Canção do Exílio (modo minimalista).

poesia-lá-e-cá

Um poema minimalista, traduzido pela concepção da conjuntura da estética e alma do poema de Gonçalves Dias com influências de José Paulo Paes (Canção do Exílio Facilitada) e as possibilidades de Augusto de Campos, a compreensão tem sentido quando referenciada com o poema matriz. Os advérbios traduzem seus significados pela forma.

“Lá”, naquele lugar, naquele país, para aquele lugar, ao longe ou para longe, naquele tempo, naquela perspectiva, distante, separado.

“Cá”, nesse lugar, nesse país, para esse lugar, bem perto ou aqui, próximo.

A “Canção do Exílio” de Gonçalves Dias, escrita bem de longe, cá em Portugal, em julho de 1843, num continente europeu, afastado pelo oceano atlântico. Única pelo romantismo nacionalista, em vigor pelo recente rompimento do Brasil-Colônia, expõe as preciosidades das terras lá do Brasil. É um poema parafraseado por outros escritores como, Oswald de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Casimiro de Abreu, Mário Quintana, Tom Jobim, Chico Buarque, Eduardo Alves da Costa, Jô Soares, José Paulo Paes.

Gonçalves Dias refere-se ao Brasil usando o advérbio de lugar “lá”, para matar a saudade de sua terra onde encontra os seus prazeres e usa o “cá” para explicitar a falta, o desprazer, o exílio em Portugal.

Canção do Exílio (Gonçalves Dias)

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho, à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

José Paulo Paes, poeta moderno, escreve em 1973 a “Canção do Exílio Facilitada” trata-se de um poema ultra sintético, estruturada na estética de dizer o máximo com o mínimo de palavras, cuja compreensão tem sentido quando referenciada com o poema matriz de Gonçalves Dias. Os advérbios e interjeições dão expressão e significado ao poema: “lá? Ah!” (satisfação), “cá? Bah!” (descontentamento).

Canção do Exílio Facilitada (José Paulo Paes)

lá?

ah!

sabiá…

papá…

maná…

sofá…

sinhá…

cá?

bah!

 

 

 

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Lucas Lavecchia

Algo Sobre Uma Beleza

Falar de periferia é um fácil clichê, difícil mesmo é ser morar lá (Periferia no sentido do que é a periferia de São Paulo, os bairros mais simples da cidade, Capão Redondo, Campo Limpo, Jd. Angela, Grajaú, Vila Fundão). Não por ser ruim, não porque é mal localizado, por dizerem que é esquecido, pelo medo na vizinhança e até preguiça dos outros de chegar à sua casa; não pela “pobreza de traços arquitetônicos”, nem pelo baile funk ambulante que às vezes passa em frente à porta.

Porque mesmo é difícil morar lá? Afinal, na rua todo mundo se conhece como quem vive em cidade de interior, as crianças brincam e gritam a tarde toda até à noite, e em frente a sua casa pode ter uma mecânica, uma igreja, um cabeleireiro, uma vendinha, um boteco, um barzinho, todos com o portão de enrolar levantados, as correntes e cadeados guardados, os mais sofisticados colocaram portões de vidro em seus comércios – mas aí é outra coisa, em geral todos têm a mesma carinha e apenas mudam os nomes, as funções e as relações, porque essas pessoas veem os filhos dos vizinhos crescerem e os filhos dos filhos dos vizinhos nascerem e moram nos seus comércios ou comerciam em suas casas. Engana-se quem pensa que periferia é um lugar empobrecido de população pobre em poder aquisitivo, ou pior, que periferia é lugar pobre em cultura.

Têm loja de roupa, loja de calçado, loja de “um real”, padarias, mercados, sacolões, costureiras com brechós e sebos no mesmo lugar, sorveteria, doceria, floricultura, e até o must dos últimos tempos: aquelas casas de vender coisas naturais e orgânicas que tem um nome verde pra você assimilar que tudo é saudável – que são legais! O mundo mudou na periferia, e eu vi isso.

As ruas são cheias de expressões únicas, e aqui ou ali pode ouvir alguém falando de política, economia, música, teatro, aulas, livros, religião, e às vezes, se escuta que o preço da carne subiu ou sobre o personagem da novela que morreu também.

Nas escolas, os muros de fora não são pintados com crianças felizes e saltitantes que estão indo para um lugar mágico, mas com cores vibrantes e figuras extraídas de mentes de pura imaginação, desse pessoal que suja os dedos de tinta e embeleza a rua. Nas árvores, às vezes, tem outras plantas germinando, e são dos mais variados tipos; os jardins, quando existem, são estilo tia cotinha, mas eu diria que são contemporaneamente bucólicos! Têm também aqueles jardins feitos de latas e expostos nas lajes e nas varandas, esses periféricos estilosos cheios de sustentabilidade e verde aflorando de dentro pra fora, os reutilizadores primários desse tipo de sociedade em metrópoles!

E essa vontade toda de inovar reutilizando materiais, eu me lembro de uma época que isso não era ‘cool’, mas coisa de pobre. Gosto de ver como a pobreza se elitizou ultimamente, e como o novo status que ela tem de “sustentabilidade” ou “verde” agrada bem mais às pessoas, do que serem simplesmente chamadas de “pobres” por serem criativos e livres desses paradigmas estéticos arquitetônicos dos últimos gritos das tendências. Sim, há espelhamento de uma ideia elitizada do que é uma casa, mas uma ideia antiga, em que traços de herança histórica, influências e condições econômicas se misturam.

Em se tratando de arquitetura, bem, pode-se dizer que muitas soluções criativas e inusitadas que vi na minha curta vida como estudante de arquitetura, até agora, estão na periferia, questões de técnicas construtivas a parte. Totalmente desprendido de padrões de estética da arquitetura formal, bem como das técnicas construtivas ou de dimensinamento do desenvolvimento tecnológico, o resultado é muito interessante (quando chegam a um final). Antes de 2008, voltando pra casa todo dia da escola do ensino médio acompanhava parte de uma obra erguida por um morador ali na Vila das Belezas, que fez um terceiro pavimento TODO de vidro, com restos e esquadrias de madeira. Ficou muito bonito e diferente, apesar de hoje a acumulação de coisas internamente do pavimento tornou a ideia um fracasso, na minha visão engessada de futura arquiteta.

A vida é muito longa e estamos sempre a mudar para que nossas residências fiquem imutáveis ao tempo e às nossas evoluções. Felizes são aqueles que deixam os ferros dos pilares e das vigas apontando para fora e a pintura por fazer, que continuam o traçado de sua vida eternamente, transformado em construção e espaço de viver.

Penso num mundo com arquitetos menos dogmáticos sobre o que é belo. Que entendam as rachaduras e costurem esse tecido urbano, meticulosamente. E espero um dia eu também chegar lá.

Sabrina Vieira

Trecho Sobre o Belo e a Paisagem

A primeira coisa que escrevi neste texto foi o título. Isto é um trecho, um recorte ínfimo da monumentalidade da memória. Ele está sendo escrito de forma torrencial, sem muita análise factual, apenas é um esboço mais refinado de algumas anotações relâmpagos que surgem sem pedir permissão em cadernos e papéis espalhados sem ordem cronológica.

Uma das coisas que mais me deixam maravilhado é poder viajar. Após ler alguns textos do Mário de Andrade intitulados de “O Turista aprendiz” por causa de um estudo que ando fazendo sobre a relação de Luís Câmara Cascudo e a obra da arquiteta Lina Bo Bardi, fui investigando de modo desorganizado, e à deriva, textos que se relacionassem nesse âmbito. Claro, calhei no Mario de Andrade e me senti incentivado a continuar fazendo algo mais além: fui querer dissipar o ano fazendo uma coisa que nunca fiz: ver os fogos da virada do ano “na praia”, especificamente na cidade Santos. Isso faz parte de uma experiência inconsciente de conhecer o Brasil, sendo que a maioria das viagens foi no estado de São Paulo, que é uma fração do imenso território brasileiro. Devido a ânsia literária e cultural, longe do cunho arquitetônico e urbanístico (parece que existem viagens que somos “pré-preparados” [pleonasmo, eu sei] para conhecer a arquitetura e certas temáticas urbanísticas, e deixo claro que não houve uma preparação prévia para isso) quis viajar sem destino seguro, me entregando a um estado que conheci muito mais nos últimos 8 meses do que na minha vida inteira. Me entreguei a um sistema de não planejamento de viagem, sem roteiros e com pouquíssimo dinheiro no bolso. Marcava as viagens no próprio dia e saía, mal deixando avisado as pessoas de minha volta para onde ia e quando voltava. Sei que parece um esquema aparente de fuga porém gosto de definir como “esquema de escape pessoal à normalidade tediosa que o mecanismo metropolitano da cidade de São Paulo impõe ao famigerado estilo de vida que possuo”.

Passei por cidades que já conhecia, ou aparentemente conhecia, conheci novas cidades e vilas e nem conheci 10 por cento do estado de São Paulo. Em alguns casos conheci pessoas pela internet e veículos sociais ou conheci pessoas na própria cidade ou aqui em São Paulo e em outros casos não conheci ninguém. A fórmula derivada de encontros pessoais estava, talvez por causa de motivos não tão assim fáceis de explicar ou correlacionar, ligadas à paisagem. É uma questão de ótica ou semiótica deturpada, que comento e encerro o assunto por aqui.

Os trajetos em grande parte foram feitos por meio terrestres, seja em carro ou ônibus, de dia, tarde, noite ou madrugada. Em cada trecho de estrada, esses relâmpagos de escrita foram se somando, sobrepondo as memórias recentes ou antigas, as especulações sobre o futuro e anseios que foram surgindo como as luzes da estrada, hora de modo rítmico e organizado, hora em hiatos, hora em distribuições sem nenhuma lógica ou padrão. Ver a paisagem passar pelo vidro, numa velocidade média de 80km/h não me permitia capturar com a câmera cada fração dessas mesmas paisagens, mas me outorgava o poder de as possui-las por um instante por meio de uma fotografia.

Entre essas viagens frequentei displicentemente as discussões do Alvoroço, que foram bálsamo de ironias com relação aos meus fundamentos sobre o belo, seja ele ideal ou não. Ver o contexto do belo citadino através de algumas fotos ao redor do mundo, apenas me fez voltar os olhos pra dentro de um tal nacionalismo tardio, sem o peso político do nacionalismo assim como da revolução derrocada de 1932. Na verdade, se transformou numa busca pelo brasileiro e o belo brasileiro. Poderia me ater ao belo universal, mas não, não quero isso, como o umbigo é meu e o texto também, decidi não me ater ao academismo que tem sempre mais do mesmo e sim a uma leitura quase sábia desse anseio de descobrir o que é do Brasil e suas belezas que se abriam como os pequenos palcos de circos já extintos em alguns lugares, itinerantes. Somando essa busca do belo aos diálogos difusos em meio a cervejas baratas e cachaças, licores da terra, o meu paladar foi se tornando terra vermelha, fértil, onde um milharal ou talvez um cafezal extenso foi se multiplicando, somado ao sabor de bananas da terra e vacas atoladas, porções de carne seca com licores de jabuticaba e figo, paneladas de tutu de feijão e jambolão como sobremesa.

Temporariamente senti o gosto de cada trecho percorrido e reorganizado mentalmente sem cronologia nenhuma, vendo a ação das pessoas de cada cidade e seu modo de lidar com o território em que elas conviviam e habitavam, seja na escala do pedestre, acucarado, seja pela escala de um ônibus de viagem onde o ir e vir dos viajantes fazia com que o tecido do banco tivesse cheiro de suor gasto. E nessas concepções surgiu-me a expressão pós-moderna (carece de classificação mais precisa) entendida como “beleza”. Costuma-se aliar essa expressão à pergunta: “ Beleza? como estão as coisas”, resposta “beleza”, seguido de uma complementação, seja ela “as coisas vão indo”, “tá tudo bem”, etc. Essa expressão que deve ter sido difundida por meios televisivos antes dos meios virtuais (entenda-se “a internet”) encontrei em muitas cidades do interior. E a mente com suas correlações (corre-laços-laços-grandes) fixou essa expressão que também anotei fugidamente em algum papel. A tal “beleza” como uma resposta pronta demonstrou algo semelhante ao significado de paz, que não é ausência de guerra, paz que pode ser compreendida como “normalidade”. A beleza na sua concepção pura, isso se formos entrar no sentido técnico e crítico (o Lavecchia deverá escrever sobre isso), está presente debaixo dos lençóis territóriais e étnicos do Brasil, não como um estado puro do sentido do belo, mas na condicionante “as coisas não estão bem, ou belas, mas essa é a beleza”.

 *

 Assim como a cidade de Leme tem destruído seus marcos arquitetônicos contando até com um episódio interessantíssimo de uma gangue especializada em roubar sinos de igrejas por causa do bronze, resgata-se o amor à memória da cidade por meio dos relatos orais que tive a oportunidade de escutar. A paisagem de Leme hoje, em sua tranquilidade, em sua quase planície completa me trouxe à memória uma pequena cidade que visitava com a minha mãe quando era criança, perto de Bogotá, Colômbia. Cravada na serra, La Calera é um lugar extremamente turístico, com um ar de cidade inacabada diferente que as cidades em construção. Não estou querendo aqui fazer uma comparação sem medida, já que as duas cidades são completamente diferentes e não possuem quase nenhuma semelhança. Leme não possuí nenhuma ciclovia, apesar de ser umas dez vezes maior em extensão territorial do que La Calera, mas La Calera tem uma porção de faixas para bicicleta em seu pequeno centro e arquitetônicamente falando as duas cidades nem tem referências próximas a não ser o materialidade do tijolo, não do estilo baiano, mas o tijolo compacto e maciço. Talvez foi isso que minha memória correlacionou entre as duas cidades, como se fosse o pequeno  e único fio entre as duas: estético. E distante, um lugar que apenas vi por fotos, chamado de Muuratsalo na Finlândia, a Casa do Alvar Aalto que serviu para seus experimentos em madeira, mas principalmente em tijolo, lugar que guardo como intenção de visita desde meu primeiro ano quando cursava arquitetura e urbanismo se juntou a esse fio de correlação.

 *

 Volto novamente ao crivo, depois de uma viagem e tanto procurando ser mais objetivo. Vendo os pacotes facilitadores para turistas, erguidos com bandeiras de CVC, cruzeiros Worlds, Imperials, ou nomes parecidos, ficou mais fácil visitar lugares ao redor do mundo, com destinos certeiros, com lazer garantido, tranquilidade ou agitação, lugares aptos para cartões postais e souvenires (aquelas lembrancinhas que podem ir do cafonismo ao lirismo num pulo). Porém tais destinos se assemelham cada vez mais. A paisagem é que muda, porém o hotel, as propostas construídas com base da publicidade turística tem uma padronização que me irrita. Talvez nessas pequenas cidades não turísticas e acabadas pelo esquecimento dos seus moradores ou pela lembrança exacerbada dos mesmos, seu contexto geográfico, pela culpa da moda e tendências que usurpam todo o potencial de um território deixando as cidades “menos interessantes” ao pó (cabe aqui uma leitura quase que obrigatória ao livro “Cem anos de Solidão” do García Marquez) são as cidades que me fazem pensar de que cada cidade tem alguma coisa para mostrar de “bela” e meu papel não beira o pedantismo de “achar o belo em cada coisa” mas procurar o olhar belo, aguçando-o através do sentimento de perdido, à deriva, não com o olhar de projeto, projétil com alvo certo, mas sim um tiro cego, no escuro, mesmo que acerte o vazio e que nesse vazio possa encontrar o belo. O belo territorial, sem saber especificamente suas margens, onde acaba esta ou aquela paisagem e sim procurar limites que mais parecem manchas ao invés de colocar um rótulo ou uma linha demarcadora do quê é o quê.

Nisso figura a Land-Art, discutida por Robert Smithson e Sol LeWitt, entre outros precursores. Me aproximei mais desta expressão por causa de dois livros: “Walkscapes” de Francesco Careri e “Leituras: do espaço íntimo ao espaço público” de Michèle Petit. A leitura desses dois livros é cíclica, não se acaba, ela começa e recomeça, sem saber já onde é seu começo. Figura também o entendimento da caminhada e a observação da paisagem, pois a Land-Art não pode ter sido “inventada” pelo grupo do Robert Smithson, ela sempre existiu, talvez o trabalho de Robert Smithson foi o de catalogar, uma velha mania cientifica que temos como humanos, na ânsia de organizar as coisas. A Land-Art existe desde muito antes, seja pelas pirâmides no Egito ou pelos caminhos invisíveis que os índios tupi-guaranis traçaram sem demarcação física e sim pela força da memória (podemos ter um exemplo no filme “A Missão” dirigido por Roland Joffé e ganhador do Oscar de melhor fotografia em 1986), ou também pelos templos budistas cravados nos abismos do Nepal e por ai vai. A paisagem e sua beleza tem aparecido mais constantemente pra mim como uma questão de observação. A diferença entre ver e enxergar é um problema de observação, profundidade e ângulo. Vemos muito e isso é mais um mal-estar contemporâneo, porém, temos deixado como sociedade de enxergar. Muito do belo tem se perdido entre essas duas palavras irmãs. Vi os fogos na orla de Santos mas não os fotografei. Me tive à bagunça padronizada da ocupação da praia, que começou compulsivamente meia hora antes da meia-noite, numa procissão em adoração à luz mecanizada. Vendo o instante em que árvores luminosas se abriam sobre o pano escuro do céu em escala monumental, durando instantes, apagando-se para dar outra sequência que tinha como partido um epicentro com destinos radiais terminando em serpentinas rosas, douradas, brancas ou gotas que pareciam desobedecer as regras físicas da gravidade, observei que as pessoas se atinham mais ao registro do momento do que ao momento. Elas viam, viam muito, portadas de telas de retina, grandes angulares, filmando mais do que fotografando e depois se auto retratando, com paus de selfies num sentido bem pornográfico do mesmo, pois ver é pornografia, enxergar é erotismo e aqui fico com a busca do “enxergar” como processo de atingir o belo, se der.

O mesmo aconteceu quando fui visitar a exposição dos “cabeções” do Mueck na Pinacoteca. Após tentar achar meu lugar ao sol diante de cada obra, para poder enxergar certos detalhes, procurei meu descanso vendo o movimento do vai e vem de visitantes, principalmente na obra instalada no octógono e fiz os seguintes registros que publiquei no palco exibicionista da imagem chamado “instagram”:

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Decidi encontrar uma resposta válida para a quantidade de registros fotográficos feitos nessa exposição, mas deixo isso para pessoas especializadas no assunto. Apenas me pergunto se a captura da imagem, que neste caso vou catalogar como “bela” é mais importante que a própria memória. A imagem guardada em disco rígido, memória flash (o nome diz tudo) ou na nuvem (esses sofismas tecnológicos) inferiria no alcance da “memória do belo”? Essa última pergunta me surgiu após voltar de bicicleta da Pinacoteca à caminho de casa. Tinha passado pelo que chamo de “food truck de viciado”, a cracolância itinerante, ao lado da linda estação Júlio Prestes. A paisagem contrastante poderia ser considerado um cenário decadente, mas considero como paisagem, porque o vício que vi era vegetativo e não sei porque loucura correlacionei também com vegetais, plantas, plantações. Achei a correlação bela, a paisagem não, mas tanto faz.

 

Filipe Barcelos de Faria

REFLEXOS DE UMA CIDADE MAL AMADA

O espelho reflete,

Meio embaçada a imagem,

A forma e movimento

Tortuoso e abalado.

O som no vento,

E a voz apaixonada

Da cidade mal-amada

Grita no olhar de rapina,

O que enxerga.

E leva consigo, seus desejos.

Insensibilidade urbana,

E seu reflexo.

O corpo no caído no chão,

O ciclista atropelado,

A disputa no vagão.

O sorriso disfarçado.

Essa corrida, arritmia.

O jazz na avenida

Metais e suas buzinas.

A fila na catraca.

Pessoas preocupadas.

A cerca na alvenaria

Estruturas metálicas.

Onde esta o cidadão?

Com fome, solidão.

Alimenta-se da poluição.

Filas na psiquiatria.

Da urbanocracia.

E as arvores oprimidas,

Que são arrancadas pra abrir rodovias.

Todo mundo separado.

Um apartheid urbanizado.

O espetáculo do medo

Todo mundo com receio.

Ninguém tem recreio.

Sobe o muro, sobre o muro.

Cadê o vídeo? A câmera?

A pandemia generalizada.

Olhos em fotografias retiradas.

Becos obscuros.

Tudo agora é particular, quando posta no celular.

E o registro ocular.

Da cidade da imagem,

E suas vitimas.

Que morrem nas filmagens.

A cidade da multidão.

Pessoas, pessoas de prontidão.

Caminham, caminhando pra execução.

Toda a sociedade.

E sua insensibilidade.

 

 

Magdiel Silva

O antolho da arquitetura e do urbanismo na sociedade.

Com essa vida inquieta, será que conseguimos olhar para o lugar que
vivemos e, de fato, reparar o que nos rodeia?
Corremos contra o tempo, mal vivemos e esperamos por algo que
aconteça, uma mudança, um novo lugar. Vivemos presos dentro
de nós mesmos, e tudo isso se transforma em uma espécie de progressão geométrica.
Trancafiamos nossa mente, nosso físico e ficamos
na zona de conforto dentro de uma única bolha.
Ficamos inertes à vida que simplesmente passa, vivemos por viver e
no local onde moramos, caminhamos, corremos, passamos de carro,
parece apenas como mais um cenário. Pois a questão está voltada,
na minha visão, para as próprias vontades.
Estamos confortáveis com essa vida, temos tudo mas não temos
nada. E ainda vivemos em busca do perfeito, reclamamos de tudo, o
dia todo.
Saímos de nossas caixinhas com janelas como um morcego de sua
gruta. Andamos pelas ruas com passos apertados, quase uma corrida
para ver quem bate cartão primeiro na firma. Não olhamos ao redor.
Atravessamos no farol vermelho. Nem olhamos para o céu pela
manhã, e aí saímos sem blusa e sem guarda-chuva. Acordamos na
segunda de manhã pensando na sexta a noite. Muitos chegam aos
quarenta dizendo que não viram a vida passar.
E qual o papel da arquitetura na sociedade?
Os projetos saem dos escritórios assim como os automóveis saem
das fábricas. Tudo igual, em quantidades absurdas e para atender a
demanda, a cota e o prazo.
Fazemos sem pensar um pouco mais onde o projeto será inserido.
Esse antolho lacra toda a visão ampla que a arquitetura e o urbanismo deveriam
ter sobre os cidadãos. Um
processo focado, mas distorcido em sua caminhada, mostra
para onde a arquitetura não está indo.
E de um modo geral, vejo que as coisas são feitas com dois passos
para frente e um para trás, com pracinhas e “predinhos”. Pois é mais
fácil fazer dessa forma a enfrentar os desafios de maior escala.
Aí deixam para que os outros façam, pois
poucos se interessam pela arquitetura propriamente dita.
Na realidade as coisas funcionam da seguinte maneira,
ou tudo ou nada. Existem lugares que necessitam de intervenções
para promover a qualidade de vida. O urbanismo
tem essa função de criar espaços e mostrar que nem sempre o caminho
correto é construir cada vez mais. A cidade precisa respirar e
não ficar sufocada com seu próprio sistema.
Precisamos enxergar as exigências da sociedade, as novas formas de
viver, mesmo que ela retraia essa visão e essa vontade de sair de
seu espaço pútrido.
Dessa forma, vivemos realmente como cavalos e seus antolhos, com
a visão hipnotizada e sem quebra dessa dimensão exasperada, sem
novos horizontes e olhares periféricos.
Antolhos projetuais, cegueiras que excluem a sociedade da própria
vida. Proíbem a dinâmica entre a convivência e interação de diversas
etnias. Alimentam o medo de cada um na relação com o próximo. E
tudo se resume à falácia que constantemente se alimenta e caminha
de mãos dadas com perturbação dos espaços na cidade.
Vejo a arquitetura e o urbanismo como a resolução dos problemas
vividos, constantemente.
Essa ferramenta que temos em mãos deveria ter mais força e conduzir a trajetória, pois
em um futuro próximo, estaremos definitivamente dominados pelo limite de construções
mal pensadas e executadas. E ainda, chegaremos à borda desse
transbordar de unidades cada vez mais espaçosas,
como uma brincadeira de tapar buracos.
Leandro Correa
Arquiteto Urbanista

NÃO, GAFAAM, NÃO!

A realidade e o tempo tem se revelado de uma forma ambígua. Claro,
existe o amadurecimento, sim, ainda mais vendo que quase metade
daqueles que fundaram o pequeno grupo de alunos da faculdade Anhembi
Morumbi, já estão formados e seguem com seus propósitos, batalhando
por uma educação e formação adequada, seja perante o IAB, CAU e o mais
importante, perante a sociedade.
Ser estudante e não estar estudando. Essa é a diferença, foi isso que
nos uniu no começo, pois sabíamos que não estávamos estudando somente
e sim nos encontrávamos subjugados a outra condição: o de estar
condenados ao jugo da arquitetura e do urbanismo, vivendo-a e sendo-a
nos estudos, uma propriedade que talvez não entendiamos em 2011,
quando nem sabíamos direito o que era fazer a mediação de um debate,
organizar palestras enormes com pessoal da Espanha, Portugal, França e
ainda não pagar nem um tostão para termos exposições acadêmicas que
dão prazer, que mudaram turmas e formações que criaram debates
internos entre os próprios alunos ajudando a re-desenhar a história do
curso de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Anhembi Morumbi, na
cidade de São Paulo, no grande país que é o Brasil.
Decidi acompanhar de perto todas as situações que aconteciam na
Universidade onde me formei porque os professores viraram amigos e os
alunos eram (e são) os meus iguais e isso é motivo suficiente para que
meu diploma me fizesse voltar os olhos para minha formação, tendo sido
completa ou não e decidir ainda pedir e solicitar ao jugo
arquitetônico algumas mudanças.
Foi na Anhembi Morumbi e principalmente, conhecendo e participando do
GAFAAM, que vi que meia dúzia de pessoas poderiam incomodar o setor
jurídico de uma associação internacional de ensino que não visa mais o
conhecimento e sim somente o reconhecimento de aplicações monetárias
dos seus investidores. Foi nos corredores do galpão em 2009 que
esparramamos as carteiras, as mesas e começamos a gritaria e o próprio
Fábio Mariz (um dos melhores coordenadores que já vi e tive
oportunidade de conviver) deu as caras e foi falar de turma em turma
dando os pareceres e justificações de certas coisas mas não só isso, a
ele se somavam aulas inspiradoras, enraizadas no verdadeiro sentido de
expor a experiência dentro do campo da arquitetura.  Talvez fosse o
presságio para que a ativação da não conformidade extrapolasse e
violentasse o espaço stricto sensu do ensino e do aprendizado. Me
entreguei ao GAFAAM sabendo que seria o melhor erro da minha vida.
Foi lá que tive que ver a Maria Helena Flynn ser demitida embora por
uma broma incrédula de próprios alunos acomodados com sua segurança,
retirando uma das fundadoras do curso na Anhembi Morumdi. Junto com
ela o admirável Oprheu Zamboni que com seu humor atravessado impactou
a formação de muitas pessoas sendo sincero como uma estrutura
aparente, sem o pastiche do revestimento-máscara que permeia entre a
arquitetura que vemos em muitas das nossas esquinas atualmente.  Foi
na Anhembi Morumbi que vi o Chichierquio contando sua história a uma
legião de alunos que queriam entender o processo de aprendizado dos
seus professores e o próprio Chichi (como chamamos ele, sim, de jeito
carinhoso com o mesmo respeito aos avós, não só pela velhice, e sim
pela experiência e o saber fazer) com seu tom amável e explicativo
mostrou os motivos de mudança para lutar contra a estagnação.
Muitas outras experiências organizadas pelo GAFAAM renderam histórias
como as viagens ao Rio, Curitiba, Brasília e a Santos com o surgimento
da rádio-comédia Térreo+1 (pois o ônibus tinha dois andares), assim
como o relacionamento estreito que houve entre o Sr. Élio, Imperador e
catalogador do NupDOC, onde todos os mapas, trabalhos e histórias da
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Anhembi Morumbi se encontram,
nutridas por um humor sério e irônico do Sr. Élio que não esquece e
não permite que outros esqueçam também.
Bem, cadê o GAFAAM? Evaporou. Hoje é um conglomerado que ainda procura
batalhar, passando por dificuldades de comunicação com os alunos e
principalmente com a coordenação, pois a própria Anhembi Morumbi acha
um incomodo ser criticada, ouvir sugestões, aplicá-las e o objetivo
ultimamente tem sido fragilizar possíveis estruturas que querem mudar
o panorama da educação. Como o GAFAAM é composto por alunos tem que se
entender que são alunos batalhando pelos alunos. Alunos que não são
pagos, que não recebem benefícios ou bolsas para produzir eventos ou
as famosas Semanas de Boas-Vindas, simplesmente são alunos que não
querem ver as coisas acontecerem, eles fazem as coisas, mesmo que não
sejam espetaculares e procuram até hoje dialogar, mesmo em meio a
gritaria da mensalidade abusiva, de alunos patogênicos que desejam
apenas criticar e dar a bunda para a instituição sem ao menos ter
prazer, prazer de estar na instituição para estudar pois penso que
essa é a intenção quando se entra na faculdade. Se o GAFAAM está em
seu estado gasoso, é por que faz parte do processo. Às vezes é
necessário evaporar para depois chover como canivete sobre o teto de
vidro da instituição econômica e penetrar profundamente na mente dos
alunos. É necessário fazer sangrar para desinfetar essa ferida
educacional que também tem se instalado no GAFAAM, que tem que ser
ovacionado e ao mesmo tempo espancado pelos alunos que querem mudança,
pois é o GAFAAM que poderá representar a voz e o coro da mudança.
Por isso procurem quem é do GAFAAM e o coloquem contra a parede porque
assim, de certo modo vocês estarão juntos na briga, pois a coisa menos
importante que se deixa na Anhembi Morumbi é o dinheiro, outras coisas
são principais, como o tempo que passamos pensando nos projetos,
refletindo nas aulas, no tempo em que olhamos para o rosto do
professor vendo seus gestos e desenhos, suas orientações e
desorientações, absorvendo as críticas e propondo soluções
alternativas, tudo isso é por causa da Faculdade de Arquitetura e
Urbanismo. E não é culpa do GAFAAM que a educação esteja melhor ou
pior (dicotomias e contrariedades à parte), por que o próprio nome do
GAFAAM quer dizer a coletividade, o grupo de alunos, é o espelho, é a
mesma coisa, porra.
O GAFAAM não é quem representa oficialmente o GAFAAM e sim todos,
vocês, nós, ALUNOS, bons e ruins, bonitos e feios, esquerdistas e
direitistas, putos ou santos, não interessa, se perceberem que o
diploma é um papel apenas e que a formação vai além do que cumprir a
burocracia do escutar e não questionar, principalmente as normas de
uma instituição sustentada por vocês mesmos e que ao mesmo tempo educa
e gera profissionais que literalmente “constroem”. O problema é que a
Anhembi só quer sua presença e não sua cabeça. Um modo passivo de
prostituição, um pacto com o demônio da educação econômica
contemporânea.
Façam acontecer ainda a Semana de Boas-vindas deste semestre, discutam
abertamente em qualquer lugar da faculdade e levantem-se diante das
fôrmas mal elaboradas da instituição, entulhadas aos professores que
tem que seguir uma cartilha pacifica de contestações ou críticas.
Saibam que o tal mercado que a o Templo Educacional
Laureate-Cacete-Murcho diz, é malvado, mas é também antigo e
monárquico, factível de morte se alguém decidir apunhala-lo.
Por isso, eu, arquiteto e urbanista, humano, eterno aluno e membro do
GAFAAM por prazer e obrigação da consciência, me preocupo com os
futuros profissionais que hoje estão na graduação, às vezes perdidos
ou convictos do que realmente querem e que precisam tomar decisões
bruscas sobre a realidade de sua formação.
E aos que hoje representam o GAFAAM, nada de ficar cabisbaixos com
problemas que querem corromper a alegria de ser parte dessa mudança,
não fiquem estáticos esperando as estrias chegarem nos músculos da
mente, nada de peidarem para a opinião de quem critica o grupo, nada
de se revoltarem como criancinhas mimadas com frescuras tão frescas
que até o tempo fresco do conforto tem nojo. Lembrem que nunca vai
terminar essa merda, pois fora da faculdade as coisas somente mudam de
nome e ser contingente ao desânimo absoluto é se suicidar com um
escalímetro enterrado nos olhos. Não centralizem essas coisas à uma
única pessoa, sejam maduros para saber quem é o líder, se é que existe
um. Apontem os erros, mas abracem essa merda e queiram se sujar de
verdade, não pensando que OMO vai limpar essa sujeira, vocês fazem a
merda e vocês mesmos limpam a merda e isto é aprendizado. GAFAAM não é
um fardo triste e sim um fardo feliz. Se se tornou triste, beba uma
pinga e volte pra soltar esse bafo entorpecente na cara do sistema
vigente com um sorriso no rosto e uma marreta na mão, pois assim como
Roterdã destruiu o que pouco restava depois da Segunda Guerra Mundial,
eles decidiram erguer as coisas do zero, coletivamente, não apenas
“construindo” mas pensando o que construir, como construir e se era
mesmo necessário construir, pois esta é talvez a limítrofe entre o
construtor e o arquiteto urbanista e pelo que eu sei, os alunos que
estudam Arquitetura e Urbanismo não querem ser somente construtores.

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Publicado originalmente em

http://mutatismutandisescritos.blogspot.com.br/2014/08/nao-gafaam-nao.html

Filipe Faria

Arquiteto Urbanista

Membro fundador do GAFAAM

Dispensas Intelectuais

Me formei.

Durante o curso inteiro tive apoio de professores que se tornaram amigos e os mesmo foram os que me deixaram à vontade sobre o trabalho de conclusão de curso. O orientador, que na verdade, acumulou meu cérebro com tanta informação que cheguei ao ponto de perguntar-me como poderia construir uma tese de conclusão de curso com tantas coisas fora da arquitetura e mais (a)dentro da torrente enigmática de literatura lusófona e colombiana em que paralelamente ocupava meu tempo, foi quem me lançou no abismo da dúvida e nessa queda acabou de desorientando. Foi fundamental. Eu queria era escrever sobre arquitetura e escrever sem pretensão, sem aquela necessidade de correção orto-gráfica, como uma regra paramétrica, coisa que assimilava quase que instantaneamente com trabalhos de conclusão de curso de minha sala, da faculdade, de outras universidades e tentava de qualquer jeito e maneira entender todo o contexto. Queria ser diferente, tinha todas as chances, tinha até uma certa liberdade.

Não fui diferente.

Mas escrevi, sim, escrevi muito, tanto que nem coloquei metade do que queria na dita cuja mono-grafia, mas me ative na construção do conceito, conversando com o Hélio, um sujeito simpático que cuida até hoje de toda parte de documentação da faculdade de onde me formei. Ele me fez refletir sobre a  didática e a própria comunicação, a proximidade com o leitor, coisa que divaguei e quis aplicar em outras coisas, mas era na arquitetura e no urbanismo, nesta esfinge dolorosa da formação no Brasil, nesse hiato, era ali que eu deveria me destrinchar. Minha monografia ficou sendo como uma cacofonia, poli-grafia de vários sentidos que me ocuparam quando anos antes fui a Évora e conheci outros amigos com sensibilidades ácidas com relação ao conceito de espaço e civilização.

Tentei ser organizado.

Fui até certo ponto, mas deixei fluir como se fosse um rio, deixando que afluentes se juntassem, contribuíssem, pois eu precisava disso, precisava ver as coisas se amontoarem e ganharem certa vazão, mas a organização dos pensamentos não parecia coerente, parecia apenas um método imposto, contingente, claro, para a explanação de uma ideia pessoal, para que ela fosse repassada para pessoas que iriam me ouvir e iriam me avaliar e veriam se havia alguma linha de raciocínio, ou não.

Apresentei uma loucura.

E foi uma loucura. Durante a banca me senti relaxado para apenas ser um pouco mais estudante e menos um proto-arquiteto-urbanista. Esferveci, perdi a conta do tempo, a apresentação que tanto foi revisada e organizada me pareceu fora do ritmo da minha fala e dos meus tiques de repetição, de autocorreções. Elaborei um quadro-maquete nada detalhista e mal-explicativo, mas ali estava para testar-me, sim, como se seis anos de completa dedicação ao procurar aprender a projetar em diferentes escalas fossem resumidas a quarenta minutos que foram recompensados com conselhos e felicitações, pois eu estava sendo aprovado e convidado para dar aula, mesmo sem saber fazer conta de cabeça e entender somente no último ano o conceito de trabalhar em grupo, quando a revista linha e o gafaam encheram o pulmão psíquico com novos ares, o que me devolveu ao compromisso com uma vida instigante.

No final, a coisa não acabou.

Hoje: ver o que aprendi nesta etapa final amontoando os sorrisos e crises de trabalhos colados, honestidades fingidas e mensalidades mal pagas, não saberia imaginar que abriria um estúdio, que participaria de certos trabalhos inimagináveis, que conseguiria participar efetivamente de uma mudança urbana em que pude contribuir na linha de frente, com toda essa desorganização que é o tema “políticas – públicas” ao lado de pessoas que colocaram primeiro o pescoço e toparam dar o pouco tempo vital do descanso para desenhar mapas e mais mapas. Trabalho e recebo o suficiente para pagar as contas e fazer outras dívidas, lendo agora mais sobre a anestética da arquitetura e alguns gibis fora de moda, tendo conversa com esses professores companheiros que falam  não fazer arquitetura ou urbanismo se não houver tesão e dúvida, se não houver angustia, se não houver essa dose de irresponsabilidade com relação ao que pode ser o resultado final.

Não posso ser professor universitário, preciso de um mestrado, de mais um título de compatibilidade, sem levar em conta que a sociedade do mercantilismo não quer só uma graduação, ela quer mais, quer mais produção e medalhas honorificas, quer mais objetivo de vida, quer mais desse tal propósito e ganancia, como se isso fosse realmente um combustível que queima sem queimar e na verdade só queima a pouca vontade que resta de mudar.

Ainda há em mim uma vontade de estudar e estudar na bagunça de uma vida que não para pra esperar o tempo passar. O tempo passa do mesmo jeito mas fazer desse tempo uma fotografia prazerosa da olhar, parece que é parte do meu projeto de vida, meu planejamento corpóreo.

Finalizar um curso não é dizer chega aos grandes mestres e sim confirmar a sentença de que “eles tinham razão” e ainda mais, “talvez eles estivessem errados”, mas tecer uma autocrítica sobre os trabalhos e a formação vigente, entre maquetes eletrônicas mentirosas e lapiseiras escorregadias, papéis sem conteúdo e pranchetas ocupadas por mãos-de-obra mecanicistas, não, não me permito a me sub-julgar a uma vida de comodismo sentenciado onde apenas vejo o ensino de minha querida e irônica faculdade ter mais uma estrela nos classificados do ensino.

É por isso que às vezes deixo de trabalhar para falar sobre tropicalismo, fotografia construtivista russa e marcas de cervejas, morros, bicicletas, gibis para juniores, é por isso que esqueço do horário, esqueço de ver o saldo no banco e fico roendo as unhas para pagar as contas duas semanas depois, não podendo dormir sem terminar um plano urbanístico que não sei se será executado ou pior, não será criticado, me martirizando por faltar mais uma sexta-feira nos ensaios eufêmicos, ou nas monitorias esporádicas e não-convencionais.

Gosto dessas narrativas estóicas, quase tortas, como se a produção acadêmica fosse uma brincadeira de bom gosto, como pular corda e empinar pipa, e se neste espaço virtual, onde a partilha é divulgada como interesse comum, reivindico meu direito de dizer que o medo liquido, que a disfunção da cidade contemporânea latino-americana, que o id, o ego e o superego, o flaneurismo corpulento e as gargalhadas desses autores mais velhos já mortos pelo tempo e ressuscitados pelos livros, reverberam em constância, trazendo motivos pertinentes pelos quais não deixo que essa virgula de problemas impostos pelo acaso bloqueie o meu-nosso, pensamento fluir.

Filipe Faria

Gente chique não peida

                Acordei 06h35min, sexta-feira 28/02, véspera de carnaval, já parecia feriado, poucos carros cortam a avenida o movimento no metrô é mais baixo do que o normal, aproveito e vou para o escritório lendo um livro.

Sou o primeiro a chegar, ligo as máquinas, respondo alguns e-mails, pego um copo d’água e ali fico trabalhando até as 12h45min, momento em que saímos para almoçar. Fomos a um restaurante em uma avenida comercial e com bastante movimento de carros e pessoas, na Vila Nova Conceição, o bairro com o metro quadrado mais caro de São Paulo, em torno de 20 mil reais.

Retornamos e voltamos a trabalhar, havia algumas revisões de projetos que deveríamos entregar até as 18h00min, o dia estava bonito, o sol brilhava com pouca intensidade, deixando o dia com a temperatura amena, por volta das 16h00min, a energia acabou de repente, esperamos uns 20 minutos e ainda sem luz, decidimos tomar um café.

Então fomos até lá, estávamos em cinco pessoas, escolhemos a primeira mesa que vimos, sentamos e cada um pediu um café expresso, a padaria estava vazia, apenas uma mulher sozinha, sentada ao lado. Conversamos durante pouco mais de 25 minutos, já estávamos no segundo café e falávamos sobre copa do mundo, corrupção, educação, citávamos nomes de políticos sem nenhum respeito ou precaução, o papo estava bom, falávamos e riamos alto, afinal de contas o dia já tinha acabado.

A mulher sentada ao lado, de pele branca, tão branca, que deixaria com inveja até a branca de neve, aparentemente era muito elegante, degustava sozinha uma Heineken enquanto outra congelava em um baldinho com gelo sobre sua mesa, vestida de preto, com salto, cabelos pretos longos e soltos, porém algo incomodava aquela moça, disfarçadamente olhava para nossa mesa, achei que olhava a televisão que ficava presa a uma parede atrás de nós.

De supetão, a mulher levanta e com tremedeira no rosto e nas mãos, aproxima vagarosamente. Todos olharam! Indagamos em nossos pensamentos, o que ela falaria? Será que estamos falando alto demais? Será que ela é algum parente de político do qual falávamos? O que uma mulher da “classe a” poderia falar para cincos marmanjos? Mal vestidos, alguns com barba para fazer, cabelos ao vento, apenas aguardamos apreensivos o que sairia da boca daquela pessoa.

Após alguns segundos de tensão, a mulher exclama direcionando para todos nós. “Não posso aguentar mais! É um absurdo! Eu estou passando mal! Alguém dessa mesa soltou um peido aqui!” Fiquei parado, parecia que a informação entrava em câmera lenta em meu cérebro, esperava de tudo, exceto ser acusado de um crime que não cometi, depois de alguns segundos anestesiados pela acusação de peidar na padaria do bairro mais caro de São Paulo, todos nós tivemos a mesma reação, começamos a rir como crianças na frente daquela mulher que parecia louca.

Na tentativa de acabar com nossas risadas irônicas, ela gritava, “eu sou advogada!”. Nesse momento a ameaça tomou conta, o tom de voz era de alguém com o intuito de se posicionar e mostrar poder. Não apenas o grito para impor o respeito, mas ao dizer que é uma advogada, ela atribui a posição da profissão ao respeito que desejava almejar diante de nós.

A dificuldade dessa gente em peidar e compartilhar o espaço que é de uso coletivo, apareceu quando ela disse para que todos pudessem ouvir “moro aqui ao lado e esse é o bairro mais caro de São Paulo”. Será que devíamos pedir permissão para “entrar naquele bairro” ou “deveríamos pagar pedágio?” Seria como se o espaço daquela padaria fosse extensão do espaço privado daquela mulher.

As regras que ela aplica em sua casa, são confundidas e transportadas para os espaços coletivos ou públicos, isto é, da mesma forma que há um conjunto de regras em sua propriedade privada, haveria de valer também para outros espaços.

 

Lucas Lavecchia

Ideal de Cidade x Cidade Ideal

“Não basta que seja bela, que guarde riquezas, cresça; nenhuma cidade pode ser melhor que a MINHA cidade, ainda que tenha o que ela não tem ou lhe tente ofuscar com grandezas.

Minha cidade guarda em si o ideal que construí. Sonhos que me deixei sonhar e em algum momento foi, é, ou ainda virá a ser: a cidade em que vivo.”

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Nunca foi fácil descrever a cidade ideal, tão substancial e palpável quanto a felicidade, por exemplo: simplesmente não ‘é’. Felicidade é relativa; para alguns, ela reside no ter um teto, uma padaria em que se chegue a pé por perto, um espaço de céu sem concreto por onde o sol se permita bater na janela, amarelar algumas folhas de árvores e acordar aves no telhado; para outros, o pisar da grama ao acordar em qualquer lugar que não lhe pertença. Para mim, alguns dias, é apenas um copo de café e um bom livro no metrô. Individual, mas em algum momento, ela pode ser coletiva.

Já me propus a pensar sobre felicidade, acredito todo dia ser uma questão interessante. Nunca vi ou ouvi dizer sobre felicidade que se faz sozinha. Não sabemos conviver com o vazio, com a inexistência ou com a ausência. Sócrates afirmava que “uma cidade, nasce ou é tal porque se dá o caso de cada um de nós não ser auto suficiente, mas carentes de muitas coisas. Deu-se o nome de cidade à essa convivência de muitos carentes”, auto-suficiência, individualidade, contradiz a definição de cidade, contradiz a feliz-cidade, a felicidade.

Ainda acredito em cidades como organismos, é vivo, pulsante, e talvez orgânica. Se faz pela sua natureza e, se transforma e é transformada pela natureza de cada um, pela felicidade, a ausência ou busca dela, ainda que individual.

Não vejo ações cidadãs que se afirmem sem que tenha em seu contexto a constante busca por um ideal, o grande objetivo da humanidade: felicidade. Assim, é consequente a pré-concepção da cidade ideal frente a cidade idealizada, propondo-se o ideal como questão e aceitando-o como inatingível frente a aceitação do inatingível mas permitindo-se o sonhar: a utopia de grandes cidades; cidades tão humanas quanto os reflexos culturais e pessoais no construir de uma pequena casa: orgânicas, moldáveis, passíveis de transformação.

 Joseph Rikwert já colocava a cidade como a maior conquista inalienável da humanidade em “A sedução do lugar” e, é desta forma, que ela se transforma sob os aspectos culturais e humanos de seus cidadãos, suas buscas, seus ideais e anseios que vão além do platonismo da cidade ideal, residente no belo. O belo está nos olhos de quem a vê e cada um a vê sob os reflexos de sua história. A cidade se transforma, e busca o prevalecer de sua projeção ideal sobre imposição de grandes planos capitais.

É certo que tenhamos hoje, como já afirma Rickwert, instituída a grande capital, o centro do mundo, como sendo o centro financeiro mais notável: Manhattan e; como afirma Lefebvre em sua produção literária: “(…) as cidades se isolam da natureza” e, cada vez mais, de sua própria natureza . Contudo, quanto mais se pensa a felicidade e contrapõe esta às cidades em que vivemos, centros econômicos ou geográficos, menos se prova que a cidade global que almejamos, idealizamos, buscamos projetar ou alcançar diariamente seja um centro financeiro.

Se a cidade se molda e se faz ao seu cidadão, tem-se a cidade representação espacial da identidade de um povo e apesar do modelo econômico que vivemos desenhar nossas vidas, a cidade representa mais do que imposição de valores (capital), representa uma cultura, um desejo, uma busca. Talvez o desafio da cidade resida justamente no valor: a distinção / contradição entre os valores ideais que usamos para nossa cidade idealizada e, os valores que tomamos para nós nas atitudes cotidianas.

Assistimos ao longo dos anos nossas cidades assumirem um papel antropofágico, mas o que se absorveu foi um modelo de ocupação americano onde tradição e valores começam a sucumbir perante a incerteza do novo e tecnológico, cujo resultado é a busca por ocupação de um vazio não apenas externo (paisagem), mas também interno (humano); de forma inconseqüente, que leva a criação de cidades supra-ocupadas, centros de passagem e o caminho a ações destrutivas pautadas em progresso, um progresso volúvel, que se modifica a cada nova realidade econômica pela qual passamos.

 São Paulo tem sim a ‘cara’ de todos que aqui chegaram e a ocuparam, talvez essa seja sua verdadeira identidade: domínio da mixofilia sobre a mixofobia; mas basta sair um pouco do seu centro geográfico e toda sua particularidade geográfica, biológica e antropológica começa a ser maquiada por uma produção arquitetônica, uma produção HUMANA que se aproxima mais da capital do mundo do que da cidade outrora idealizada, a mesma produção volúvel que os modelos econômicos nos impõem.

Se a cidade é produto do que o homem a faz e não da natureza, a transformação da dinâmica urbana está intrínseca na transformação cultural e revisão de valores humanos. Se hoje agimos como máquinas, nosso produto é uma cidade mecânica onde não se vive, se passa, atravessa, mas não se deixa estar. Contudo, nas mãos do arquiteto ainda estão as ferramentas para a essa revisão de valores: como se faz a cidade que queremos ter. A cidade que se quer, ainda não é a que se tem, mas é a que se pode ter; falta-lhe credulidade e um pouco de paixão para acreditar que utopia de Thomas More, ainda que paralela à nossa realidade, pode encontrar um ponto no espaço-tempo para se fazer verdade.

Bruna Ferreira

A culpa é da vertigem.

“Centro aguado”, como em breve ou agora ou daqui a pouco, o Lucas vai falar. Talvez antes mesmo de começar a escrever estas linhas, eu tenha bebido um pouco da liquidez do centro, onde ele se diluiu tanto que chega a ser tudo, menos o centro, pode até chegar a ser cidade. “Ah, mas que surpresa” diz o cético contemporâneo, que enxerga a cidade como prateleiras de brinquedos, dizendo que não existe liquidez ou “ausência de forma” seja ela linear ou não linear contradizendo o pressuposto de estudos urbanísticos que os urbanistas, geógrafos e outros técnicos definem pelo termo “manchas”. Essas manchas são talvez o reflexo mais exato de observação da cidade. Por outro lado, esse mesmo cético seguro de si, enxerga muito bem a necessidade de gerir ou exercitar a administração da cidade, mais cai na armadilha da dúvida quando seus atos demonstram que não existe uma necessidade segura de “construção da cidade”, pois afinal a cidade já está construída.

A dúvida sempre acompanha o trabalho do urbanista que possuí na sua prancheta manchas e mais manchas e não uma linha cortante que diz “aqui acaba a cidade”, “aqui o centro termina” “aqui não há solução”. Infelizmente essas limítrofes acomodadas são herança de muralhas burocráticas, filhas de diretrizes de programas de governo ou “gestão”. Aliás, a palavra “gestor” e seus derivados semelhantes, estão sendo usados e desgastados pela política comercial (novamente) contemporânea, pelos centros de ensinos públicos e privados, pois não só está na moda, mas necessariamente se acomoda no assunto. Um discurso de fazer brilhar os olhos “quem não sabe gerir um projeto, não consegue fazer nada”. Sim, hoje se formam mais gestores em cursos de especialização fecundos e suas propagandas, em placas de neon à Vegas, brilham chamando a atenção da cidade que se o Venturi estivesse vivo, também os estudaria e aplaudiria. Gestão urbana, gestão política, gestão ambiental, gestão de não sei o quê e pra quê. Não duvido que se aprenda realmente a gerir. E a gestão, infelizmente, lida com o valor do capital, e aqui podem se levantar vozes algozes partidárias. Aprende-se a gerir, só. É necessária uma carga horária no mínimo risonha, para ensinar gerir as coisas (detalhe para a palavra “coisas”) afinal, a cidade é uma coisa, coisa liquida, não só por causa das enchentes, não, isso não, mas pela sua diluição, sua centralidade sem definição que até hoje não sei se é um defeito ou o melhor acerto possível, herança da gambiarra portuguesa misturada com as “n” etnias culturais que encontraram na Paulicéia um lar.

De acordo com Jucélio Paiva: “Administrar é o processo de dirigir ações que utilizam recursos para atingir objetivos. Embora seja importante em qualquer escala de aplicação de recursos, a principal razão para o estudo da Administração é seu impacto sobre o desempenho das organizações. É a forma como são administradas que torna as organizações mais ou menos capazes de utilizar corretamente seus recursos para atingir os objetivos corretos” [1].

Decidi entrar nesse tema enfadonho como um gaiato mal comportado, pois os textos estão repletos de conceitos resumidos nas palavras “recursos, objetivos, aplicação, organização”. Mas calma, não seriam essas palavras, voltadas à prática da arquitetura e urbanismo a própria definição do que é projeto (projétil: que dispara de encontro a um alvo), planejamento urbano, o próprio estudo e desenho? Conforme o Dicionário Priberam, administrar significa: Dirigir superiormente. O urbanista não faz isso enxergando a cidade do alto, observando seus desenhos, sua organização espacial (mesmo que desorganizada), seus pontos de encontro, etc? Só no sentido poético da definição do conceito “superior” isso se torna plausível, de resto não. O termo é questão de liderança, não no seu sentido desagradável de hierarquia capitalista onde “ele é mais do que o resto” e sim de coordenação dos trabalhos. O que levanta outra questão no mínimo engraçada: quem administra/gere hoje a cidade? Hoje se fala também em políticas públicas, só se fala, em boca miúda, nada de discussões violentas e debates e são poucos os grupos que decidem levar ao palco essa orquestra experimental de discussão da cidade na sua melodia mais ríspida e densa.

É com orgulho que ainda não sou um “gestor de cidades”. O urbanista é um objeto arcaico para os gestores, um “instrumento” que pode ser deixado de lado, pois ele vem antes do “gerir”. Ele faz isso na sua discussão aberta, participativa, no traço coletivo, vendo o que é a cidade hoje para pensá-la no futuro não partindo do pressuposto financeiro/capetalista* (totalmente ligado ao conceito de gestão que hoje se ensina).

Deve causar vertigem a aqueles que não voaram em pensamento pra ver São Paulo do alto, na chamada aerofotogrametria estando ao mesmo tempo com os pés no chão, vivendo a cidade e suas (a)normalidades e (d)eficiências. Se não sabemos pensar na utopia de uma cidade ideal, correta e justa, não só em forma/fôrma, como podemos querer gerir algo que nem ao menos conhecemos intrinsecamente. Por isso fazemos diagnósticos, conversamos em traços, manchas, sobrepomos transparências, lemos a história em letras e em registros fotográficos, em mapas, filmes, documentários, nas fofocas históricas, nos processos urbanos de ocupação legal e ilegal, na própria experiência de vida. Quando a cidade deixar se der desenhada com cifras, conseguiremos construí-la e aprender a geri-la corretamente, mesmo que tudo isto pareça uma balela, uma “utopia”, das piores.

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Filipe Faria, 25 de março, 2013

Arquiteto Urbanista


[1] Maximiano, Antonio Cesar Amaru. Introdução à administração – 5. ed.rev.e ampl.- São Paulo : Atlas, 2000

1982 – Quando as Lanternas Esculpiam os Sonhos nas Noites Escuras do Centreville

A memória é a única realidade.

Dia desses, organizando gavetas e caixas de pertences, encontrei coisas incríveis que me levaram a tempos outros, transportado por imagens e textos, cuja lembrança, desenhos, croquis e escritos, me deram a chance de vivê-los novamente como um recorte de sentidos e renovações, uma janela virada para trás. A saudade é manifestação sensível do estoque de emoções aprisionadas pelo tempo. Encontrei desenhos de 1982, na época em que estava, como um aprendiz de feiticeiro, no escritório “Galpão da Vila Madalena”, observando atentamente Antonio Carlos Barossi, José Geraldo Martins de Oliveira e, sobretudo, José Calazans, falecido recentemente.

O Galpão era um lugar que nasceu da construção de um projeto ideal de sociedade de alguns colegas da FAU USP e que transformaram um espaço físico num contexto de produção de espaços de arquitetura, de conteúdo mais amplo do que somente a noção da arquitetura de espaços. Moraram lá durante anos, e depois constituíram um escritório que foi gradualmente sendo compartilhado por muitas outras gerações, sem que se perdesse a coerência dos atributos da gênese ideológica original. Lá pude desenvolver algo em mim que transcendia a questão da profissão. Algo que enunciava que ser arquiteto era ter a condição sagrada da busca de um porvir que dependia e muito da nova construção do espectro transgressor, velado nos princípios dos novos edifícios e das velhas cidades. Algo que já vivia no seio das idiossincrasias e dialogava com as razões da arquitetura, em qualquer escala, em qualquer tempo e em todos os lugares.

Compreendi pelas mãos do arquiteto José Fábio Calazans que o fazer arquitetônico era mais precioso quando traduzido dos sonhos do mais simples dos homens, que não imaginava que detinha tal poder e que com ele poderia transformar o mundo a sua volta, em nome da comunidade mais frágil e mais pobre. A arquitetura tomada de assalto pelos que a fariam mais nobre e real, infinita e viva, imensamente generosa, portanto mais difícil e intangível.

Por lá trabalhavam André Takiya, José Osvaldo Vilela e José Sales, e no fundo do salão havia a mesa da revista “Espaço e Debates”. O espaço do Galpão era a tradução do exercício do fazer coletivo. Sem paredes e com lugares destinados a reuniões de trabalho ou diálogos abertos, lido como uma estrutura de pranchetas alinhadas como uma fábrica de arquitetura e conspiração. Lembro-me do jardim do fundo onde estava o pé de bananeira plantado contra uma parede azul, atingida em certos dias do ano pelos raios solares das tardes quentes, nos transportando para fora de São Paulo.

José Fábio Calazans foi meu professor em Taubaté. Com a vinda do grupo de Taubaté para Guarulhos, deu-me trabalho e abrigo nesse escritório fantástico. Lá conheci Pedro Mendes da Rocha, Miguel Reali, Milton Nakamura e outros, ainda muito novos e de aguçados talentos, que comporiam por trajetórias diferentes belos universos projetuais, imensa contribuição histórica. Pode-se dizer que tive enorme sorte de estar numa escola completa.

Numa tarde de 1982, quando entrei no Galpão voltando da faculdade, notei uma reunião intensa numa das mesas abertas junto à bananeira iluminada pela coluna de luz. Calazans organizava algo juntamente com moradores de uma comunidade carente de Santo André. Algo como uma ocupação de alguma área, cuja dimensão daria mais contundência à luta ideológica para apropriação das cidades metropolitanas pelos movimentos organizados por populações mais pobres. Era o pessoal do grupo de invasão do Centreville.

O Centreville era um condomínio de alto padrão falido pela máquina da construção impulsionado pelas políticas econômicas de então. Vários empreendedores imobiliários na década de 1980 deixaram ruínas reveladoras da economia dissonante dos pacotes financeiros diluídos pela inacreditável dinâmica inflacionária. O empreendimento era uma tentativa de idealizar uma cidade fechada com casas imensas para a burguesia, mas que morreu na praia deixando o arcabouço de um “suburb” fantasma. Naquela tarde no Galpão as famílias sem moradia se organizavam para ocupar o arcabouço, denunciando a discrepância entre a cidade da elite que não se consubstanciou, apropriada pelos miseráveis moradores das favelas da região. Um “tapa na cara” nos poderes vigentes do ABC. O empreendimento imobiliário estava quase pronto quando desabou o “fluxo de caixa”, com as casas quase acabadas, mas com a infraestrutura ainda por fazer. Uma maquete em escala natural, vazia e silenciosa até ser perturbada pela invasão das inúmeras famílias que tomaram de assalto a cidade proibida.  O Centreville foi finalmente ocupado como primeira ação, para posterior desencadeamento da maior provocação financeira da década: propor, apoiada por dispositivos técnicos, a compra do passivo imobiliário produzido para a classe média por famílias proletárias a margem do capitalismo formal.

As casas eram tão grandes que as famílias acostumadas com os barracos não conseguiam se instalar em todos os cômodos, deixando quase todos os espaços residuais vazios. Só usavam o que precisavam usar. Habitação considerada não como um bem de consumo ou de status, mas como produto essencial da vida coletiva. Com as discussões estratégicas de apropriação do condomínio, acompanhada de uma proposta de aquisição do conjunto habitacional pelas famílias de ocupantes, assessoradas pelo escritório, houve por bem dividir as edificações em diversas células de moradia para otimização dos espaços e adequação dos números de composição de unidades, de valores e custos de amortização final.

Como se tratava de uma “guerrilha” de apropriação política, além de revelar o modelo de produção urbana pelas elites com recursos financiados pelo público, a dimensão do fato estava dada em contraposição às forças que tentavam recuperar o patrimônio e restituir a ordem do poder vigente. Afinal de contas, mesmo estando sob a mira dos credores, tal empreendimento tomado por moradores fora do mercado formal nunca, em tempo algum, poderia revelar à mídia a escala da segregação social na região mais rica do país, diretamente expressa no espaço urbano, sem bagunça e de forma organizada com propostas sérias de recuperação do passivo para a sociedade como um todo. Além disso, a estratégia revelaria a forma como as equações financeiras excluem e deformam lógicas de valores e de produção sob as normas do capital no país.

Era uma luta constante. Vários grupos de organização da base comunitária dos moradores ficavam de prontidão para os embates frente às tentativas públicas de retomada do condomínio, fazendo com que os dias e noites fossem sempre perigosos e surpreendentes. Ninguém podia descuidar. As reuniões aconteciam no Galpão da Vila Madalena para fundamentar as condicionantes do plano de aquisição associado aos projetos futuros de urbanização e arquiteturas. Havia um sonho concreto de transformação do lugar numa cidade viva contendo as repercussões democráticas da luta em curso. Essa possibilidade nos arrebatava. Era impossível não sonhar junto, com tantas variáveis projetuais que dessem materialidade aos espaços derivados do espírito que emanava das perspectivas de tantos moradores ansiosos por uma vida mais digna.

As reuniões no Centreville eram realizadas a noite com a presença das lideranças e as assembléias aos finais de semana. Muitas mulheres estavam na linha de frente. Eram pessoas simples que construíam histórias concretas, de valor social inestimável, embora soubessem que essas histórias nunca seriam reveladas em nenhum livro oficial. Ao contrário. Aos olhos da imprensa, do poder público, da polícia e da sociedade, a invasão do Centreville como qualquer outro atrevimento que comprometesse a soberania dos dominantes pelas camadas dominadas era um crime inaceitável e diante disso, toda a força para restabelecimento da ordem seria necessária para equilibrar a corrente rompida.

As noites do Centreville eram mais escuras. De um silêncio assustador. Uma ausência de qualquer ruído pela distância das ruas da cidade formal quebrado, apenas, pelos sons de alguns passos das pessoas que se atreviam a ir de uma casa a outra, sempre em grupos. O esboço da cidade negra em contraste com o alinhamento da paisagem revelado pelas luzes distantes do borrão urbano do entorno.

Numa dessas noites fui chamado para ajudar numa das reuniões estratégicas do projeto. Compúnhamos três grupos de trabalho e faríamos três reuniões simultâneas com as divisões de projeto que já começavam a ser constituídas. Não havia luz, nem água e nem pavimentação. O que iluminava cada percurso curto e algumas portas eram as lanternas, instrumentos da revelação dos contextos de vida em meio ao vazio. Como uma gigantesca pedra negra esculpida pelas luzes ocasionais em pontos destacados revelando situações de convívios breves. Apesar de intensamente quieto não era calmo.

Havia o susto latente das possibilidades de invasão pela polícia. Cheguei numa das casas onde a reunião seria feita na sala de estar. As casas ficavam abertas como numa comuna híbrida de propriedades mescladas com donos miscigenados que apropriavam dos pedaços essenciais das edificações. Um programa embaralhado entre espaços internos e externos, conteúdos e continentes. Os quartos eram as casas das famílias. As cozinhas compartilhadas a maneira soviética. As salas, espaços públicos cobertos abrigados como praças de transição entre os grandes vazios públicos de fora e os lugares mais reservados dos corredores para os quartos de cada família. Quase que tudo aquilo nos revelava a possibilidade de uma cidade que denunciava a morte dos espaços privados. Um combustível potente para a Utopia.

Reunião montada, começamos a discutir os princípios do projeto. Nesse momento me dei conta de que o escuro da sala confundia o som das vozes de quem falava. Como todos ali já conviviam com a difusão do som pela luz, havia um lampião de gás e algumas lanternas que serviram, então, de microfones iluminados, passados de mão em mão para revelar as falas de cada vez. Imediatamente compreendemos que a luz construía a cena da realidade da idéia à estética de Goya. Cada rosto iluminado vivia ali a existência da estratégia de subversão do mundo para logo depois desaparecer no fundo negro da noite. Não me lembro do rosto de ninguém que esteve lá naquela noite como mal me lembro das figuras de Daumier. Tudo se fundiu numa imensa noite escura, na pedra negra refeita em bloco, no teatro vago e irreal quando as luzes se apagaram. Voltei e desenhei desesperadamente cada sentido como uma ata gráfica, registro solene dos momentos revelados sombriamente pelas frestas de luz e desejos de mudança.

Os trabalhos prosseguiram sob a coordenação do Zé e equipe durante alguns anos. Já em 1983, saindo da faculdade, fui para o Vale do Paraíba, voltando para Taubaté e Caçapava em busca de outras frentes deixando o passado do Centreville como um bloco sólido de lembranças congeladas no negro da noite.

Algumas ações foram realizadas pelo grupo técnico e outras tantas se esvaziaram diante de tantas impossibilidades e em tantos anos.

Calazans morreu em novembro do ano passado e as famílias do Centreville ainda lutam pelo direito de adquirir os imóveis que ocuparam há trinta anos atrás. Ficou a memória da experiência pronunciada pelos projetos do Zé e a contribuição imensa que nos deixou, sempre nos dizendo que podemos subverter o que quisermos pela beleza, se tivermos coragem para tanto. Ficaram os desenhos que fiz logo após aquela noite escura, que movidos por sensações tão fortes imprimiram em mim os olhares dos sonhos dos que tentavam construir um novo lugar numa nova cidade, quem sabe, num embrião de um novo país menos escuro.

Ilustração - Claudio Manetti

Ilustração – Claudio Manetti

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Claudio Manetti

Arquiteto Urbanista e professor

Sem pressa

Nem sequer a manifestação do olhar aniquila as dúvidas. O olhar nunca foi uma certeza para mim. Hoje, ainda se vê, temos visão, em certos casos até somos visionários, vemos até demais e nesse quesito de ver, vemos e vemos rápido, com pressa, pois somos dinâmicos e temos orgulho de nossa aerodinâmica, pois temos menos atrito com tudo.

Na última discussão que tivemos no Alvoroço, no dia 30 de agosto deste ano maia, fiquei com a marca impressa invisivelmente de um modo tão palpável. Vemos bem, não somos cegos. O olhar ainda está sendo dissecado, num estudo avante com os próprios sintomas da realidade contemporânea, algo como a mistura de modernidade e pós-modernidade, um arroz carreteiro, onde tudo o que sobra pra se discutir tem lugar e vamos a fundo, como trabalhadores esfomeados que raspam até o fundo dos pratos, até o ultimo grão, esperando que esse alimento nunca acabe. Porém, reforçou-se uma idéia que tem se manifestado faz um tempo como um cisto alojado do lado racional do cérebro e me perturba ao ponto de revisitar áreas que não são agradáveis e querer abrir o crânio binário, sentir em minhas próprias mãos os pensamentos, já que meus olhos por muito ver se esqueceram de sentir e enxergar.

Enxergar é desplanificar um território plano ou apenas contornar o próprio para contra luz ver que não é plano e que mais uma vez “as aparências enganam”.

Até aqui, vendo o conteúdo largo e profundo de Bauman, não só sobre a Confiança e o Medo que já geraram vales e precipícios suficientes, se encontra hoje a mesma liquidez de anos atrás, que parece romper a barreira do tempo e conti(núa) escorrendo, criando fissuras em certezas que até pouco tempo atrás tínhamos construído com barro. Não obstante surge Adorno e Freud, mesmo depois da carga do Walter Benjamim que se revelou confusamente lúcido.

Como criança, meu raciocínio parecia ter medo de pisar em assuntos obscuros e pelo olhar profundo, como de um cego que se força a procurar enxergar em meio à penumbra, senti o calor dessa luz que ilumina, gerando essa energia térmica que aparece em minhas bochechas, um vermelho-corado de felicidade. Se estou agora enxergando ou não, pelo menos já me situei, aparentemente, no espaço tempo desta discussão e até prefiro não ter norte nesta terra, apenas saber que nesta jornada não estou só.

Enxergar é fazer o bom uso do olhar.

Deve ser muito mais fácil uma tartaruga sentir o desejo de andar mais rápido, do que um jaguar sentir o desejo de não correr. Nesta rapidez, de mecânicas hidráulicas sentimentais, podemos fazer infinitas pontes, ultrapassando milhares de lugares e assuntos. Não há problema, essa jornada conjunta especifica o quão anti-heróis que somos.

Somos o avesso das Olimpíadas: queremos ver quanto tempo conseguimos conseguir ficar parados observando o que flui e vai embora rapidamente, deságua em um mar distante e depois evapora, pois as coisas costumam mesmo passar.

 

Filipe Faria

Arquiteto Urbanista

um de muitos
Ilustração – Filipe Faria

Murar o medo

Transcrição na íntegra:

O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demônios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem, servindo como agentes da segurança privada das almas. Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos. Na realidade, a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambientes que reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território.

O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura, algo me sugeria o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas.

No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável casting internacional: os chineses que comiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pela independência do país, e um ateu barbudo com um nome alemão. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo. Os chineses abriram restaurantes junto à nossa porta, os ditos terroristas são governantes respeitáveis e Karl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência.

O preço dessa construção [narrativa] de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano. Em nome da luta contra o comunismo cometeram-se as mais indizíveis barbaridades. Em nome da segurança mundial foram colocados e conservados no Poder alguns dos ditadores mais sanguinários de que há memória. A mais grave herança dessa longa intervenção externa é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos.

A Guerra-Fria esfriou mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo, a Oriente e a Ocidente. E porque se trata de novas entidades demoníacas não bastam os seculares meios de governação… Precisamos de intervenção com legitimidade divina… O que era ideologia passou a ser crença, o que era política tornou-se religião, o que era religião passou a ser estratégia de poder.

Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas. A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. Para enfrentar as ameaças globais precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania. Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho começaria pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e do outro lado, aprendemos a chamar de “eles”.

Aos adversários políticos e militares, juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade é imprevisível. Vivemos – como cidadãos e como espécie – em permanente situação de emergência. Como em qualquer estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa.

Todas estas restrições servem para que não sejam feitas perguntas [incomodas] como, por exemplo, estas: porque motivo a crise financeira não atingiu a indústria de armamento? Porque motivo se gastou, apenas o ano passado, um trilhão e meio de dólares com armamento militar? Porque razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia são exatamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadaffi? Porque motivo se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça?

Se queremos resolver (e não apenas discutir) a segurança mundial – teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes. Há uma arma de destruição massiva que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que sejam precisos pretextos de guerra. Essa arma chama-se fome. Em pleno século 21, um em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fração muito pequena do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo.

Mencionarei ainda outra silenciada violência: em todo o mundo, uma em cada três mulheres foi ou será vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida… A verdade é que… pesa uma condenação antecipada pelo simples fato de serem mulheres.

A nossa indignação, porém, é bem menor que o medo. Sem darmos conta, fomos convertidos em soldados de um exército sem nome, e como militares sem farda deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e de discutir razões. As questões de ética são esquecidas porque está provada a barbaridade dos outros. E porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência nem de ética nem de legalidade.

É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha. A chamada Grande Muralha foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente, morreram mais chineses construindo a Muralha do que vítimas das invasões do Norte. Diz-se que alguns dos trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção. Esses corpos convertidos em muro e pedra são uma metáfora de quanto o medo nos pode aprisionar.

Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos. Mas não há hoje no mundo muro que separe os que têm medo dos que não têm medo. Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós, do sul e do norte, do ocidente e do oriente… Citarei Eduardo Galeano acerca disso que é o medo global:

“Os que trabalham têm medo de perder o trabalho. Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho. Quem não têm medo da fome, têm medo da comida. Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas, as armas têm medo da falta de guerras.”

E, se calhar, acrescento agora eu, há quem tenha medo que o medo acabe.

 

Vídeo do discurso do Mia Couto na Conferência do Estoril, 2011, sobre segurança mundial:

http://www.youtube.com/watch?v=jACccaTogxE

 

Mia Couto

Escritor

Imponderável Olhar

Gente que lida com gente devia ser obrigada a educar o olhar. Num mundo em que cada vez mais nos colocamos no piloto automático, não olhamos. O olho não mais capta o que é tão banalizado que não incomoda nossas mentes ocupadas em não ver e não ouvir, em não pensar.

Olhamos com os olhos, mas enxergamos com o cérebro. Educar o olhar é (re)descobrir o pensar. No pensar, a reflexão e a crítica que mexem com todos os sentidos. Por isso pensar nunca é indolor. E vivemos o ápice de uma cultura do afastamento da dor. Qualquer dor. Por isso nos entupimos com remédios para as dores do corpo, para as dores da mente, e, depressivos, fechamos os olhos exauridos pela angústia de nada ver, e não vendo, nada fazer. Nenhum movimento contrário, nenhuma reação, apenas a suavidade de um transe que apague qualquer vestígio da realidade que consumiria todos os sentidos, que queimaria as retinas e ensurdeceria os ouvidos.

Enquanto a realidade estiver exilada do cotidiano de quem interfere nas vidas, nenhum olhar poderá ser educado, não aprenderá a ouvir e a compreender o inusitado para fora do cercadinho das imagens. À distância, com a neutralidade da intelectualidade, da elegância ou do “profissionalismo”, envolver-se é o pecado mortal dos que pretendem ser vencedores. O olhar de indignação pelas injustiças e misérias humanas cede, assim, ao olhar do silêncio descompromissado. A lucidez já não tem espaço nas prateleiras atulhadas de inutilidades.

Não suportando a possibilidade de sermos negligentes no olhar, salvaguardamos a dignidade pela estratégia de jogar na vala da irrelevância o que não nos afeta. Míopes, julgamos ter o domínio de coisas não vividas e minimizamos seus efeitos que, afinal, achamos que nunca irão nos alcançar. Suprimimos a reflexão, abandonamos as causas e realimentamos o ciclo vicioso do viciado olhar que não vê o que fere a outrem. Ameaças sepultadas antes mesmo de serem vistas. Despreocupados, seguimos cercados de um vazio que julgamos ser a paz. A paz da vida sem vida onde jazem os olhos. Tranquilidade de cemitérios.

Pensar cidades que levem soluções às pessoas excluídas, aos mais renegados dentre os invisíveis pela miséria da exploração deveria ser a obsessão de qualquer arquiteto que mereça esse título. Mas isso seria assumir o flagelo da responsabilidade de quem enxerga. Parece, no entanto, que os umbigos da autopreservação são muito mais atraentes aos olhos.

 

Márcia Lombo

Arquiteta e pedagoga

As catacumbas da cidade

No famoso ensaio sobre “A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica”[1], Walter Benjamin relaciona a existência da “obra de arte” a duas motivações opostas: aquelas feitas para simplesmente existirem (valor de culto), e aquelas feitas para serem vistas (valor de exposição). Mesmo não sendo ainda “arte”, do modo como nós a definimos, as pinturas rupestres paleolíticas são o melhor exemplo do primeiro caso, uma vez que o alce ou o bisão flechados, pintados em locais quase inacessíveis das cavernas, deviam permanecer secretos, sendo “vistos” apenas pelos espíritos — daí a função essencialmente mágica dessas pinturas.

A lembrança dessa passagem me ocorreu ao assistir o documentário No Traço do Invisível (2006), de Laura Faerman e Marília Scharlach, realizado com o prêmio DOCTV, do MinC e da TV Cultura. O filme acompanha o grafiteiro paulistano Zezão em suas andanças por São Paulo, revelando os locais escolhidos por ele para a realização de seus “trabalhos”: edifícios e vagões abandonados, encostas canalizadas do rio Tietê, e, sobretudo, galerias subterrâneas de córregos, esgotos, e tanques de retenção de águas pluviais, os “piscinões”.

Sem tentar extrair da obra do grafiteiro uma tese geral sobre a experiência da metrópole, o filme consegue revelar com sutileza a monumentalidade da cidade escondida por sob aquela que conhecemos cotidianamente. Em uma cena particularmente reveladora, a câmera o acompanha em uma ronda infinita por corredores e salões escuros, com esgoto correndo pela altura da canela, até que, subitamente, após escalar uma tubulação e abrir uma boca-de-lobo, o vemos saindo, em plena luz do dia, numa avenida movimentada, em um dia “normal” da cidade.

Dirigindo um fusca envenenado pela Marginal Tietê, Zezão vai apontando locais de difícil acesso nos quais ele já interveio, e fazendo referência à unidade conceitual do seu “projeto” artístico. Ele não diz, mas se tomássemos a extensão e o caráter sistêmico da “obra” (abarcando mais de 37 quilômetros de galerias subterrâneas), teríamos que compará-la com um trabalho de land art em registro urbano. E, de fato, sua fixação por locais arruinados — e mesmo abomináveis — não se faz acompanhar de uma atitude revoltada ou engajada ideologicamente em qualquer bandeira contestatória. Também não se faz acompanhar, por outro lado, de qualquer elogio à decadência da cidade, numa espécie de estetização da ruína. Mas, ao contrário, de uma verdadeira excitação pela vida urbana, pela possibilidade de acessar na prática a espessura de sua trama complexa, de suas camadas sobrepostas, tornando-se uma espécie de testemunha solitária de sua dimensão secreta.

Zezão grafita lugares escondidos, absolutamente inacessíveis ao olhar comum, e define a atitude do “artista de rua” como a vontade de tomar o local grafitado para si, de modo a poder dizer: “é meu”. É curioso, mas esse afã de apropriação tem paralelo longínquo com a ação dos pintores-xamãs paleolíticos, que buscavam um meio de controlar a realidade através de inscrições secretas. Ocorre que, ao contrário daqueles caçadores nômades, o “nosso” grafiteiro é o morador anônimo de uma cidade em cuja opacidade estão soterradas — e transformadas em lixo — todas aquelas dimensões mágicas de culto que, pelo espanto diante da vida e da morte, fizeram um dia nascer a arte.

[1] Em Magia e Técnica, Arte e Política: Obras Escolhidas, Volume 1. São Paulo: Brasiliense, 1985.

Guilherme Wisnik

Espaço Público e Invisibilidade

Manhã ensolarada e fria no centro de São Paulo.
Passar por aqui faz parte do trajeto diário de muita gente, entre a Frei Caneca
e a Augusta, indo para a Consolação.
Os três antigos e coloridos sobradinhos conjugados parecem abandonados há
muito tempo, mas até agora abrigavam mais de cinquenta famílias e em três
dias deixarão de existir.
Todos estão na calçada, inclusive crianças e cachorros, pois estão sendo
deslocados por agentes anônimos da nossa Cia do Metrô, protegidos por
nossos policiais, armados e à paisana, que “pagam” por sua saída sem exigir
qualquer recibo, viabilizando a substituição dos incômodos abrigos informais de
pessoas por impessoais e necessárias futuras ventilações de túneis.
A cidade precisa crescer para cima e para baixo.
Assim que todos saírem de cada imóvel, começa a derrubar antes que alguém
possa voltar.
Manhã agitada, mas que não mais se repetirá, aqui.
Os drogados ganham mais um pequeno alento para o recorrente vício, os
criminosos partem para “outra” e as famílias e moradores restantes retomam a
procura por onde morar nesta cidade, próximo aos seus empregos e das
escolas de seus filhos, como muitos de nós.
Mas eles são invisíveis, pois o urbanismo, os cidadãos, as legislações e os
protocolos de conduta não os reconhecem ou protegem quando no espaço
público de nossa cidade.
– Mas, espera um pouquinho aí – Aquele ali, barbudo e com casaco vermelho é
o Valter e ele é meu amigo.

Ricardo Florez – Arquiteto / Psicodramatista
fundacaorgf@gmail.com