O urbanocrata

Um intelectual que escolhe seus amigos.

Ele esta na moda, revesti-se com os melhores materiais, preferencialmente os mais chiques, importados e modernos, odeiam pastilhas, são cafonas. Ao gosto da high society, tem o andar sempre imponente, e com olhar superior, destaca-se na multidão com seu brilho e talento, é diferente, descolado, esperto, algo como um neonerd, ostenta seu grande pé direito, quem disse que tamanho não é documento? É espaçoso, ocupa um quarteirão, é mimado e quer tudo só para ele, tem o discurso da moda, sempre atento às novas tendências de fora, costuma dizer que chegou para revitalizar o bairro, mesmo que para isso tenha que derrubar os velhos moradores, feios e pequenos, aos demais, apenas ficam admirando de baixo para cima, a seus pés, pois para olhar não paga nada, até o falecido Oscar dizia que a arquitetura era para causar espanto, pois aqueles que não podiam, se contentariam com a contemplação.

O urbanocrata quer mudar a cidade, mas só frequenta a badalada zona oeste, Vila Mada, Pinheiros, Lapa e Higienópolis são seus lugares preferidos, cabe aqui uma pausa e refletir, sim, esses bairros estão tão carentes, tenho dó. Evitar zonas distantes é o seu bordão, odeia gente diferenciada e se puder evitar o metrô, melhor, pois “agrega valor” e fica mais elitista, dando um toque sofisticado e intelectual.

Pequeno por fora, grande por dentro, adora inovar com frases de efeito usadas por propagandistas especialistas em vendas, seu design é único, uma belezura, aliás, para isso foi desenhado por brasilian super-top-god-popstar architects! Aquele toque retrô ou vintage é o grande pulo do gato, suspensos por pilotis (em francês fica chique demais!), resgata a ideologia moderna da igualdade e liberdade atuais. Isso sim é respeito, seu nome é de gente importante, e sempre acompanha uma boa ideia, algo exótico como pitaya ou tamarillo. Quanta elegância! Garante o temor pelos famosos e respeitados críticos de arquitetura, sua influência é tamanha, que por alguma palavra fora da linha será amaldiçoado pela repressão, liberdade de expressão é usada apenas a favor do urbanocrata, gosta do povão, mas só é visto com a elite cult nas revistas de fofocas mais interessantes da cidade.

Sua beleza causa inveja até na Sabrina Sato, sua dica de beleza esta no ângulo do fotógrafo, de perfil é “mais tudo”, sempre leve e magro nas fotos, sua frase favorita que conseguiu decorar é “menos é mais”, nem precisa citar o autor desta máxima, este incrível minimalismo brasileiro assume formas por meio de linhas retas, caixas e retângulos. Não interessa! Todos adoram o cubo!

O discurso do popular chapa branca é revitalização do entorno e a arquitetura inovadora, que vai melhorar a vida de todos, todos que podem pagar é claro, cuidado se estiver com uma casinha simples em seu território de ataque, não vai restar pedra sobre pedra, como se estivesse na passarela, o brilho do flash é só para ele, seu figurino costuma ser em cores pastéis, o colorido irrita, é muito carnaval, no máximo arrisca um Mondrian básico.

Gosta de falar em amor como desejo, o desejo das pessoas, por aquilo que ainda não tem, pois quando conquista este objetivo o desejo acaba, algo semelhante ao amor platônico, ou Eros, como diria o próprio Platão, desejo por aquilo que não tem. Seu alto padrão é justificado por qualquer cifra, uma vez que sua grife não pode ser usada por qualquer um e glorifica o tal entorno.

 

Lucas Lavecchia

Dispensas Intelectuais

Me formei.

Durante o curso inteiro tive apoio de professores que se tornaram amigos e os mesmo foram os que me deixaram à vontade sobre o trabalho de conclusão de curso. O orientador, que na verdade, acumulou meu cérebro com tanta informação que cheguei ao ponto de perguntar-me como poderia construir uma tese de conclusão de curso com tantas coisas fora da arquitetura e mais (a)dentro da torrente enigmática de literatura lusófona e colombiana em que paralelamente ocupava meu tempo, foi quem me lançou no abismo da dúvida e nessa queda acabou de desorientando. Foi fundamental. Eu queria era escrever sobre arquitetura e escrever sem pretensão, sem aquela necessidade de correção orto-gráfica, como uma regra paramétrica, coisa que assimilava quase que instantaneamente com trabalhos de conclusão de curso de minha sala, da faculdade, de outras universidades e tentava de qualquer jeito e maneira entender todo o contexto. Queria ser diferente, tinha todas as chances, tinha até uma certa liberdade.

Não fui diferente.

Mas escrevi, sim, escrevi muito, tanto que nem coloquei metade do que queria na dita cuja mono-grafia, mas me ative na construção do conceito, conversando com o Hélio, um sujeito simpático que cuida até hoje de toda parte de documentação da faculdade de onde me formei. Ele me fez refletir sobre a  didática e a própria comunicação, a proximidade com o leitor, coisa que divaguei e quis aplicar em outras coisas, mas era na arquitetura e no urbanismo, nesta esfinge dolorosa da formação no Brasil, nesse hiato, era ali que eu deveria me destrinchar. Minha monografia ficou sendo como uma cacofonia, poli-grafia de vários sentidos que me ocuparam quando anos antes fui a Évora e conheci outros amigos com sensibilidades ácidas com relação ao conceito de espaço e civilização.

Tentei ser organizado.

Fui até certo ponto, mas deixei fluir como se fosse um rio, deixando que afluentes se juntassem, contribuíssem, pois eu precisava disso, precisava ver as coisas se amontoarem e ganharem certa vazão, mas a organização dos pensamentos não parecia coerente, parecia apenas um método imposto, contingente, claro, para a explanação de uma ideia pessoal, para que ela fosse repassada para pessoas que iriam me ouvir e iriam me avaliar e veriam se havia alguma linha de raciocínio, ou não.

Apresentei uma loucura.

E foi uma loucura. Durante a banca me senti relaxado para apenas ser um pouco mais estudante e menos um proto-arquiteto-urbanista. Esferveci, perdi a conta do tempo, a apresentação que tanto foi revisada e organizada me pareceu fora do ritmo da minha fala e dos meus tiques de repetição, de autocorreções. Elaborei um quadro-maquete nada detalhista e mal-explicativo, mas ali estava para testar-me, sim, como se seis anos de completa dedicação ao procurar aprender a projetar em diferentes escalas fossem resumidas a quarenta minutos que foram recompensados com conselhos e felicitações, pois eu estava sendo aprovado e convidado para dar aula, mesmo sem saber fazer conta de cabeça e entender somente no último ano o conceito de trabalhar em grupo, quando a revista linha e o gafaam encheram o pulmão psíquico com novos ares, o que me devolveu ao compromisso com uma vida instigante.

No final, a coisa não acabou.

Hoje: ver o que aprendi nesta etapa final amontoando os sorrisos e crises de trabalhos colados, honestidades fingidas e mensalidades mal pagas, não saberia imaginar que abriria um estúdio, que participaria de certos trabalhos inimagináveis, que conseguiria participar efetivamente de uma mudança urbana em que pude contribuir na linha de frente, com toda essa desorganização que é o tema “políticas – públicas” ao lado de pessoas que colocaram primeiro o pescoço e toparam dar o pouco tempo vital do descanso para desenhar mapas e mais mapas. Trabalho e recebo o suficiente para pagar as contas e fazer outras dívidas, lendo agora mais sobre a anestética da arquitetura e alguns gibis fora de moda, tendo conversa com esses professores companheiros que falam  não fazer arquitetura ou urbanismo se não houver tesão e dúvida, se não houver angustia, se não houver essa dose de irresponsabilidade com relação ao que pode ser o resultado final.

Não posso ser professor universitário, preciso de um mestrado, de mais um título de compatibilidade, sem levar em conta que a sociedade do mercantilismo não quer só uma graduação, ela quer mais, quer mais produção e medalhas honorificas, quer mais objetivo de vida, quer mais desse tal propósito e ganancia, como se isso fosse realmente um combustível que queima sem queimar e na verdade só queima a pouca vontade que resta de mudar.

Ainda há em mim uma vontade de estudar e estudar na bagunça de uma vida que não para pra esperar o tempo passar. O tempo passa do mesmo jeito mas fazer desse tempo uma fotografia prazerosa da olhar, parece que é parte do meu projeto de vida, meu planejamento corpóreo.

Finalizar um curso não é dizer chega aos grandes mestres e sim confirmar a sentença de que “eles tinham razão” e ainda mais, “talvez eles estivessem errados”, mas tecer uma autocrítica sobre os trabalhos e a formação vigente, entre maquetes eletrônicas mentirosas e lapiseiras escorregadias, papéis sem conteúdo e pranchetas ocupadas por mãos-de-obra mecanicistas, não, não me permito a me sub-julgar a uma vida de comodismo sentenciado onde apenas vejo o ensino de minha querida e irônica faculdade ter mais uma estrela nos classificados do ensino.

É por isso que às vezes deixo de trabalhar para falar sobre tropicalismo, fotografia construtivista russa e marcas de cervejas, morros, bicicletas, gibis para juniores, é por isso que esqueço do horário, esqueço de ver o saldo no banco e fico roendo as unhas para pagar as contas duas semanas depois, não podendo dormir sem terminar um plano urbanístico que não sei se será executado ou pior, não será criticado, me martirizando por faltar mais uma sexta-feira nos ensaios eufêmicos, ou nas monitorias esporádicas e não-convencionais.

Gosto dessas narrativas estóicas, quase tortas, como se a produção acadêmica fosse uma brincadeira de bom gosto, como pular corda e empinar pipa, e se neste espaço virtual, onde a partilha é divulgada como interesse comum, reivindico meu direito de dizer que o medo liquido, que a disfunção da cidade contemporânea latino-americana, que o id, o ego e o superego, o flaneurismo corpulento e as gargalhadas desses autores mais velhos já mortos pelo tempo e ressuscitados pelos livros, reverberam em constância, trazendo motivos pertinentes pelos quais não deixo que essa virgula de problemas impostos pelo acaso bloqueie o meu-nosso, pensamento fluir.

Filipe Faria

O que é Arquitetura?

                Esta pergunta talvez seja a primeira que muitos professores usam no início da faculdade de arquitetura e urbanismo, para instigar alunos que mergulham neste vasto universo. As respostas são relacionadas às diferentes tribos, povoados, ou cidades construídas que nos rodeiam. Pequenas ou grandes, rurais ou urbanas, feias ou bonitas, ricas ou pobres, frias ou quentes, imaginárias ou reais, altas ou baixas, concatenadas, à maneira que usamos o mundo, desde moradias em cavernas, desfrutando das estruturas de rochas, criadas pelas forças da natureza, para servirmos e ocuparmos, usufruindo dos proveitos que a natureza pode nos ceder.

Transformamos os materiais naturais em benefícios e qualidades para a existência humana no planeta, convertemos a sílica em transparência, a argila e o calcário em cimento, a argila em tijolo, além disso, extraímos madeiras e pedras que revestem templos e dão formas às obras de artes, sem esquecer-se das cores que tiramos da natureza e aplicamos às pinturas, porém a conquista mais importante tenha sido o domínio do fogo, sem o qual não governaríamos com eficácia os animais, o predador, a caça, a culinária, a retirada de energia dos materiais e a fabricação dos mesmos, pois a maioria deles são fabricados perante o forno aquecido.

Por meio da inteligência e capacidade de observar os fenômenos naturais, criamos o mundo que conhecemos atualmente, temos um controle maior sobre a natureza que não tínhamos há algum tempo atrás. Muitas cidades foram construídas por intermédio das transformações dos elementos naturais, exercida pelos humanos em razão da fundação das metrópoles que vivemos. Por exemplo, o caso do Morro do Castelo no Rio de Janeiro, uma imensa quantidade de matéria convertida em aterro para a Baía de Guanabara, conferindo outro uso para a cidade, outro exemplo? São Paulo retificou e canalizou seus córregos e rios, com o propósito de angariar território e higienizar seus bairros, mais um exemplo, a capital federal Brasília, composta pelo Lago Paranoá, construído com o objetivo de aumentar a umidade na região e gerar energia por meio de represamento de água.

Desta maneira, percebe-se que construímos e vivemos a partir de organismos nativos, encontrado no planeta, reforçando a ideia que não fazemos nada do zero, é comum ouvir a expressão popular “começar do zero” ou “fulano fez do zero este projeto”, um pensamento prematuro e falso, as condições geográficas, geológicas e morfológicas nos mostram as possibilidades de, transformar e criar. Transformar algo a partir daquilo que se encontra na natureza, como a sílica em vidro, e criar qualquer coisa usando materiais disponíveis no planeta já transformado por nós, de modo que o vidro, após ser transformado, seja possível de ser usado em proveito da vida.

Nenhumas das cidades citadas acima foram “feitas do zero”, houve e há paisagem para ser contemplada, vegetação nativa que corresponde á flora e fauna daquele lugar, temperatura que determina todas as características e comportamentos humanos, rios ou córregos que estruturaram a cidade concebida, montanhas que dão relevo ao terreno e criam vales, planaltos e planícies. Mesmo em uma folha em branco, “construir do zero”, ainda seria improvável, pois todas as referências que usaríamos para conceber determinado objeto seriam elementos que já existem em nosso repertório, antes mesmo de desenhar algo já teríamos elementos que dariam origem àquela obra.

Essa breve introdução nos faz refletir na pergunta “O que é Arquitetura?” as respostas são muitas, entretanto, uma possibilidade seria: São transformações e domínios de recursos naturais em benefício da vida, produzindo e criando estruturas a partir da leitura e compreensão do território.

Ouvimos com freqüência duas frases atribuídas aos pensadores Arthur Schopenhauer e Goethe, “Arquitetura é música congelada” e “Arquitetura é música petrificada”. Essas são respostas que alunos de primeiro ano adoram, porém fico me perguntando, alguém já conseguiu congelar ou petrificar uma música? Seríamos capazes de ouvir algo que está congelado? Ora, mesmo se conseguíssemos música congelada ou petrificada, não é possível de ser admirada, ou estudada, não podemos nos emocionar com a música em pausa, com o equilíbrio estático, a música deve estar em equilíbrio e em movimento ao mesmo tempo, assim como o equilíbrio de uma bicicleta, que em movimento, transforma o som em harmonia, em ritmo e para haver ritmo deve haver movimento, e transformação, novamente chegamos ao conceito da natureza.

Outra réplica aplicada à pergunta é: “Arquitetura é construção.”, embora seja verdadeira esta afirmação, é também insuficiente na sua conclusão. Mas construção do quê? Uma música também é uma forma de construção, um ninho de passarinho não passa de uma rústica e bela construção por meio de criação e transformação da natureza, a cidade imaginária também é uma construção no sonho, no desejo, na utopia. Seja dito de passagem, a arquitetura é criada e transformada independente de nós, a todo instante cria, transforma, surge, ergue. Nas tribos, povoados, cidades pequenas ou grandes, rurais ou urbanas, feias ou bonitas, ricas ou pobres, frias ou quentes, imaginárias ou reais, altas ou baixas, as arquiteturas acontecem, sem arquitetos, sem engenheiros, as cidades espalham-se, pontuando o planeta com transformações, entre a natureza já consolidada a razão e o domínio humano.

 

Lucas Lavecchia

Gente chique não peida

                Acordei 06h35min, sexta-feira 28/02, véspera de carnaval, já parecia feriado, poucos carros cortam a Heitor Penteado o movimento no metrô é mais baixo do que o normal aproveito e vou para o escritório lendo um livro do professor Mario Sérgio Cortella.

Sou o primeiro a chegar, ligo as máquinas, respondo alguns e-mails, pego um copo d’água e ali fico trabalhando até as 12h45min, momento em que saímos para almoçar. Fomos a um restaurante na Afonso Brás, uma avenida comercial e com bastante movimento de carros e pessoas, na Vila Nova Conceição, o bairro com o metro quadrado mais caro de São Paulo, em torno de 20 mil reais.

Retornamos e voltamos a trabalhar, havia algumas revisões de projetos que deveríamos entregar até as 18h00min, o dia estava bonito, o sol brilhava com pouca intensidade, deixando o dia com a temperatura amena, por volta das 16h00min, a energia acabou de repente, esperamos uns 20 minutos e ainda sem luz, decidimos tomar um café na confeitaria e conversar um pouco.

Então fomos até lá, estávamos em cinco pessoas, escolhemos a primeira mesa que vimos, sentamos e cada um pediu um café expresso, a padaria estava vazia, apenas uma mulher sozinha, sentada ao lado. Conversamos durante pouco mais de 25 minutos, já estávamos no segundo café e falávamos sobre copa do mundo, corrupção, educação, citávamos nomes de políticos sem nenhum respeito ou precaução, o papo estava bom, falávamos e riamos alto, afinal de contas o dia já tinha acabado.

A mulher sentada ao lado, de pele branca, tão branca, que deixaria com inveja até a branca de neve, aparentemente era muito elegante, degustava sozinha uma Heineken enquanto outra congelava em um baldinho com gelo sobre sua mesa, vestida de preto, com salto, cabelos pretos longos e soltos, porém algo incomodava aquela moça, disfarçadamente olhava para nossa mesa, achei que olhava a televisão que ficava presa a uma parede atrás de nós.

De supetão, a mulher levanta e com tremedeira no rosto e nas mãos, aproxima vagarosamente. Todos olharam! Indagamos em nossos pensamentos, o que ela falaria? Será que estamos falando alto demais? Será que ela é algum parente de político do qual falávamos? O que uma mulher da “classe a” poderia falar para cincos marmanjos? Mal vestidos, alguns com barba para fazer, cabelos ao vento, apenas aguardamos apreensivos o que sairia da boca daquela pessoa.

Após alguns segundos de tensão, a mulher exclama direcionando para todos nós. “Não posso aguentar mais! É um absurdo! Eu estou passando mal! Alguém dessa mesa soltou um peido aqui!” Fiquei parado, parecia que a informação entrava em câmera lenta em meu cérebro, esperava de tudo, exceto sermos acusados de um crime que não cometemos, depois de alguns segundos anestesiados pela acusação de peidar na confeitaria do bairro mais caro de São Paulo, todos nós tivemos a mesma reação, começamos a rir como crianças na frente daquela mulher que parecia louca.

Na tentativa de acabar com nossas risadas irônicas, ela gritava, “eu sou advogada!”. Nesse momento a agressão psíquica no tom de voz era perfeitamente de alguém com o intuito de se posicionar no sentido vertical de mostrar o poder, ou seja, a ideia de estruturar as relações sociais em uma pirâmide. Não apenas o grito para impor o respeito, mas ao dizer que é uma advogada, ela atribui a posição da profissão ao respeito que desejava almejar diante de nós.

A dificuldade da “classe a” em compartilhar o espaço que é de uso coletivo, apareceu quando ela disse para que todos pudessem ouvir “moro aqui ao lado e esse é o bairro mais caro de São Paulo”. Será que devíamos pedir permissão para “entrar naquele bairro” ou “deveríamos pagar pedágio?” isso causa a ideia do medo e repúdio ao outro, diferente daquele núcleo, nesse sentido, aquela senhora não considera o outro como um indivíduo que faz parte do seu próprio grupo.

Qual o problema desse tipo de gente? Qual relação de domínio esta por trás dessa violência? O distúrbio é o desejo da exclusividade do espaço público ou coletivo, fazendo uma analogia, seria como se o espaço daquela padaria fosse extensão do espaço privado daquela mulher. Não é por acaso que praças, parques, ruas, chafarizes, condomínios, etc. estão cercados e controlados perante regras, tirando o caráter público desses equipamentos, rompendo com direito de uso de cidadãos e cidadãs.

As diretrizes impostas por ela na própria casa, portanto no espaço de propriedade privada, são confundidas e destinadas para os espaços públicos, isto é, da mesma forma que há um conjunto de regras, nas relações dos espaços privados, haveria nos espaços públicos, segundo o modo pensante da classe a.

O fato de aquele bairro ser o mais caro da cidade, considerando valor do solo e alto preço pago no comércio, já é o suficiente para mostrar que estas duas condições, resultam nas definições das classes dos moradores da Vila Nova Conceição, que ocupam aquele lugar, separando e colocando cada um em sua região, visto que, esse é o papel da segregação e violência.

Não pretendo falar sobre classes neste texto, sequer almejo em generalizar e responder a “classe a” como aquele que não quer compartilhar o espaço público ou coletivo, porém reflito a respeito das forças políticas de controle e guarda sobre o solo, criando interesse em manter determinada área da cidade destinada à exclusividade e concluir que rico não peida.

 

Lucas Lavecchia

Por que não lemos sobre arquitetura?

“Os edifícios estão em toda parte”, escreveu Alexandra Lange, “grande e pequeno, feio e bonito, ambicioso e mudo. Nós caminhamos entre eles e vivemos dentro deles, mas são em grande parte objetos estáticos em cidades, torres, casas, espaços abertos ou lojas. Não temos controle sobre a criação.”

ariefflever house, new york

Jeremy M. Lange – Lever House, New York

Prédios são discutidos, na verdade os aspectos deles, mas esta discussão está um tanto exclusivo para o campo do contexto econômico. É comum lermos que este ou aquele edifício estourou o orçamento, que o excedente de casas levou à crise imobiliária nos Estados Unidos, ou então que os condomínios quebraram os recordes de imóveis residenciais, etc. Para o leigo, a arquitetura é transmitida como algo que custa muito, ao invés de algo com potencial de melhorar a nossa vida diária.

Entretanto, para o crítico de arquitetura e design, Lange aponta em seu novo livro, “Escrevendo Sobre Arquitetura,” precisamos engajar nossos cidadãos na arquitetura, de maneira que não fiquem passivos ao que vem sendo construído e para isso precisamos de mais críticos de arquitetura. (ver: NIMBY[i]).

Porém, o inverso tem ocorrido frequentemente durante a última década. Pode-se contar o baixo número de críticos de arquitetura em jornais e revistas de grande circulação pelo país, por outro lado, ao mesmo tempo, tem havido uma explosão de designers e arquitetos com opiniões em blogs nos últimos anos, na tentativa de propagar opiniões, com poucas exceções, para um público não crítico.

Jeremy M. Lange - Museu Guggenheim, em Nova York

Jeremy M. Lange – Museu Guggenheim, em Nova York

Quando eu fui ao programa D-Crit na Escola de Artes Visuais no ano passado, muitos de nós concordamos que a parte da mídia carrega uma fração da responsabilidade – é difícil de ser atencioso quando você está escrevendo cinco textos por dia -, mas não há falta de razões para a escassez atual de crítica de arquitetura sagaz (assim como a carência atual de projetos de arquitetura, por exemplo).

Martin Mull ou Steve Martin ou Laurie Anderson foram creditados como criadores desta frase popular, não se sabe ao certo quem disse (confira a discussão da citação aqui). “escrever sobre música é como dançar sobre arquitetura” disse ainda que, para arruinar a analogia, escrever sobre arquitetura é como deturpação da linguagem, e demasiadas vezes a experiência de ler textos arquitetônicos é tão agradável quanto à extração de um dente.

Para refletirmos (com todas as desculpas para o autor, que continuará a ser não identificado)

“ANÁLISE: a fragmentação territorial e social, uma “terra de ninguém” típico do sofrimento do êxodo urbano, a liquidação das pessoas idosas e inativas, a ausência de local público na escala humana, substituído pelo carro. PROBLEMÁTICA: Como atrair uma nova vida para facilitar a mistura social e urbana?”

Não podemos culpar totalmente o autor do texto acima, pois é este o estilo de escrita que é recompensado dentro da academia. Indecifrabilidade significa inteligência superior. (O campo da arquitetura não está sozinho nisso – basta perguntar a esse ex-estudante de graduação, que estremece com frases que ele escreveu sob os feitiços inebriantes de tais teóricos continentais como Barthes, Derrida e Foucault.) Os arquitetos e aqueles que escrevem sobre eles estão fazendo um desserviço ao insistir na impenetrabilidade do discurso.

Por quê? Compare a abordagem do autor acima, com o texto feito por Jane Jacobs, que estava excepcionalmente feliz no uso de seu amor e de seu ambiente construído para fazer o caso preservar e expandir. Ela escreve em “Morte e Vida das Grandes Cidades”:

“O trecho da Rua Hudson, onde eu moro, é todo dia cenário de um complexo balé de calçada. Eu mesmo entro em cena pouco depois das oito, quando coloco do lado de fora, a lata de lixo, sem dúvida, uma tarefa prosaica, mas gosto do meu papel, do barulhinho metálico que produzo, na hora em que passam as levas de colegiais pelo meio do palco deixando cair papel de bala. (Como eles conseguem comer tanta bala logo de manhazinha?)… Quando volto para casa depois do trabalho, o balé esta chegando ao auge. Chegou a hora dos patins e das pernas de pau e dos triciclos, das brincadeiras ao pé da escada com tampinhas de garrafas e caubóis de plástico; é hora dos pacotes e dos embrulhos, do ziguezaguear da farmácia para a banca de frutas e para o açougue…”

O publicitário David Ogilvy escreveu: “Nunca use palavras como jargão, reconceituar, desmassificação. São características de um desinformado pretensioso.” É reconhecidamente injusto comparar esses dois trechos de escrita, mas vou fazê-lo para mostrar o ponto que muitas vezes é esquecido pela crítica. Deve-se elucidar (não ofuscar), caso tenha alguma esperança de causar algum impacto para o leitor. No fim das contas, quem iria angariar apoio em uma reunião de planejamento da cidade? Ambos os autores estão falando a mesma coisa, mas é evidente quem esta mais íntimo do leitor. O primeiro está preocupado com a “situação local”, enquanto que o segundo pretende falar diretamente com o aquele que vai ler o texto.

Jeremy M. Lange - Noguchi Cube, New York

Jeremy M. Lange – Noguchi Cube, New York

Em “Escrevendo Sobre Arquitetura,” Lange reconhece os riscos inerentes ao ato de descrever o lugar. Enquanto ela claramente mostra aos escritores, leitores e aos seus alunos a importância da clareza na crítica, Lange vai muito mais longe, argumentando que a crítica de arquitetura é um investimento intelectual e emocional no mundo que nos rodeia. Lange celebra os críticos icônicos que dão vida aos espaços, que descrevem – nos passa a vontade de amar ou odiar esses espaços. Eles percebem as coisas. Eles enriquecem a história, no contexto e na origem. Eles levam o seu tempo. Eles fazem o leitor experimentar os espaços descritos.

Veja, por exemplo, o ex-crítico de arquitetura, o falecido Herbert Muschamp, escrevendo sobre Frank Gehry Guggenheim Bilbao, em 1997:

“Se você quer olhar para o coração da arte americana de hoje, você vai precisar de um passaporte. Você vai ter que arrumar suas malas, deixe o EUA e viaje para Bilbao, uma pequena cidade rústica, no canto nordeste da Espanha. A viagem não é conveniente, e você não deve esperar para se divertir muito por lá… [mas] quem visita Bilbao, no entanto, pode chegar longe de pensar que a arte não é totalmente distante de questões de vida e morte.”

Jeremy M. Lange - Whitney Museum, em Nova York

Jeremy M. Lange – Whitney Museum, em Nova York

Michael Sorkin mostra, em 1985 a revisão do Museu Whitney, como um edifício que pode ser descrito vividamente – sem ofuscação necessária, não há necessidade de esconder sua satisfação, a descrição é clara e o entusiasmo desenfreado:

“O Breuer Whitney é uma obra-prima… Breuer divide sua elevação com a Avenida Madison em três partes: uma fina parede de concreto intrometeu-se contra os seus vizinhos: uma banda estreita em ziguezague contendo, entre outras coisas, a grande escada, e o principal, abrigando as galerias, a que estão fixadas as “janelas sobrancelhas”, símbolos do museu.”

Lange inclui muito dos escritores em seu livro, perspectivas oferecidas que não só ajudaram a moldar as conversas locais e nacionais em torno do projeto e do ambiente construído, mas os resultados afetados também. É mais raro, nos dias de hoje, que a crítica tenha esse efeito, tão escassa que tais textos apareçam na primeira página. Há um caleidoscópio impressionante da boa escrita online sobre os edifícios – embora também haja um número infinito de pontos de venda para a divulgação da má escrita.

Arquitetura escreve Lange, “é a arte que você não pode evitar” e carrega um fardo que as outras artes não carregam – deve-se conciliar estética e idéias com a funcionalidade do usuário. Uma pintura ou um romance só precisa agradar ou provocar o seu público, sem que em seguida, exijam contratempos, mínimos de questões técnicas ou de certificações. Poucos de nós são afetados – ou até mesmo em contato regular com as outras artes – enquanto que todos nós estamos intimamente ligados ao ambiente construído.

Jeremy M. Lange - Central Park, Nova Iorque

Jeremy M. Lange – Central Park, Nova Iorque

Ousado, opinativo, palavras sensatas sobre as coisas que nos rodeiam podem resultar em melhores edifícios (assim como cidades, subúrbios, infra-estrutura e parques). Como Ada Louise Huxtable, uns dos heróis de Lange, coloca em um de seus ensaios perfeitamente intitulado sobre a importância do planejamento bem sucedido em Nova Iorque “Às vezes fazemos direito”, “Apenas uma abertura em um lugar errado, ou um espaço ‘bônus’ inserido de acordo com o zoneamento atual é o suficiente para estragar tudo. “Aos críticos de arquitetura, Lange conclui dizendo para não agir apenas como escritores, mas como defensores, e, ao fazê-lo, “pode-se expressar melhor.”

 

Allison Arieff

Texto original: http://opinionator.blogs.nytimes.com/2012/03/02/why-dont-we-read-about-architecture/?_php=true&_type=blogs&_r=0

Tradução: Lucas Lavecchia


[i] NIMBY é um acrônimo inglês (de Not In My Back Yard, que significa ao pé da letra “não no meu quintal”) é uma expressão usada por urbanistas e profissionais norte-americanos, para descrever a oposição a certos projetos polêmicos ou que possam ser prejudiciais ao entorno (como construção ou expansão de estruturas ou zonas tais como aeroportos, rodovias, um grande centro comercial ou um aterro sanitário).