A culpa é da vertigem.

“Centro aguado”, como em breve ou agora ou daqui a pouco, o Lucas vai falar. Talvez antes mesmo de começar a escrever estas linhas, eu tenha bebido um pouco da liquidez do centro, onde ele se diluiu tanto que chega a ser tudo, menos o centro, pode até chegar a ser cidade. “Ah, mas que surpresa” diz o cético contemporâneo, que enxerga a cidade como prateleiras de brinquedos, dizendo que não existe liquidez ou “ausência de forma” seja ela linear ou não linear contradizendo o pressuposto de estudos urbanísticos que os urbanistas, geógrafos e outros técnicos definem pelo termo “manchas”. Essas manchas são talvez o reflexo mais exato de observação da cidade. Por outro lado, esse mesmo cético seguro de si, enxerga muito bem a necessidade de gerir ou exercitar a administração da cidade, mais cai na armadilha da dúvida quando seus atos demonstram que não existe uma necessidade segura de “construção da cidade”, pois afinal a cidade já está construída.

A dúvida sempre acompanha o trabalho do urbanista que possuí na sua prancheta manchas e mais manchas e não uma linha cortante que diz “aqui acaba a cidade”, “aqui o centro termina” “aqui não há solução”. Infelizmente essas limítrofes acomodadas são herança de muralhas burocráticas, filhas de diretrizes de programas de governo ou “gestão”. Aliás, a palavra “gestor” e seus derivados semelhantes, estão sendo usados e desgastados pela política comercial (novamente) contemporânea, pelos centros de ensinos públicos e privados, pois não só está na moda, mas necessariamente se acomoda no assunto. Um discurso de fazer brilhar os olhos “quem não sabe gerir um projeto, não consegue fazer nada”. Sim, hoje se formam mais gestores em cursos de especialização fecundos e suas propagandas, em placas de neon à Vegas, brilham chamando a atenção da cidade que se o Venturi estivesse vivo, também os estudaria e aplaudiria. Gestão urbana, gestão política, gestão ambiental, gestão de não sei o quê e pra quê. Não duvido que se aprenda realmente a gerir. E a gestão, infelizmente, lida com o valor do capital, e aqui podem se levantar vozes algozes partidárias. Aprende-se a gerir, só. É necessária uma carga horária no mínimo risonha, para ensinar gerir as coisas (detalhe para a palavra “coisas”) afinal, a cidade é uma coisa, coisa liquida, não só por causa das enchentes, não, isso não, mas pela sua diluição, sua centralidade sem definição que até hoje não sei se é um defeito ou o melhor acerto possível, herança da gambiarra portuguesa misturada com as “n” etnias culturais que encontraram na Paulicéia um lar.

De acordo com Jucélio Paiva: “Administrar é o processo de dirigir ações que utilizam recursos para atingir objetivos. Embora seja importante em qualquer escala de aplicação de recursos, a principal razão para o estudo da Administração é seu impacto sobre o desempenho das organizações. É a forma como são administradas que torna as organizações mais ou menos capazes de utilizar corretamente seus recursos para atingir os objetivos corretos” [1].

Decidi entrar nesse tema enfadonho como um gaiato mal comportado, pois os textos estão repletos de conceitos resumidos nas palavras “recursos, objetivos, aplicação, organização”. Mas calma, não seriam essas palavras, voltadas à prática da arquitetura e urbanismo a própria definição do que é projeto (projétil: que dispara de encontro a um alvo), planejamento urbano, o próprio estudo e desenho? Conforme o Dicionário Priberam, administrar significa: Dirigir superiormente. O urbanista não faz isso enxergando a cidade do alto, observando seus desenhos, sua organização espacial (mesmo que desorganizada), seus pontos de encontro, etc? Só no sentido poético da definição do conceito “superior” isso se torna plausível, de resto não. O termo é questão de liderança, não no seu sentido desagradável de hierarquia capitalista onde “ele é mais do que o resto” e sim de coordenação dos trabalhos. O que levanta outra questão no mínimo engraçada: quem administra/gere hoje a cidade? Hoje se fala também em políticas públicas, só se fala, em boca miúda, nada de discussões violentas e debates e são poucos os grupos que decidem levar ao palco essa orquestra experimental de discussão da cidade na sua melodia mais ríspida e densa.

É com orgulho que ainda não sou um “gestor de cidades”. O urbanista é um objeto arcaico para os gestores, um “instrumento” que pode ser deixado de lado, pois ele vem antes do “gerir”. Ele faz isso na sua discussão aberta, participativa, no traço coletivo, vendo o que é a cidade hoje para pensá-la no futuro não partindo do pressuposto financeiro/capetalista* (totalmente ligado ao conceito de gestão que hoje se ensina).

Deve causar vertigem a aqueles que não voaram em pensamento pra ver São Paulo do alto, na chamada aerofotogrametria estando ao mesmo tempo com os pés no chão, vivendo a cidade e suas (a)normalidades e (d)eficiências. Se não sabemos pensar na utopia de uma cidade ideal, correta e justa, não só em forma/fôrma, como podemos querer gerir algo que nem ao menos conhecemos intrinsecamente. Por isso fazemos diagnósticos, conversamos em traços, manchas, sobrepomos transparências, lemos a história em letras e em registros fotográficos, em mapas, filmes, documentários, nas fofocas históricas, nos processos urbanos de ocupação legal e ilegal, na própria experiência de vida. Quando a cidade deixar se der desenhada com cifras, conseguiremos construí-la e aprender a geri-la corretamente, mesmo que tudo isto pareça uma balela, uma “utopia”, das piores.

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Filipe Faria, 25 de março, 2013

Arquiteto Urbanista


[1] Maximiano, Antonio Cesar Amaru. Introdução à administração – 5. ed.rev.e ampl.- São Paulo : Atlas, 2000

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