Dispensas Intelectuais

Me formei.

Durante o curso inteiro tive apoio de professores que se tornaram amigos e os mesmo foram os que me deixaram à vontade sobre o trabalho de conclusão de curso. O orientador, que na verdade, acumulou meu cérebro com tanta informação que cheguei ao ponto de perguntar-me como poderia construir uma tese de conclusão de curso com tantas coisas fora da arquitetura e mais (a)dentro da torrente enigmática de literatura lusófona e colombiana em que paralelamente ocupava meu tempo, foi quem me lançou no abismo da dúvida e nessa queda acabou de desorientando. Foi fundamental. Eu queria era escrever sobre arquitetura e escrever sem pretensão, sem aquela necessidade de correção orto-gráfica, como uma regra paramétrica, coisa que assimilava quase que instantaneamente com trabalhos de conclusão de curso de minha sala, da faculdade, de outras universidades e tentava de qualquer jeito e maneira entender todo o contexto. Queria ser diferente, tinha todas as chances, tinha até uma certa liberdade.

Não fui diferente.

Mas escrevi, sim, escrevi muito, tanto que nem coloquei metade do que queria na dita cuja mono-grafia, mas me ative na construção do conceito, conversando com o Hélio, um sujeito simpático que cuida até hoje de toda parte de documentação da faculdade de onde me formei. Ele me fez refletir sobre a  didática e a própria comunicação, a proximidade com o leitor, coisa que divaguei e quis aplicar em outras coisas, mas era na arquitetura e no urbanismo, nesta esfinge dolorosa da formação no Brasil, nesse hiato, era ali que eu deveria me destrinchar. Minha monografia ficou sendo como uma cacofonia, poli-grafia de vários sentidos que me ocuparam quando anos antes fui a Évora e conheci outros amigos com sensibilidades ácidas com relação ao conceito de espaço e civilização.

Tentei ser organizado.

Fui até certo ponto, mas deixei fluir como se fosse um rio, deixando que afluentes se juntassem, contribuíssem, pois eu precisava disso, precisava ver as coisas se amontoarem e ganharem certa vazão, mas a organização dos pensamentos não parecia coerente, parecia apenas um método imposto, contingente, claro, para a explanação de uma ideia pessoal, para que ela fosse repassada para pessoas que iriam me ouvir e iriam me avaliar e veriam se havia alguma linha de raciocínio, ou não.

Apresentei uma loucura.

E foi uma loucura. Durante a banca me senti relaxado para apenas ser um pouco mais estudante e menos um proto-arquiteto-urbanista. Esferveci, perdi a conta do tempo, a apresentação que tanto foi revisada e organizada me pareceu fora do ritmo da minha fala e dos meus tiques de repetição, de autocorreções. Elaborei um quadro-maquete nada detalhista e mal-explicativo, mas ali estava para testar-me, sim, como se seis anos de completa dedicação ao procurar aprender a projetar em diferentes escalas fossem resumidas a quarenta minutos que foram recompensados com conselhos e felicitações, pois eu estava sendo aprovado e convidado para dar aula, mesmo sem saber fazer conta de cabeça e entender somente no último ano o conceito de trabalhar em grupo, quando a revista linha e o gafaam encheram o pulmão psíquico com novos ares, o que me devolveu ao compromisso com uma vida instigante.

No final, a coisa não acabou.

Hoje: ver o que aprendi nesta etapa final amontoando os sorrisos e crises de trabalhos colados, honestidades fingidas e mensalidades mal pagas, não saberia imaginar que abriria um estúdio, que participaria de certos trabalhos inimagináveis, que conseguiria participar efetivamente de uma mudança urbana em que pude contribuir na linha de frente, com toda essa desorganização que é o tema “políticas – públicas” ao lado de pessoas que colocaram primeiro o pescoço e toparam dar o pouco tempo vital do descanso para desenhar mapas e mais mapas. Trabalho e recebo o suficiente para pagar as contas e fazer outras dívidas, lendo agora mais sobre a anestética da arquitetura e alguns gibis fora de moda, tendo conversa com esses professores companheiros que falam  não fazer arquitetura ou urbanismo se não houver tesão e dúvida, se não houver angustia, se não houver essa dose de irresponsabilidade com relação ao que pode ser o resultado final.

Não posso ser professor universitário, preciso de um mestrado, de mais um título de compatibilidade, sem levar em conta que a sociedade do mercantilismo não quer só uma graduação, ela quer mais, quer mais produção e medalhas honorificas, quer mais objetivo de vida, quer mais desse tal propósito e ganancia, como se isso fosse realmente um combustível que queima sem queimar e na verdade só queima a pouca vontade que resta de mudar.

Ainda há em mim uma vontade de estudar e estudar na bagunça de uma vida que não para pra esperar o tempo passar. O tempo passa do mesmo jeito mas fazer desse tempo uma fotografia prazerosa da olhar, parece que é parte do meu projeto de vida, meu planejamento corpóreo.

Finalizar um curso não é dizer chega aos grandes mestres e sim confirmar a sentença de que “eles tinham razão” e ainda mais, “talvez eles estivessem errados”, mas tecer uma autocrítica sobre os trabalhos e a formação vigente, entre maquetes eletrônicas mentirosas e lapiseiras escorregadias, papéis sem conteúdo e pranchetas ocupadas por mãos-de-obra mecanicistas, não, não me permito a me sub-julgar a uma vida de comodismo sentenciado onde apenas vejo o ensino de minha querida e irônica faculdade ter mais uma estrela nos classificados do ensino.

É por isso que às vezes deixo de trabalhar para falar sobre tropicalismo, fotografia construtivista russa e marcas de cervejas, morros, bicicletas, gibis para juniores, é por isso que esqueço do horário, esqueço de ver o saldo no banco e fico roendo as unhas para pagar as contas duas semanas depois, não podendo dormir sem terminar um plano urbanístico que não sei se será executado ou pior, não será criticado, me martirizando por faltar mais uma sexta-feira nos ensaios eufêmicos, ou nas monitorias esporádicas e não-convencionais.

Gosto dessas narrativas estóicas, quase tortas, como se a produção acadêmica fosse uma brincadeira de bom gosto, como pular corda e empinar pipa, e se neste espaço virtual, onde a partilha é divulgada como interesse comum, reivindico meu direito de dizer que o medo liquido, que a disfunção da cidade contemporânea latino-americana, que o id, o ego e o superego, o flaneurismo corpulento e as gargalhadas desses autores mais velhos já mortos pelo tempo e ressuscitados pelos livros, reverberam em constância, trazendo motivos pertinentes pelos quais não deixo que essa virgula de problemas impostos pelo acaso bloqueie o meu-nosso, pensamento fluir.

Filipe Faria

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