Gente chique não peida

                Acordei 06h35min, sexta-feira 28/02, véspera de carnaval, já parecia feriado, poucos carros cortam a avenida o movimento no metrô é mais baixo do que o normal, aproveito e vou para o escritório lendo um livro.

Sou o primeiro a chegar, ligo as máquinas, respondo alguns e-mails, pego um copo d’água e ali fico trabalhando até as 12h45min, momento em que saímos para almoçar. Fomos a um restaurante em uma avenida comercial e com bastante movimento de carros e pessoas, na Vila Nova Conceição, o bairro com o metro quadrado mais caro de São Paulo, em torno de 20 mil reais.

Retornamos e voltamos a trabalhar, havia algumas revisões de projetos que deveríamos entregar até as 18h00min, o dia estava bonito, o sol brilhava com pouca intensidade, deixando o dia com a temperatura amena, por volta das 16h00min, a energia acabou de repente, esperamos uns 20 minutos e ainda sem luz, decidimos tomar um café.

Então fomos até lá, estávamos em cinco pessoas, escolhemos a primeira mesa que vimos, sentamos e cada um pediu um café expresso, a padaria estava vazia, apenas uma mulher sozinha, sentada ao lado. Conversamos durante pouco mais de 25 minutos, já estávamos no segundo café e falávamos sobre copa do mundo, corrupção, educação, citávamos nomes de políticos sem nenhum respeito ou precaução, o papo estava bom, falávamos e riamos alto, afinal de contas o dia já tinha acabado.

A mulher sentada ao lado, de pele branca, tão branca, que deixaria com inveja até a branca de neve, aparentemente era muito elegante, degustava sozinha uma Heineken enquanto outra congelava em um baldinho com gelo sobre sua mesa, vestida de preto, com salto, cabelos pretos longos e soltos, porém algo incomodava aquela moça, disfarçadamente olhava para nossa mesa, achei que olhava a televisão que ficava presa a uma parede atrás de nós.

De supetão, a mulher levanta e com tremedeira no rosto e nas mãos, aproxima vagarosamente. Todos olharam! Indagamos em nossos pensamentos, o que ela falaria? Será que estamos falando alto demais? Será que ela é algum parente de político do qual falávamos? O que uma mulher da “classe a” poderia falar para cincos marmanjos? Mal vestidos, alguns com barba para fazer, cabelos ao vento, apenas aguardamos apreensivos o que sairia da boca daquela pessoa.

Após alguns segundos de tensão, a mulher exclama direcionando para todos nós. “Não posso aguentar mais! É um absurdo! Eu estou passando mal! Alguém dessa mesa soltou um peido aqui!” Fiquei parado, parecia que a informação entrava em câmera lenta em meu cérebro, esperava de tudo, exceto ser acusado de um crime que não cometi, depois de alguns segundos anestesiados pela acusação de peidar na padaria do bairro mais caro de São Paulo, todos nós tivemos a mesma reação, começamos a rir como crianças na frente daquela mulher que parecia louca.

Na tentativa de acabar com nossas risadas irônicas, ela gritava, “eu sou advogada!”. Nesse momento a ameaça tomou conta, o tom de voz era de alguém com o intuito de se posicionar e mostrar poder. Não apenas o grito para impor o respeito, mas ao dizer que é uma advogada, ela atribui a posição da profissão ao respeito que desejava almejar diante de nós.

A dificuldade dessa gente em peidar e compartilhar o espaço que é de uso coletivo, apareceu quando ela disse para que todos pudessem ouvir “moro aqui ao lado e esse é o bairro mais caro de São Paulo”. Será que devíamos pedir permissão para “entrar naquele bairro” ou “deveríamos pagar pedágio?” Seria como se o espaço daquela padaria fosse extensão do espaço privado daquela mulher.

As regras que ela aplica em sua casa, são confundidas e transportadas para os espaços coletivos ou públicos, isto é, da mesma forma que há um conjunto de regras em sua propriedade privada, haveria de valer também para outros espaços.

 

Lucas Lavecchia

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