Ideal de Cidade x Cidade Ideal

“Não basta que seja bela, que guarde riquezas, cresça; nenhuma cidade pode ser melhor que a MINHA cidade, ainda que tenha o que ela não tem ou lhe tente ofuscar com grandezas.

Minha cidade guarda em si o ideal que construí. Sonhos que me deixei sonhar e em algum momento foi, é, ou ainda virá a ser: a cidade em que vivo.”

 +++

Nunca foi fácil descrever a cidade ideal, tão substancial e palpável quanto a felicidade, por exemplo: simplesmente não ‘é’. Felicidade é relativa; para alguns, ela reside no ter um teto, uma padaria em que se chegue a pé por perto, um espaço de céu sem concreto por onde o sol se permita bater na janela, amarelar algumas folhas de árvores e acordar aves no telhado; para outros, o pisar da grama ao acordar em qualquer lugar que não lhe pertença. Para mim, alguns dias, é apenas um copo de café e um bom livro no metrô. Individual, mas em algum momento, ela pode ser coletiva.

Já me propus a pensar sobre felicidade, acredito todo dia ser uma questão interessante. Nunca vi ou ouvi dizer sobre felicidade que se faz sozinha. Não sabemos conviver com o vazio, com a inexistência ou com a ausência. Sócrates afirmava que “uma cidade, nasce ou é tal porque se dá o caso de cada um de nós não ser auto suficiente, mas carentes de muitas coisas. Deu-se o nome de cidade à essa convivência de muitos carentes”, auto-suficiência, individualidade, contradiz a definição de cidade, contradiz a feliz-cidade, a felicidade.

Ainda acredito em cidades como organismos, é vivo, pulsante, e talvez orgânica. Se faz pela sua natureza e, se transforma e é transformada pela natureza de cada um, pela felicidade, a ausência ou busca dela, ainda que individual.

Não vejo ações cidadãs que se afirmem sem que tenha em seu contexto a constante busca por um ideal, o grande objetivo da humanidade: felicidade. Assim, é consequente a pré-concepção da cidade ideal frente a cidade idealizada, propondo-se o ideal como questão e aceitando-o como inatingível frente a aceitação do inatingível mas permitindo-se o sonhar: a utopia de grandes cidades; cidades tão humanas quanto os reflexos culturais e pessoais no construir de uma pequena casa: orgânicas, moldáveis, passíveis de transformação.

 Joseph Rikwert já colocava a cidade como a maior conquista inalienável da humanidade em “A sedução do lugar” e, é desta forma, que ela se transforma sob os aspectos culturais e humanos de seus cidadãos, suas buscas, seus ideais e anseios que vão além do platonismo da cidade ideal, residente no belo. O belo está nos olhos de quem a vê e cada um a vê sob os reflexos de sua história. A cidade se transforma, e busca o prevalecer de sua projeção ideal sobre imposição de grandes planos capitais.

É certo que tenhamos hoje, como já afirma Rickwert, instituída a grande capital, o centro do mundo, como sendo o centro financeiro mais notável: Manhattan e; como afirma Lefebvre em sua produção literária: “(…) as cidades se isolam da natureza” e, cada vez mais, de sua própria natureza . Contudo, quanto mais se pensa a felicidade e contrapõe esta às cidades em que vivemos, centros econômicos ou geográficos, menos se prova que a cidade global que almejamos, idealizamos, buscamos projetar ou alcançar diariamente seja um centro financeiro.

Se a cidade se molda e se faz ao seu cidadão, tem-se a cidade representação espacial da identidade de um povo e apesar do modelo econômico que vivemos desenhar nossas vidas, a cidade representa mais do que imposição de valores (capital), representa uma cultura, um desejo, uma busca. Talvez o desafio da cidade resida justamente no valor: a distinção / contradição entre os valores ideais que usamos para nossa cidade idealizada e, os valores que tomamos para nós nas atitudes cotidianas.

Assistimos ao longo dos anos nossas cidades assumirem um papel antropofágico, mas o que se absorveu foi um modelo de ocupação americano onde tradição e valores começam a sucumbir perante a incerteza do novo e tecnológico, cujo resultado é a busca por ocupação de um vazio não apenas externo (paisagem), mas também interno (humano); de forma inconseqüente, que leva a criação de cidades supra-ocupadas, centros de passagem e o caminho a ações destrutivas pautadas em progresso, um progresso volúvel, que se modifica a cada nova realidade econômica pela qual passamos.

 São Paulo tem sim a ‘cara’ de todos que aqui chegaram e a ocuparam, talvez essa seja sua verdadeira identidade: domínio da mixofilia sobre a mixofobia; mas basta sair um pouco do seu centro geográfico e toda sua particularidade geográfica, biológica e antropológica começa a ser maquiada por uma produção arquitetônica, uma produção HUMANA que se aproxima mais da capital do mundo do que da cidade outrora idealizada, a mesma produção volúvel que os modelos econômicos nos impõem.

Se a cidade é produto do que o homem a faz e não da natureza, a transformação da dinâmica urbana está intrínseca na transformação cultural e revisão de valores humanos. Se hoje agimos como máquinas, nosso produto é uma cidade mecânica onde não se vive, se passa, atravessa, mas não se deixa estar. Contudo, nas mãos do arquiteto ainda estão as ferramentas para a essa revisão de valores: como se faz a cidade que queremos ter. A cidade que se quer, ainda não é a que se tem, mas é a que se pode ter; falta-lhe credulidade e um pouco de paixão para acreditar que utopia de Thomas More, ainda que paralela à nossa realidade, pode encontrar um ponto no espaço-tempo para se fazer verdade.

Bruna Ferreira

Cidade Líquida

                 A mudança de valor, costume e comportamento do homem moderno, alterou o elemento memorável e cultural da cidade que chamamos de centro tradicional ou centro histórico. Após a classe dominante ter abandonado o núcleo do município, migrando para a região do quadrante sudoeste[i] (no caso da cidade de São Paulo), e consequentemente, os investimentos de infraestrutura, emprego, saúde, educação, transporte, lazer, moradia e outros equipamentos públicos, para próximo da sua localização, o centro histórico, deixou de ser reconhecido como centro. Uma vez que, o poder público age passivamente na produção do espaço urbano, e a iniciativa privada opera com maior enfoque nas áreas onde há perspectiva de lucro, perde-se a identidade de centro da cidade como estrutura urbana. A região central começa a receber aqueles sem poder financeiro e, consequentemente sem influências políticas e econômicas, para uma possível manutenção ou transformação do centro. Como isso, outros centros são criados, de acordo com a necessidade e características étnicas.

                Considerando que a etnia compreende os fatores culturais, como a religião, língua, hábitos gastronômicos, hábitos no vestuário, e outras tradições, ao observarmos, a nova geração e a geração passada, percebemos grandes mudanças das características étnicas, alteradas também por infinitas influências do nosso tempo[ii]. Se houve variação no comportamento social, haverá também variação na estrutura urbana, o centro da cidade que imagino, por experiência de vida, provavelmente é muito diferente do centro da cidade, vivenciado por um grupo de pessoas da geração atual, e também de uma geração anterior a minha. Isso desarranja por outro lado, a maneira de olhar, usar, ocupar o espaço público. Logo, a cada geração, teremos uma compreensão do que é centro, conforme os resultados das mudanças de comportamento.

xangai

Figura 1 Xangai 1990 e 2010 – Transformação da paisagem urbana e social, conforme o modelo capitalista, e o novo olhar da geração que a concebeu.

                Quando se trata do modelo capitalista, a falta de ética[iii] pode ser a maior qualidade associada ao padrão de vida atual, este formato, com enfoque no lucro, possível de ser gerado pela cidade, é instável, e a isso se deve o deslocamento, do centro principal da cidade para outra região. Conforme o princípio do capitalismo, não há garantia que a região do quadrante sudoeste, hoje abastecida de bens serviços, ficará concentrada nesta mesma área, à medida que houver oportunidade de lucro, em outra parte da cidade, haverá mudança no investimento, assim o valor da terra também sofrerá alteração, isto é, o espaço urbano muda de acordo com seu interesse, econômico, político e imobiliário, para qualquer canto da metrópole, desde que haja interesse suficiente para isso, e retorno financeiro para iniciativa privada, participante ativa na produção do espaço urbano atual.

                A ideia de centro líquido, ou cidade líquida[iv], representa a falta de solidez, algo que não consegue manter a forma por muito tempo, um elemento que sofre abalo, com o mínimo de movimento, sem consistência, escorre entre os dedos das mãos em qualquer direção, como nos dirá Zygmunt Bauman.

                Ao refletir sobre a cidade líquida, imagino que o mínimo de esforço seja suficiente para alterar a estrutura da malha urbana, porém esta força que atua sobre o espaço, tende a ser direcionada ao interesse da classe dominante. A força de atração para possuir a infraestrutura, na mesma região de moradia, atua sob o poder político e econômico. Esta poderosa e eficiente força, operante pela minoria, segundo o interesse do capitalismo, é capaz de retirar moradores com baixa influência política, demolir áreas enormes, para implantação de investimento imobiliário, conquistando de maneira cruel, a terra que deveria servir à família que ali já estava, porém esta maneira de conquista de localização, aparentemente legal, alimentada pela iniciativa privada, é usada como arma, para a compra do pedaço de terra, daquele indivíduo sem poder de decisão sobre seu espaço. Assim o cidadão fraco, diante da pressão imobiliária, cede.

                Este efeito, de conquista de terra em época moderna, não só retira o indivíduo do seu local de moradia, como aumenta o valor do solo dificultando, financeiramente, a volta desse mesmo cidadão ao local onde habitava. “Também comum no passado era aquisição de território por conquista, ou seja, mediante emprego da força unilateral, ou como resultado do triunfo em campo de batalha[v].” Com a mudança na característica étnica, talvez essa seja a maneira “civilizada” de guerrear. Considerando que o espaço urbano é um campo de conflito, a arma mais poderosa da iniciativa privada, na guerra territorial é o capital, este é capaz de garantir, o interesse defendido pelo setor, que ataca aquele ocupante da área de interesse privado (AIP), esta decisão empresarial, visa o lucro e não tem nenhuma responsabilidade em manter o mínimo de qualidade na paisagem urbana, sequer com a estrutura viária.

Quando a iniciativa privada domina a (AIP), tem como característica o melhor aproveitamento do espaço, isso significa, verticalizar o objeto[vi] construído. Desta forma, a rua onde antes havia baixo fluxo de automóvel, terá que absorver o impacto de alto fluxo de automóvel diariamente, mudando hábito, costume, valor do solo e a característica da região. Esta tática representa uma agressão psíquica naquele sujeito, sem o benefício do dinheiro, assim sendo, encontra-se rendido pela incorporadora, e aceita uma oferta muito abaixo da média de lucro do novo empreendimento. Ao aceitar a proposta, o cidadão consegue comprar outro imóvel, em outro bairro, distante do local onde habitava. Esse movimento na estrutura urbana é capaz de mudar a diretriz de investimento público e privado, mudar a peculiaridade da região, e influenciar de maneira superficial a ideia de progresso na metrópole.

Atualmente, o que vemos nas operações urbanas, são batalhas nas áreas ocupadas, sem resistências das populações mais fracas, residentes na determinada região de interesse, pois a lei favorece de maneira controversa a classe dominante. Na maioria dos casos, os mais pobres, são retirados e dão lugares aos investimentos dos mais ricos. Uma movimentação política, interessada em recuperar uma área, usa o emprego da força unilateral, (apenas uma das partes, neste caso a classe influente), para conquistar a estabelecida área da cidade. Essas forças são as armas nas guerras por terras de potenciais lucrativos.

Lucas Lavecchia

NOTAS


[i]  “Partindo do centro, situam-se nesse quadrante os bairros de Higienópolis, Pacaembu, Consolação, Av. Paulista, Vila Mariana, Aclimação, Ipiranga, Sumaré, Perdizes, Vila Pompéia, Alto da Lapa e de Pinheiros, Jardim, Butantã, Morumbi e vizinhanças, Moema, Brooklin, Alto da Boa Vista, Granja Julieta etc.” VILLAÇA p.62

[ii]  Não vamos entrar no mérito da questão das influências, porém sabemos que existem forças, movidas pelos meios de comunicação, pelo modelo capitalista e outras formas. Essas influências correspondem atualmente, ao individualismo, a segregação e o medo à diferença do próximo. Inseguro, tendemos a nos concentrar em atividades separadas por classes sociais.

[iii] O motivo da falta de ética do capitalismo concebe antes de tudo, o lucro, se uma determinada região, não é suficientemente lucrativa, este modelo econômico busca em qualquer outra área, seu estoque de energia, neste caso, a atividade rentável. (Conceito lançado pelo professor Zico entre alunos e professores no grupo Alvoroço).

[iv] Tudo gira em mudanças rápidas, nada é feito para durar. Líquidos mudam de forma muito rapidamente, sob a menor pressão. Na verdade, são incapazes de manter a mesma forma por muito tempo. Z. Bauman.

[v]  J. F. Rezek, Direito Internacional Público. Aquisição e perda de território p. 166

[vi] A palavra objeto é usada, para caracterizar o edifício sem relações harmônicas com o entorno, na maioria dos casos, não há investimento para a melhoria da via onde houve a implantação do empreendimento.

A culpa é da vertigem.

“Centro aguado”, como em breve ou agora ou daqui a pouco, o Lucas vai falar. Talvez antes mesmo de começar a escrever estas linhas, eu tenha bebido um pouco da liquidez do centro, onde ele se diluiu tanto que chega a ser tudo, menos o centro, pode até chegar a ser cidade. “Ah, mas que surpresa” diz o cético contemporâneo, que enxerga a cidade como prateleiras de brinquedos, dizendo que não existe liquidez ou “ausência de forma” seja ela linear ou não linear contradizendo o pressuposto de estudos urbanísticos que os urbanistas, geógrafos e outros técnicos definem pelo termo “manchas”. Essas manchas são talvez o reflexo mais exato de observação da cidade. Por outro lado, esse mesmo cético seguro de si, enxerga muito bem a necessidade de gerir ou exercitar a administração da cidade, mais cai na armadilha da dúvida quando seus atos demonstram que não existe uma necessidade segura de “construção da cidade”, pois afinal a cidade já está construída.

A dúvida sempre acompanha o trabalho do urbanista que possuí na sua prancheta manchas e mais manchas e não uma linha cortante que diz “aqui acaba a cidade”, “aqui o centro termina” “aqui não há solução”. Infelizmente essas limítrofes acomodadas são herança de muralhas burocráticas, filhas de diretrizes de programas de governo ou “gestão”. Aliás, a palavra “gestor” e seus derivados semelhantes, estão sendo usados e desgastados pela política comercial (novamente) contemporânea, pelos centros de ensinos públicos e privados, pois não só está na moda, mas necessariamente se acomoda no assunto. Um discurso de fazer brilhar os olhos “quem não sabe gerir um projeto, não consegue fazer nada”. Sim, hoje se formam mais gestores em cursos de especialização fecundos e suas propagandas, em placas de neon à Vegas, brilham chamando a atenção da cidade que se o Venturi estivesse vivo, também os estudaria e aplaudiria. Gestão urbana, gestão política, gestão ambiental, gestão de não sei o quê e pra quê. Não duvido que se aprenda realmente a gerir. E a gestão, infelizmente, lida com o valor do capital, e aqui podem se levantar vozes algozes partidárias. Aprende-se a gerir, só. É necessária uma carga horária no mínimo risonha, para ensinar gerir as coisas (detalhe para a palavra “coisas”) afinal, a cidade é uma coisa, coisa liquida, não só por causa das enchentes, não, isso não, mas pela sua diluição, sua centralidade sem definição que até hoje não sei se é um defeito ou o melhor acerto possível, herança da gambiarra portuguesa misturada com as “n” etnias culturais que encontraram na Paulicéia um lar.

De acordo com Jucélio Paiva: “Administrar é o processo de dirigir ações que utilizam recursos para atingir objetivos. Embora seja importante em qualquer escala de aplicação de recursos, a principal razão para o estudo da Administração é seu impacto sobre o desempenho das organizações. É a forma como são administradas que torna as organizações mais ou menos capazes de utilizar corretamente seus recursos para atingir os objetivos corretos” [1].

Decidi entrar nesse tema enfadonho como um gaiato mal comportado, pois os textos estão repletos de conceitos resumidos nas palavras “recursos, objetivos, aplicação, organização”. Mas calma, não seriam essas palavras, voltadas à prática da arquitetura e urbanismo a própria definição do que é projeto (projétil: que dispara de encontro a um alvo), planejamento urbano, o próprio estudo e desenho? Conforme o Dicionário Priberam, administrar significa: Dirigir superiormente. O urbanista não faz isso enxergando a cidade do alto, observando seus desenhos, sua organização espacial (mesmo que desorganizada), seus pontos de encontro, etc? Só no sentido poético da definição do conceito “superior” isso se torna plausível, de resto não. O termo é questão de liderança, não no seu sentido desagradável de hierarquia capitalista onde “ele é mais do que o resto” e sim de coordenação dos trabalhos. O que levanta outra questão no mínimo engraçada: quem administra/gere hoje a cidade? Hoje se fala também em políticas públicas, só se fala, em boca miúda, nada de discussões violentas e debates e são poucos os grupos que decidem levar ao palco essa orquestra experimental de discussão da cidade na sua melodia mais ríspida e densa.

É com orgulho que ainda não sou um “gestor de cidades”. O urbanista é um objeto arcaico para os gestores, um “instrumento” que pode ser deixado de lado, pois ele vem antes do “gerir”. Ele faz isso na sua discussão aberta, participativa, no traço coletivo, vendo o que é a cidade hoje para pensá-la no futuro não partindo do pressuposto financeiro/capetalista* (totalmente ligado ao conceito de gestão que hoje se ensina).

Deve causar vertigem a aqueles que não voaram em pensamento pra ver São Paulo do alto, na chamada aerofotogrametria estando ao mesmo tempo com os pés no chão, vivendo a cidade e suas (a)normalidades e (d)eficiências. Se não sabemos pensar na utopia de uma cidade ideal, correta e justa, não só em forma/fôrma, como podemos querer gerir algo que nem ao menos conhecemos intrinsecamente. Por isso fazemos diagnósticos, conversamos em traços, manchas, sobrepomos transparências, lemos a história em letras e em registros fotográficos, em mapas, filmes, documentários, nas fofocas históricas, nos processos urbanos de ocupação legal e ilegal, na própria experiência de vida. Quando a cidade deixar se der desenhada com cifras, conseguiremos construí-la e aprender a geri-la corretamente, mesmo que tudo isto pareça uma balela, uma “utopia”, das piores.

foto-texto-filipe

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Filipe Faria, 25 de março, 2013

Arquiteto Urbanista


[1] Maximiano, Antonio Cesar Amaru. Introdução à administração – 5. ed.rev.e ampl.- São Paulo : Atlas, 2000

Omissão dialogante entre os órgãos do governo

Construções irregulares é uma prática comum no Brasil. Normalmente, esta iniciativa procede de migrações em massa para os centros urbanos, e daqueles sem condições financeiras de adquirir um imóvel no centro da cidade, conforme as normas regulamentares de cada município, e com a ajuda da negligência das políticas habitacionais de cada estado. Assim sendo, no primeiro momento, as moradias deste grau, localizam-se fora do centro. A impraticável capacidade, do direito de morar, de maneira regular, segundo os planos diretores e a constituição, forma um ciclo inconstante de moradias em áreas cujas leis abominam de qualquer cidadão do território nacional. Essas áreas são conhecidas por “aglomerado subnormal”, termo usado no Censo Demográfico de 1991, ou simplesmente favela.

No jornal do Estadão Notícias¹ a Prefeitura da Cidade de São Paulo, multou em  R$ 1,4 milhão a Companhia de Desenvolvimento Habitacional de São Paulo (CDHU) pela construção de conjuntos habitacionais em uma Área de Proteção Ambiental (APA), localizada no Jardim Pedra Branca, zona leste da capital, a multa corresponde também ao despejo de esgoto na várzea de um córrego local.

Acredito que a implantação do referente projeto, não seja o primeiro caso, de omissão dialogante, entre os órgãos do governo, segue a isto, pelo menos dois fatores de desleixo. O primeiro é a não aprovação das plantas e localização, cabível a prefeitura, do empreendimento realizado pela CDHU, o segundo, o não cumprimento do Plano Diretor da Cidade de São Paulo, capítulo IV².

Como solução para resolver o equívoco cometido entre os órgãos, a Prefeitura de São Paulo, cobrou R$ 1,4 milhão de multa, atribuída aos danos ambientais, porém a matéria do jornal não menciona qual o destino que a prefeitura daria ao dinheiro público recebido, acumulado com a contribuição obrigatória.

Mesmo em situações legais, refiro-me no caso do terreno em questão, estar em condições regulares para construção, à distância percorrida pelos moradores em busca de serviços, não se justifica, a falta de acesso aos equipamentos, culturais, saúde, emprego, transportes e lazer, a este último, destaca-se pelo projeto do prefeito Kassab que transformaria a área em um parque, agregado com um campo de pesquisa ambiental, anexa ao Parque do Carmo, como sugere a matéria.

Constato que ainda há defensores da execução em série, de habitações longínquas, no poder público, já que a iniciativa privada, não tem interesse em participar dos empreendimentos para aqueles de baixa renda, contudo não é difícil encontrar conjuntos habitacionais nas bordas das periferias. Desdobra-se a isso, a corrida do governo em criar formas fáceis, para bater suas metas, pois é mais ligeiro estruturar um projeto de habitação, localizado distante do centro, onde o valor do terreno costuma ser mais barato, e há oferta maior de terras, ainda assim, não há preocupação em investimentos de infraestrutura para atender os futuros moradores.

unidades habitacionais entregues gestão de governo

Habitações para aqueles que carecem de recursos financeiros, na extremidade da cidade, não é uma prática social que costuma ser bem sucedida. Para exemplificar, o caso da Cidade de Deus no Rio de Janeiro, resultado da ação política de retirar favelas de outras áreas da cidade, e recoloca-las em regiões remotas, sem acesso aos bens e serviços de direito a todo cidadão. Na condição da região da Cidade de Deus, mesmo localizado próximo a Barra, zona oeste, apresenta uma situação crítica em relação ao vizinho rico, com um péssimo suporte de saneamento, o IDH é de 0,751, não há parques, teatros, hospitais e oferta de empregos, conta ainda com uma população de 120 mil habitantes, de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), que precisam se deslocar diariamente, para exercer suas atividades diárias, enquanto cidadãos. Condenados pela iniciativa do governo, em localizar famílias em áreas sem acesso decente aos bens e serviços, e ao restante da cidade. Essas famílias amargam uma vida mais sofrida, devido às relações da estrutura urbana concebida pelo homem.

A falta de qualidade dos investimentos em habitações, não cabe apenas resolver com arquitetura, como objeto isolado, não é apenas inserindo edifícios desajeitados, em qualquer lugar, ou vendendo apartamentos, cujo dimensionamento da residência varia de acordo com a renda disponível do morador³, que o cidadão estará completo. O direito à moradia, o direito ao entorno, aos bens e serviços, somam como qualidades às metas do governo, no programa de habitação, e são esquecidas.

Descaso com o cidadão, jeitinho brasileiro, certeza da impunidade, são elementos que fortificam a mediocridade dos nossos projetos, incapazes de criar de forma digna, quando direcionado aos mais pobres, condições de vida suficientes para a existência humana, com no mínimo, seus direitos garantidos pela Constituição Federal.

Lucas Lavecchia

 

NOTAS

1 – http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,sp-multa-cdhu-por-dano-ambiental,994414,0.htm

2 – O capítulo IV do Plano Diretor da Cidade de São Paulo – Da Função Social da Propriedade Urbana – Art 12 – III – a adequação das condições de ocupação do sítio às características do meio físico, para impedir a deterioração e degeneração de áreas do Município;

3 – Milton Santos, O Espaço do Cidadão, p. 45-46.

Cada imóvel vale pelo lugar em que está

Artigo escrito e dedicado ao meu professor Cláudio Manetti

As diferenças econômicas desenham a cidade, organizam grupos de bairros semelhantes, caracterizando as prioridades de investimentos, nos bairros das elites. Desta maneira, a cidade ganha força econômica e política em algumas regiões, mantendo os valores dos imóveis em alta para alguns e em baixa para outros. A partir dessa condicionante, desencadeia uma série de interesses sociais como, segurança, educação, saúde, lazer, emprego, entre outros, que vão compor bairros desfrutáveis ou não.

Se imaginarmos um edifício no Leblon, (Zona Sul do Rio de Janeiro) e o mesmo edifício em Brás de Pina (Zona Norte do Rio de Janeiro), certamente constataremos uma grande diferença de preço no valor do metro quadrado. Como pode haver tanta diferença nos valores de edifícios idênticos? Como há tanta diferença se os materiais construtivos são os mesmos e a mão de obra também?

Segundo o portal UOL Notícias¹, o metro quadrado no bairro do Leblon chega a R$ 20.451,00 enquanto no bairro Brás de Pina o valor é de R$ 2.413,00. Uma diferença de R$18.000,00

Sabemos que a praia, a beleza da natureza, são fatores de desequilíbrio, e incidem diretamente nos valores dos imóveis, porém, podemos aprofundar mais no assunto, e não nos contentarmos apenas com a idéia de beleza. Por mais belos que sejam o morro dois irmãos, a praia, a lagoa, esses fatores não implicariam em tamanha discrepância entre os valores apresentados, sem levar em consideração toda infra-estrutura urbana que um bairro deve conter.

Para exemplificar, que tal beleza não seria a principal razão, na mesma matéria, é comparado um apartamento no Leblon com um castelo “chatêau” Francês do século XIX, onde os imóveis custam R$ 12 milhões e R$ 12,9 milhões respectivamente.

Porém o principal motivo de desequilíbrio, entre nosso exemplo de edifícios idênticos, em bairros diferentes (Leblon e Brás de Pina) é a localização, que conseqüentemente, divide a sociedade em classes econômicas, causando entre outros fins, a segregação urbana. Assim, os serviços, equipamentos públicos como, hospitais, escolas, teatros, cinemas, shoppings, teriam a implantação no espaço da cidade, de maneira que privilegie, primeiro a parte mais rica da cidade, deixando em segundo plano a parte mais pobre. Uma vez separados, os indivíduos usufruem dos bens e serviços instalados em seus bairros, ou então, para aqueles cujos bairros não oferecem a gama de investimentos em equipamentos, são obrigados a se deslocarem, para terem adquiridos seus direitos. Ainda assim, os bens e serviços variam de qualidade, demanda e oferta, compatíveis com a renda do cidadão, formando aglomerados de ricos e pobres em toda a cidade, e valorizando espaços no território de acordo com os interesses dos mais ricos, lembrando a frase de Milton Santos² “cada homem vale pelo lugar em que está”.

Poderíamos adaptar a frase do geógrafo para, cada imóvel vale pelo lugar em que está. A localização como produto produzido pelo trabalho do homem³. Segundo Villaça: “não foi o trabalho humano que produziu o Pão de Açúcar, nem a praia de Ipanema, mas foi o trabalho humano que os transformou em localização desfrutável, inserindo-os na cidade.”

Seguindo o conceito de localização, afirmamos que o bairro do Leblon esta inserido na cidade, enquanto Brás de Pina não, uma vez que o trabalho humano é transformador de localidades desfrutáveis, misturando os usos, cultura, lazer, saúde, educação, habitação, serviços.

O que resta ao bairro da zona norte (Brás de Pina)? Certamente procurar as ofertas das transformações fora de seu bairro, causando traslados, em direções as áreas mais valorizadas da cidade, seja com transporte público ou particular, isto é, essas regiões mais ricas, concentram a maioria dos equipamentos públicos, de direito de todo cidadão, independente do lugar em que mora.

O motivo da diferença gritante, do valor do metro quadrado, entre o bairro do Leblon e Brás de Pina depende, diretamente, da transformação concebida pelo homem. No primeiro momento cito dois poderes de transformações, o político e o econômico, ao longo da história carioca, esta competência, esteve nas mãos das classes dos mais ricos. A autoridade de investimentos dos bens e serviços públicos acompanham os deslocamentos daqueles que detém, principalmente esses dois poderes. Em uma análise rasa, digo que os deslocamentos das elites e os investimentos por elas realizados ao longo da urbanização, começaram pelo centro tradicional da cidade, que alguns ainda chamam de cidade, em 1763 quando a cidade foi elevada a condição de capital da colônia, seguindo para a zona sul, com urbanização iniciada em 1870 até 1950, e posteriormente para zona oeste, cujo aumento populacional data desde 1970.

Para finalizar, apresentamos um quadro dos equipamentos investidos e estatísticas entre bairros.

Relação dos teatros, segundo a Secretaria Municipal da Cultura (SMC) da cidade do Rio de Janeiro.

ESPAÇO CULTURAL MUNICIPAL SÉRGIO PORTO – Localização: Rua Humaitá, nº 163 – Humaitá

TEATRO MUNICIPAL CAFÉ PEQUENO – Localização: Avenida Ataulfo de Paiva, nº 269 – Leblon

TEATRO MUNICIPAL CARLOS GOMES – Localização: Rua Pedro I, nº4 – Praça Tiradentes, Centro

TEATRO MUNICIPAL MARIA CLARA MACHADO – Localização: Rua Padre Leonel Franca, nº 240 – Gávea

SALA MUNICIPAL BADEN POWELL – Localização: Av. Nossa Senhora de Copacabana, nº 360 – Copacabana

TEATRO MUNICIPAL ZIEMBINSKI  – Localização: Rua Urbano Duarte, nº 30 – Tijuca

TEATRO GONZAGUINHA – Localização: Rua Benedito Hipólito, nº 125, Praça XI – Centro

TEATRO MUNICIPAL DO JOCKEY – CENTRO DE REFERÊNCIA CULTURA INFÂNCIA – Localização: Rua Mário Ribeiro, nº 410 – Gávea

Fonte: http://www.rio.rj.gov.br/web/smc/exibeconteudo?article-id=1868641

Dos teatros apresentados, cinco estão na zona sul da cidade, dois no centro e apenas um na zona norte.

Cada imóvel vale pelo lugar em que esta

 

Lucas Lavecchia

NOTAS

1 – http://economia.uol.com.br/noticias/infomoney/2013/02/04/leblon-tem-o-m-mais-caro-entre-16-cidades-brasileiras-veja-os-campeoes-por-municipio.htm

2 – Milton santos, O Espaço do Cidadão, pag. 89 Espaço e Valor do Homem. Santos faz uma análise dos bens e serviços como forma de consumo, deixando a responsabilidade antes do poder público para a iniciativa privada.

3 – Flávio Villaça, Reflexões Sobre as Cidades Brasileiras, pag. 25 A Terra como Capital (A Terra-Localização). Villaça reflete a localização como produto de trabalho do homem e não um atributo da natureza.