Espaço Público e Invisibilidade

Manhã ensolarada e fria no centro de São Paulo.
Passar por aqui faz parte do trajeto diário de muita gente, entre a Frei Caneca
e a Augusta, indo para a Consolação.
Os três antigos e coloridos sobradinhos conjugados parecem abandonados há
muito tempo, mas até agora abrigavam mais de cinquenta famílias e em três
dias deixarão de existir.
Todos estão na calçada, inclusive crianças e cachorros, pois estão sendo
deslocados por agentes anônimos da nossa Cia do Metrô, protegidos por
nossos policiais, armados e à paisana, que “pagam” por sua saída sem exigir
qualquer recibo, viabilizando a substituição dos incômodos abrigos informais de
pessoas por impessoais e necessárias futuras ventilações de túneis.
A cidade precisa crescer para cima e para baixo.
Assim que todos saírem de cada imóvel, começa a derrubar antes que alguém
possa voltar.
Manhã agitada, mas que não mais se repetirá, aqui.
Os drogados ganham mais um pequeno alento para o recorrente vício, os
criminosos partem para “outra” e as famílias e moradores restantes retomam a
procura por onde morar nesta cidade, próximo aos seus empregos e das
escolas de seus filhos, como muitos de nós.
Mas eles são invisíveis, pois o urbanismo, os cidadãos, as legislações e os
protocolos de conduta não os reconhecem ou protegem quando no espaço
público de nossa cidade.
– Mas, espera um pouquinho aí – Aquele ali, barbudo e com casaco vermelho é
o Valter e ele é meu amigo.

Ricardo Florez – Arquiteto / Psicodramatista
fundacaorgf@gmail.com

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