Marcado: Arquitetura

Algo Sobre Uma Beleza

Falar de periferia é um fácil clichê, difícil mesmo é ser morar lá (Periferia no sentido do que é a periferia de São Paulo, os bairros mais simples da cidade, Capão Redondo, Campo Limpo, Jd. Angela, Grajaú, Vila Fundão). Não por ser ruim, não porque é mal localizado, por dizerem que é esquecido, pelo medo na vizinhança e até preguiça dos outros de chegar à sua casa; não pela “pobreza de traços arquitetônicos”, nem pelo baile funk ambulante que às vezes passa em frente à porta.

Porque mesmo é difícil morar lá? Afinal, na rua todo mundo se conhece como quem vive em cidade de interior, as crianças brincam e gritam a tarde toda até à noite, e em frente a sua casa pode ter uma mecânica, uma igreja, um cabeleireiro, uma vendinha, um boteco, um barzinho, todos com o portão de enrolar levantados, as correntes e cadeados guardados, os mais sofisticados colocaram portões de vidro em seus comércios – mas aí é outra coisa, em geral todos têm a mesma carinha e apenas mudam os nomes, as funções e as relações, porque essas pessoas veem os filhos dos vizinhos crescerem e os filhos dos filhos dos vizinhos nascerem e moram nos seus comércios ou comerciam em suas casas. Engana-se quem pensa que periferia é um lugar empobrecido de população pobre em poder aquisitivo, ou pior, que periferia é lugar pobre em cultura.

Têm loja de roupa, loja de calçado, loja de “um real”, padarias, mercados, sacolões, costureiras com brechós e sebos no mesmo lugar, sorveteria, doceria, floricultura, e até o must dos últimos tempos: aquelas casas de vender coisas naturais e orgânicas que tem um nome verde pra você assimilar que tudo é saudável – que são legais! O mundo mudou na periferia, e eu vi isso.

As ruas são cheias de expressões únicas, e aqui ou ali pode ouvir alguém falando de política, economia, música, teatro, aulas, livros, religião, e às vezes, se escuta que o preço da carne subiu ou sobre o personagem da novela que morreu também.

Nas escolas, os muros de fora não são pintados com crianças felizes e saltitantes que estão indo para um lugar mágico, mas com cores vibrantes e figuras extraídas de mentes de pura imaginação, desse pessoal que suja os dedos de tinta e embeleza a rua. Nas árvores, às vezes, tem outras plantas germinando, e são dos mais variados tipos; os jardins, quando existem, são estilo tia cotinha, mas eu diria que são contemporaneamente bucólicos! Têm também aqueles jardins feitos de latas e expostos nas lajes e nas varandas, esses periféricos estilosos cheios de sustentabilidade e verde aflorando de dentro pra fora, os reutilizadores primários desse tipo de sociedade em metrópoles!

E essa vontade toda de inovar reutilizando materiais, eu me lembro de uma época que isso não era ‘cool’, mas coisa de pobre. Gosto de ver como a pobreza se elitizou ultimamente, e como o novo status que ela tem de “sustentabilidade” ou “verde” agrada bem mais às pessoas, do que serem simplesmente chamadas de “pobres” por serem criativos e livres desses paradigmas estéticos arquitetônicos dos últimos gritos das tendências. Sim, há espelhamento de uma ideia elitizada do que é uma casa, mas uma ideia antiga, em que traços de herança histórica, influências e condições econômicas se misturam.

Em se tratando de arquitetura, bem, pode-se dizer que muitas soluções criativas e inusitadas que vi na minha curta vida como estudante de arquitetura, até agora, estão na periferia, questões de técnicas construtivas a parte. Totalmente desprendido de padrões de estética da arquitetura formal, bem como das técnicas construtivas ou de dimensinamento do desenvolvimento tecnológico, o resultado é muito interessante (quando chegam a um final). Antes de 2008, voltando pra casa todo dia da escola do ensino médio acompanhava parte de uma obra erguida por um morador ali na Vila das Belezas, que fez um terceiro pavimento TODO de vidro, com restos e esquadrias de madeira. Ficou muito bonito e diferente, apesar de hoje a acumulação de coisas internamente do pavimento tornou a ideia um fracasso, na minha visão engessada de futura arquiteta.

A vida é muito longa e estamos sempre a mudar para que nossas residências fiquem imutáveis ao tempo e às nossas evoluções. Felizes são aqueles que deixam os ferros dos pilares e das vigas apontando para fora e a pintura por fazer, que continuam o traçado de sua vida eternamente, transformado em construção e espaço de viver.

Penso num mundo com arquitetos menos dogmáticos sobre o que é belo. Que entendam as rachaduras e costurem esse tecido urbano, meticulosamente. E espero um dia eu também chegar lá.

Sabrina Vieira

Anúncios

NÃO, GAFAAM, NÃO!

A realidade e o tempo tem se revelado de uma forma ambígua. Claro,
existe o amadurecimento, sim, ainda mais vendo que quase metade
daqueles que fundaram o pequeno grupo de alunos da faculdade Anhembi
Morumbi, já estão formados e seguem com seus propósitos, batalhando
por uma educação e formação adequada, seja perante o IAB, CAU e o mais
importante, perante a sociedade.
Ser estudante e não estar estudando. Essa é a diferença, foi isso que
nos uniu no começo, pois sabíamos que não estávamos estudando somente
e sim nos encontrávamos subjugados a outra condição: o de estar
condenados ao jugo da arquitetura e do urbanismo, vivendo-a e sendo-a
nos estudos, uma propriedade que talvez não entendiamos em 2011,
quando nem sabíamos direito o que era fazer a mediação de um debate,
organizar palestras enormes com pessoal da Espanha, Portugal, França e
ainda não pagar nem um tostão para termos exposições acadêmicas que
dão prazer, que mudaram turmas e formações que criaram debates
internos entre os próprios alunos ajudando a re-desenhar a história do
curso de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Anhembi Morumbi, na
cidade de São Paulo, no grande país que é o Brasil.
Decidi acompanhar de perto todas as situações que aconteciam na
Universidade onde me formei porque os professores viraram amigos e os
alunos eram (e são) os meus iguais e isso é motivo suficiente para que
meu diploma me fizesse voltar os olhos para minha formação, tendo sido
completa ou não e decidir ainda pedir e solicitar ao jugo
arquitetônico algumas mudanças.
Foi na Anhembi Morumbi e principalmente, conhecendo e participando do
GAFAAM, que vi que meia dúzia de pessoas poderiam incomodar o setor
jurídico de uma associação internacional de ensino que não visa mais o
conhecimento e sim somente o reconhecimento de aplicações monetárias
dos seus investidores. Foi nos corredores do galpão em 2009 que
esparramamos as carteiras, as mesas e começamos a gritaria e o próprio
Fábio Mariz (um dos melhores coordenadores que já vi e tive
oportunidade de conviver) deu as caras e foi falar de turma em turma
dando os pareceres e justificações de certas coisas mas não só isso, a
ele se somavam aulas inspiradoras, enraizadas no verdadeiro sentido de
expor a experiência dentro do campo da arquitetura.  Talvez fosse o
presságio para que a ativação da não conformidade extrapolasse e
violentasse o espaço stricto sensu do ensino e do aprendizado. Me
entreguei ao GAFAAM sabendo que seria o melhor erro da minha vida.
Foi lá que tive que ver a Maria Helena Flynn ser demitida embora por
uma broma incrédula de próprios alunos acomodados com sua segurança,
retirando uma das fundadoras do curso na Anhembi Morumdi. Junto com
ela o admirável Oprheu Zamboni que com seu humor atravessado impactou
a formação de muitas pessoas sendo sincero como uma estrutura
aparente, sem o pastiche do revestimento-máscara que permeia entre a
arquitetura que vemos em muitas das nossas esquinas atualmente.  Foi
na Anhembi Morumbi que vi o Chichierquio contando sua história a uma
legião de alunos que queriam entender o processo de aprendizado dos
seus professores e o próprio Chichi (como chamamos ele, sim, de jeito
carinhoso com o mesmo respeito aos avós, não só pela velhice, e sim
pela experiência e o saber fazer) com seu tom amável e explicativo
mostrou os motivos de mudança para lutar contra a estagnação.
Muitas outras experiências organizadas pelo GAFAAM renderam histórias
como as viagens ao Rio, Curitiba, Brasília e a Santos com o surgimento
da rádio-comédia Térreo+1 (pois o ônibus tinha dois andares), assim
como o relacionamento estreito que houve entre o Sr. Élio, Imperador e
catalogador do NupDOC, onde todos os mapas, trabalhos e histórias da
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Anhembi Morumbi se encontram,
nutridas por um humor sério e irônico do Sr. Élio que não esquece e
não permite que outros esqueçam também.
Bem, cadê o GAFAAM? Evaporou. Hoje é um conglomerado que ainda procura
batalhar, passando por dificuldades de comunicação com os alunos e
principalmente com a coordenação, pois a própria Anhembi Morumbi acha
um incomodo ser criticada, ouvir sugestões, aplicá-las e o objetivo
ultimamente tem sido fragilizar possíveis estruturas que querem mudar
o panorama da educação. Como o GAFAAM é composto por alunos tem que se
entender que são alunos batalhando pelos alunos. Alunos que não são
pagos, que não recebem benefícios ou bolsas para produzir eventos ou
as famosas Semanas de Boas-Vindas, simplesmente são alunos que não
querem ver as coisas acontecerem, eles fazem as coisas, mesmo que não
sejam espetaculares e procuram até hoje dialogar, mesmo em meio a
gritaria da mensalidade abusiva, de alunos patogênicos que desejam
apenas criticar e dar a bunda para a instituição sem ao menos ter
prazer, prazer de estar na instituição para estudar pois penso que
essa é a intenção quando se entra na faculdade. Se o GAFAAM está em
seu estado gasoso, é por que faz parte do processo. Às vezes é
necessário evaporar para depois chover como canivete sobre o teto de
vidro da instituição econômica e penetrar profundamente na mente dos
alunos. É necessário fazer sangrar para desinfetar essa ferida
educacional que também tem se instalado no GAFAAM, que tem que ser
ovacionado e ao mesmo tempo espancado pelos alunos que querem mudança,
pois é o GAFAAM que poderá representar a voz e o coro da mudança.
Por isso procurem quem é do GAFAAM e o coloquem contra a parede porque
assim, de certo modo vocês estarão juntos na briga, pois a coisa menos
importante que se deixa na Anhembi Morumbi é o dinheiro, outras coisas
são principais, como o tempo que passamos pensando nos projetos,
refletindo nas aulas, no tempo em que olhamos para o rosto do
professor vendo seus gestos e desenhos, suas orientações e
desorientações, absorvendo as críticas e propondo soluções
alternativas, tudo isso é por causa da Faculdade de Arquitetura e
Urbanismo. E não é culpa do GAFAAM que a educação esteja melhor ou
pior (dicotomias e contrariedades à parte), por que o próprio nome do
GAFAAM quer dizer a coletividade, o grupo de alunos, é o espelho, é a
mesma coisa, porra.
O GAFAAM não é quem representa oficialmente o GAFAAM e sim todos,
vocês, nós, ALUNOS, bons e ruins, bonitos e feios, esquerdistas e
direitistas, putos ou santos, não interessa, se perceberem que o
diploma é um papel apenas e que a formação vai além do que cumprir a
burocracia do escutar e não questionar, principalmente as normas de
uma instituição sustentada por vocês mesmos e que ao mesmo tempo educa
e gera profissionais que literalmente “constroem”. O problema é que a
Anhembi só quer sua presença e não sua cabeça. Um modo passivo de
prostituição, um pacto com o demônio da educação econômica
contemporânea.
Façam acontecer ainda a Semana de Boas-vindas deste semestre, discutam
abertamente em qualquer lugar da faculdade e levantem-se diante das
fôrmas mal elaboradas da instituição, entulhadas aos professores que
tem que seguir uma cartilha pacifica de contestações ou críticas.
Saibam que o tal mercado que a o Templo Educacional
Laureate-Cacete-Murcho diz, é malvado, mas é também antigo e
monárquico, factível de morte se alguém decidir apunhala-lo.
Por isso, eu, arquiteto e urbanista, humano, eterno aluno e membro do
GAFAAM por prazer e obrigação da consciência, me preocupo com os
futuros profissionais que hoje estão na graduação, às vezes perdidos
ou convictos do que realmente querem e que precisam tomar decisões
bruscas sobre a realidade de sua formação.
E aos que hoje representam o GAFAAM, nada de ficar cabisbaixos com
problemas que querem corromper a alegria de ser parte dessa mudança,
não fiquem estáticos esperando as estrias chegarem nos músculos da
mente, nada de peidarem para a opinião de quem critica o grupo, nada
de se revoltarem como criancinhas mimadas com frescuras tão frescas
que até o tempo fresco do conforto tem nojo. Lembrem que nunca vai
terminar essa merda, pois fora da faculdade as coisas somente mudam de
nome e ser contingente ao desânimo absoluto é se suicidar com um
escalímetro enterrado nos olhos. Não centralizem essas coisas à uma
única pessoa, sejam maduros para saber quem é o líder, se é que existe
um. Apontem os erros, mas abracem essa merda e queiram se sujar de
verdade, não pensando que OMO vai limpar essa sujeira, vocês fazem a
merda e vocês mesmos limpam a merda e isto é aprendizado. GAFAAM não é
um fardo triste e sim um fardo feliz. Se se tornou triste, beba uma
pinga e volte pra soltar esse bafo entorpecente na cara do sistema
vigente com um sorriso no rosto e uma marreta na mão, pois assim como
Roterdã destruiu o que pouco restava depois da Segunda Guerra Mundial,
eles decidiram erguer as coisas do zero, coletivamente, não apenas
“construindo” mas pensando o que construir, como construir e se era
mesmo necessário construir, pois esta é talvez a limítrofe entre o
construtor e o arquiteto urbanista e pelo que eu sei, os alunos que
estudam Arquitetura e Urbanismo não querem ser somente construtores.

10596039_10152191843176954_38580548_n

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Publicado originalmente em

http://mutatismutandisescritos.blogspot.com.br/2014/08/nao-gafaam-nao.html

Filipe Faria

Arquiteto Urbanista

Membro fundador do GAFAAM

A culpa é da vertigem.

“Centro aguado”, como em breve ou agora ou daqui a pouco, o Lucas vai falar. Talvez antes mesmo de começar a escrever estas linhas, eu tenha bebido um pouco da liquidez do centro, onde ele se diluiu tanto que chega a ser tudo, menos o centro, pode até chegar a ser cidade. “Ah, mas que surpresa” diz o cético contemporâneo, que enxerga a cidade como prateleiras de brinquedos, dizendo que não existe liquidez ou “ausência de forma” seja ela linear ou não linear contradizendo o pressuposto de estudos urbanísticos que os urbanistas, geógrafos e outros técnicos definem pelo termo “manchas”. Essas manchas são talvez o reflexo mais exato de observação da cidade. Por outro lado, esse mesmo cético seguro de si, enxerga muito bem a necessidade de gerir ou exercitar a administração da cidade, mais cai na armadilha da dúvida quando seus atos demonstram que não existe uma necessidade segura de “construção da cidade”, pois afinal a cidade já está construída.

A dúvida sempre acompanha o trabalho do urbanista que possuí na sua prancheta manchas e mais manchas e não uma linha cortante que diz “aqui acaba a cidade”, “aqui o centro termina” “aqui não há solução”. Infelizmente essas limítrofes acomodadas são herança de muralhas burocráticas, filhas de diretrizes de programas de governo ou “gestão”. Aliás, a palavra “gestor” e seus derivados semelhantes, estão sendo usados e desgastados pela política comercial (novamente) contemporânea, pelos centros de ensinos públicos e privados, pois não só está na moda, mas necessariamente se acomoda no assunto. Um discurso de fazer brilhar os olhos “quem não sabe gerir um projeto, não consegue fazer nada”. Sim, hoje se formam mais gestores em cursos de especialização fecundos e suas propagandas, em placas de neon à Vegas, brilham chamando a atenção da cidade que se o Venturi estivesse vivo, também os estudaria e aplaudiria. Gestão urbana, gestão política, gestão ambiental, gestão de não sei o quê e pra quê. Não duvido que se aprenda realmente a gerir. E a gestão, infelizmente, lida com o valor do capital, e aqui podem se levantar vozes algozes partidárias. Aprende-se a gerir, só. É necessária uma carga horária no mínimo risonha, para ensinar gerir as coisas (detalhe para a palavra “coisas”) afinal, a cidade é uma coisa, coisa liquida, não só por causa das enchentes, não, isso não, mas pela sua diluição, sua centralidade sem definição que até hoje não sei se é um defeito ou o melhor acerto possível, herança da gambiarra portuguesa misturada com as “n” etnias culturais que encontraram na Paulicéia um lar.

De acordo com Jucélio Paiva: “Administrar é o processo de dirigir ações que utilizam recursos para atingir objetivos. Embora seja importante em qualquer escala de aplicação de recursos, a principal razão para o estudo da Administração é seu impacto sobre o desempenho das organizações. É a forma como são administradas que torna as organizações mais ou menos capazes de utilizar corretamente seus recursos para atingir os objetivos corretos” [1].

Decidi entrar nesse tema enfadonho como um gaiato mal comportado, pois os textos estão repletos de conceitos resumidos nas palavras “recursos, objetivos, aplicação, organização”. Mas calma, não seriam essas palavras, voltadas à prática da arquitetura e urbanismo a própria definição do que é projeto (projétil: que dispara de encontro a um alvo), planejamento urbano, o próprio estudo e desenho? Conforme o Dicionário Priberam, administrar significa: Dirigir superiormente. O urbanista não faz isso enxergando a cidade do alto, observando seus desenhos, sua organização espacial (mesmo que desorganizada), seus pontos de encontro, etc? Só no sentido poético da definição do conceito “superior” isso se torna plausível, de resto não. O termo é questão de liderança, não no seu sentido desagradável de hierarquia capitalista onde “ele é mais do que o resto” e sim de coordenação dos trabalhos. O que levanta outra questão no mínimo engraçada: quem administra/gere hoje a cidade? Hoje se fala também em políticas públicas, só se fala, em boca miúda, nada de discussões violentas e debates e são poucos os grupos que decidem levar ao palco essa orquestra experimental de discussão da cidade na sua melodia mais ríspida e densa.

É com orgulho que ainda não sou um “gestor de cidades”. O urbanista é um objeto arcaico para os gestores, um “instrumento” que pode ser deixado de lado, pois ele vem antes do “gerir”. Ele faz isso na sua discussão aberta, participativa, no traço coletivo, vendo o que é a cidade hoje para pensá-la no futuro não partindo do pressuposto financeiro/capetalista* (totalmente ligado ao conceito de gestão que hoje se ensina).

Deve causar vertigem a aqueles que não voaram em pensamento pra ver São Paulo do alto, na chamada aerofotogrametria estando ao mesmo tempo com os pés no chão, vivendo a cidade e suas (a)normalidades e (d)eficiências. Se não sabemos pensar na utopia de uma cidade ideal, correta e justa, não só em forma/fôrma, como podemos querer gerir algo que nem ao menos conhecemos intrinsecamente. Por isso fazemos diagnósticos, conversamos em traços, manchas, sobrepomos transparências, lemos a história em letras e em registros fotográficos, em mapas, filmes, documentários, nas fofocas históricas, nos processos urbanos de ocupação legal e ilegal, na própria experiência de vida. Quando a cidade deixar se der desenhada com cifras, conseguiremos construí-la e aprender a geri-la corretamente, mesmo que tudo isto pareça uma balela, uma “utopia”, das piores.

foto-texto-filipe

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Filipe Faria, 25 de março, 2013

Arquiteto Urbanista


[1] Maximiano, Antonio Cesar Amaru. Introdução à administração – 5. ed.rev.e ampl.- São Paulo : Atlas, 2000

1982 – Quando as Lanternas Esculpiam os Sonhos nas Noites Escuras do Centreville

A memória é a única realidade.

Dia desses, organizando gavetas e caixas de pertences, encontrei coisas incríveis que me levaram a tempos outros, transportado por imagens e textos, cuja lembrança, desenhos, croquis e escritos, me deram a chance de vivê-los novamente como um recorte de sentidos e renovações, uma janela virada para trás. A saudade é manifestação sensível do estoque de emoções aprisionadas pelo tempo. Encontrei desenhos de 1982, na época em que estava, como um aprendiz de feiticeiro, no escritório “Galpão da Vila Madalena”, observando atentamente Antonio Carlos Barossi, José Geraldo Martins de Oliveira e, sobretudo, José Calazans, falecido recentemente.

O Galpão era um lugar que nasceu da construção de um projeto ideal de sociedade de alguns colegas da FAU USP e que transformaram um espaço físico num contexto de produção de espaços de arquitetura, de conteúdo mais amplo do que somente a noção da arquitetura de espaços. Moraram lá durante anos, e depois constituíram um escritório que foi gradualmente sendo compartilhado por muitas outras gerações, sem que se perdesse a coerência dos atributos da gênese ideológica original. Lá pude desenvolver algo em mim que transcendia a questão da profissão. Algo que enunciava que ser arquiteto era ter a condição sagrada da busca de um porvir que dependia e muito da nova construção do espectro transgressor, velado nos princípios dos novos edifícios e das velhas cidades. Algo que já vivia no seio das idiossincrasias e dialogava com as razões da arquitetura, em qualquer escala, em qualquer tempo e em todos os lugares.

Compreendi pelas mãos do arquiteto José Fábio Calazans que o fazer arquitetônico era mais precioso quando traduzido dos sonhos do mais simples dos homens, que não imaginava que detinha tal poder e que com ele poderia transformar o mundo a sua volta, em nome da comunidade mais frágil e mais pobre. A arquitetura tomada de assalto pelos que a fariam mais nobre e real, infinita e viva, imensamente generosa, portanto mais difícil e intangível.

Por lá trabalhavam André Takiya, José Osvaldo Vilela e José Sales, e no fundo do salão havia a mesa da revista “Espaço e Debates”. O espaço do Galpão era a tradução do exercício do fazer coletivo. Sem paredes e com lugares destinados a reuniões de trabalho ou diálogos abertos, lido como uma estrutura de pranchetas alinhadas como uma fábrica de arquitetura e conspiração. Lembro-me do jardim do fundo onde estava o pé de bananeira plantado contra uma parede azul, atingida em certos dias do ano pelos raios solares das tardes quentes, nos transportando para fora de São Paulo.

José Fábio Calazans foi meu professor em Taubaté. Com a vinda do grupo de Taubaté para Guarulhos, deu-me trabalho e abrigo nesse escritório fantástico. Lá conheci Pedro Mendes da Rocha, Miguel Reali, Milton Nakamura e outros, ainda muito novos e de aguçados talentos, que comporiam por trajetórias diferentes belos universos projetuais, imensa contribuição histórica. Pode-se dizer que tive enorme sorte de estar numa escola completa.

Numa tarde de 1982, quando entrei no Galpão voltando da faculdade, notei uma reunião intensa numa das mesas abertas junto à bananeira iluminada pela coluna de luz. Calazans organizava algo juntamente com moradores de uma comunidade carente de Santo André. Algo como uma ocupação de alguma área, cuja dimensão daria mais contundência à luta ideológica para apropriação das cidades metropolitanas pelos movimentos organizados por populações mais pobres. Era o pessoal do grupo de invasão do Centreville.

O Centreville era um condomínio de alto padrão falido pela máquina da construção impulsionado pelas políticas econômicas de então. Vários empreendedores imobiliários na década de 1980 deixaram ruínas reveladoras da economia dissonante dos pacotes financeiros diluídos pela inacreditável dinâmica inflacionária. O empreendimento era uma tentativa de idealizar uma cidade fechada com casas imensas para a burguesia, mas que morreu na praia deixando o arcabouço de um “suburb” fantasma. Naquela tarde no Galpão as famílias sem moradia se organizavam para ocupar o arcabouço, denunciando a discrepância entre a cidade da elite que não se consubstanciou, apropriada pelos miseráveis moradores das favelas da região. Um “tapa na cara” nos poderes vigentes do ABC. O empreendimento imobiliário estava quase pronto quando desabou o “fluxo de caixa”, com as casas quase acabadas, mas com a infraestrutura ainda por fazer. Uma maquete em escala natural, vazia e silenciosa até ser perturbada pela invasão das inúmeras famílias que tomaram de assalto a cidade proibida.  O Centreville foi finalmente ocupado como primeira ação, para posterior desencadeamento da maior provocação financeira da década: propor, apoiada por dispositivos técnicos, a compra do passivo imobiliário produzido para a classe média por famílias proletárias a margem do capitalismo formal.

As casas eram tão grandes que as famílias acostumadas com os barracos não conseguiam se instalar em todos os cômodos, deixando quase todos os espaços residuais vazios. Só usavam o que precisavam usar. Habitação considerada não como um bem de consumo ou de status, mas como produto essencial da vida coletiva. Com as discussões estratégicas de apropriação do condomínio, acompanhada de uma proposta de aquisição do conjunto habitacional pelas famílias de ocupantes, assessoradas pelo escritório, houve por bem dividir as edificações em diversas células de moradia para otimização dos espaços e adequação dos números de composição de unidades, de valores e custos de amortização final.

Como se tratava de uma “guerrilha” de apropriação política, além de revelar o modelo de produção urbana pelas elites com recursos financiados pelo público, a dimensão do fato estava dada em contraposição às forças que tentavam recuperar o patrimônio e restituir a ordem do poder vigente. Afinal de contas, mesmo estando sob a mira dos credores, tal empreendimento tomado por moradores fora do mercado formal nunca, em tempo algum, poderia revelar à mídia a escala da segregação social na região mais rica do país, diretamente expressa no espaço urbano, sem bagunça e de forma organizada com propostas sérias de recuperação do passivo para a sociedade como um todo. Além disso, a estratégia revelaria a forma como as equações financeiras excluem e deformam lógicas de valores e de produção sob as normas do capital no país.

Era uma luta constante. Vários grupos de organização da base comunitária dos moradores ficavam de prontidão para os embates frente às tentativas públicas de retomada do condomínio, fazendo com que os dias e noites fossem sempre perigosos e surpreendentes. Ninguém podia descuidar. As reuniões aconteciam no Galpão da Vila Madalena para fundamentar as condicionantes do plano de aquisição associado aos projetos futuros de urbanização e arquiteturas. Havia um sonho concreto de transformação do lugar numa cidade viva contendo as repercussões democráticas da luta em curso. Essa possibilidade nos arrebatava. Era impossível não sonhar junto, com tantas variáveis projetuais que dessem materialidade aos espaços derivados do espírito que emanava das perspectivas de tantos moradores ansiosos por uma vida mais digna.

As reuniões no Centreville eram realizadas a noite com a presença das lideranças e as assembléias aos finais de semana. Muitas mulheres estavam na linha de frente. Eram pessoas simples que construíam histórias concretas, de valor social inestimável, embora soubessem que essas histórias nunca seriam reveladas em nenhum livro oficial. Ao contrário. Aos olhos da imprensa, do poder público, da polícia e da sociedade, a invasão do Centreville como qualquer outro atrevimento que comprometesse a soberania dos dominantes pelas camadas dominadas era um crime inaceitável e diante disso, toda a força para restabelecimento da ordem seria necessária para equilibrar a corrente rompida.

As noites do Centreville eram mais escuras. De um silêncio assustador. Uma ausência de qualquer ruído pela distância das ruas da cidade formal quebrado, apenas, pelos sons de alguns passos das pessoas que se atreviam a ir de uma casa a outra, sempre em grupos. O esboço da cidade negra em contraste com o alinhamento da paisagem revelado pelas luzes distantes do borrão urbano do entorno.

Numa dessas noites fui chamado para ajudar numa das reuniões estratégicas do projeto. Compúnhamos três grupos de trabalho e faríamos três reuniões simultâneas com as divisões de projeto que já começavam a ser constituídas. Não havia luz, nem água e nem pavimentação. O que iluminava cada percurso curto e algumas portas eram as lanternas, instrumentos da revelação dos contextos de vida em meio ao vazio. Como uma gigantesca pedra negra esculpida pelas luzes ocasionais em pontos destacados revelando situações de convívios breves. Apesar de intensamente quieto não era calmo.

Havia o susto latente das possibilidades de invasão pela polícia. Cheguei numa das casas onde a reunião seria feita na sala de estar. As casas ficavam abertas como numa comuna híbrida de propriedades mescladas com donos miscigenados que apropriavam dos pedaços essenciais das edificações. Um programa embaralhado entre espaços internos e externos, conteúdos e continentes. Os quartos eram as casas das famílias. As cozinhas compartilhadas a maneira soviética. As salas, espaços públicos cobertos abrigados como praças de transição entre os grandes vazios públicos de fora e os lugares mais reservados dos corredores para os quartos de cada família. Quase que tudo aquilo nos revelava a possibilidade de uma cidade que denunciava a morte dos espaços privados. Um combustível potente para a Utopia.

Reunião montada, começamos a discutir os princípios do projeto. Nesse momento me dei conta de que o escuro da sala confundia o som das vozes de quem falava. Como todos ali já conviviam com a difusão do som pela luz, havia um lampião de gás e algumas lanternas que serviram, então, de microfones iluminados, passados de mão em mão para revelar as falas de cada vez. Imediatamente compreendemos que a luz construía a cena da realidade da idéia à estética de Goya. Cada rosto iluminado vivia ali a existência da estratégia de subversão do mundo para logo depois desaparecer no fundo negro da noite. Não me lembro do rosto de ninguém que esteve lá naquela noite como mal me lembro das figuras de Daumier. Tudo se fundiu numa imensa noite escura, na pedra negra refeita em bloco, no teatro vago e irreal quando as luzes se apagaram. Voltei e desenhei desesperadamente cada sentido como uma ata gráfica, registro solene dos momentos revelados sombriamente pelas frestas de luz e desejos de mudança.

Os trabalhos prosseguiram sob a coordenação do Zé e equipe durante alguns anos. Já em 1983, saindo da faculdade, fui para o Vale do Paraíba, voltando para Taubaté e Caçapava em busca de outras frentes deixando o passado do Centreville como um bloco sólido de lembranças congeladas no negro da noite.

Algumas ações foram realizadas pelo grupo técnico e outras tantas se esvaziaram diante de tantas impossibilidades e em tantos anos.

Calazans morreu em novembro do ano passado e as famílias do Centreville ainda lutam pelo direito de adquirir os imóveis que ocuparam há trinta anos atrás. Ficou a memória da experiência pronunciada pelos projetos do Zé e a contribuição imensa que nos deixou, sempre nos dizendo que podemos subverter o que quisermos pela beleza, se tivermos coragem para tanto. Ficaram os desenhos que fiz logo após aquela noite escura, que movidos por sensações tão fortes imprimiram em mim os olhares dos sonhos dos que tentavam construir um novo lugar numa nova cidade, quem sabe, num embrião de um novo país menos escuro.

Ilustração - Claudio Manetti

Ilustração – Claudio Manetti

2 3 4 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24

Claudio Manetti

Arquiteto Urbanista e professor