pautadas em progresso, um progresso volúvel, que se modifica a cada nova realidade econômica pela qual passamos.

 São Paulo tem sim a ‘cara’ de todos que aqui chegaram e a ocuparam, talvez essa seja sua verdadeira identidade: domínio da mixofilia sobre a mixofobia; mas basta sair um pouco do seu centro geográfico e toda sua particularidade geográfica, biológica e antropológica começa a ser maquiada por uma produção arquitetônica, uma produção HUMANA que se aproxima mais da capital do mundo do que da cidade outrora idealizada, a mesma produção volúvel que os modelos econômicos nos impõem.

Se a cidade é produto do que o homem a faz e não da natureza, a transformação da dinâmica urbana está intrínseca na transformação cultural e revisão de valores humanos. Se hoje agimos como máquinas, nosso produto é uma cidade mecânica onde não se vive, se passa, atravessa, mas não se deixa estar. Contudo, nas mãos do arquiteto ainda estão as ferramentas para a essa revisão de valores: como se faz a cidade que queremos ter. A cidade que se quer, ainda não é a que se tem, mas é a que se pode ter; falta-lhe credulidade e um pouco de paixão para acreditar que utopia de Thomas More, ainda que paralela à nossa realidade, pode encontrar um ponto no espaço-tempo para se fazer verdade.

Bruna Ferreira

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