O Flaneur e o eixo da Avenida Roque Petroni Junior

Toneladas de aço em atrito com os trilhos me levavam até faculdade durante a semana, o trem da CPTM, linha 9 esmeralda é o meio de transporte usados por muitos alunos. Margeando o Rio Pinheiros, sentia aquele mau cheiro das águas poluídas do rio, as pessoas nas estações ficam espremidas esperando o próximo trem, sentido Grajaú, enquanto uma família de capivaras nadam nas águas do Pinheiros, em busca de comida ou por divertimento, parado na estação e observando a água poluída, meu olhar é interrompido por velozes ciclistas que passam pela ciclovia, vestidos com roupas e capacetes esportivos, chego a pensar na semelhança com o próprio trem, um trem de bicicletas, uma atrás da outra, a pressa não é para chegar ao destino, alias, não é pressa, é velocidade. Vejo tudo através da porta do trem, enquanto aguardo o embarque nas estações, o vagão enche um pouco mais, o sinal da porta soa, e deixa alguns passageiros para o próximo trem, alguns até tentam correr para embarcar, mas desistem quando chegam próximo a faixa amarela, aos poucos ganhamos velocidade e as pessoas ainda se acomodam no vagão, mais uma estação a frente, os apressados já estão na porta para sair e outros já se aglomeram na plataforma para entrar, o trem pára na estação pinheiros, que leva o mesmo nome do rio e do bairro, muitos saem para baldear com a linha amarela do metrô, entre trancos e ombradas, saem e entram mais pessoas, alguns olharam para trás, reprovando o comportamentos daqueles que não esperam o desembarque e já vão entrando, outros sobem as escadas correndo, parece uma largada de maratona, os senhores e senhoras, mulheres com criança no colo são os últimos a entrar, novamente um novo apito e as portas se fecham. Passamos por outras estações, e a dinâmica se repete entre embarques e desembarques, uma despedida, um beijo, um telefonema, uma mensagem, pelo vidro os mais apaixonados acenam com as mãos e mandam beijos, os curiosos apenas olham, enquanto o trem ganha velocidade vou observando a estação, as pessoas lêem, falam ao celular, conversam entre amigos, andam em linhas retas, para a direita, esquerda, para cima e para baixo, por meio de escadas, elevadores, passarelas, sentam em bancos, aguardam para serem transportados, olham o display, alguns laçam um olhar em busca do trem no horizonte e esperam.

A estação Morumbi é a próxima, me acomodo para descer, neste momento já não estou mais na porta, mas no meio do vagão, olho para saber se alguém mais vai descer, poucos se mexem, continuam estáticos, lendo, ouvindo música, enviando torpedos, conversando entre amigos, tento fazer uma movimentação para chegar até a porta, mas em vão, decido então ficar no trem e ir mais adiante até a estação Santo Amaro, que se conecta com a linha 5 lilás, o trem faz novamente o sinal de fechamento da porta e eu fico dentro do vagão que segue para a estação Granja Julieta, novamente ninguém desce, apenas embarcam mais pessoas, rumo a estação Santo Amaro, as pessoas já guardam seus livros, alguns colocam os celulares nos bolsos, já preparam despedidas e as mãos já começam a apoiar-se nas barras cromadas no teto do trem, nesse movimento, pego carona para desembarcar, pois ainda vou pegar o trem para voltar duas estações, ao desacelerar todos já estão acomodados, apenas aguardam o a aberturas das portas, e descem, quase todos os passageiros descem de uma só vez, todas as portas se abriram, e uma nova corrida por escadas inicia-se, fico parado no meio da estação, alguns desviam de mim, apressados para baldear com a linha 5 do metro, após três minutos o tumulto de gente acaba e fico a espera do trem de volta para a estação Morumbi.

Já consigo ver o trem apontando ao fundo da paisagem da marginal pinheiros, aguardo, embarco e sigo em direção ao meu destino, desta vez poucas pessoas estão no trem. Chego a estação que vou desembarcar, desço na plataforma e olho novamente para o trem sentido Grajaú, ainda permanece lotado, e mais gente deseja embarcar, subo as escadas rolantes no lado esquerdo, enquanto o direito fica livre para aqueles com mais aptidão física, aproveito para observar a estrutura metálica e os encontros e conexões entre pilares, vigas, contraventamentos, telhas, calhas. Passo pelo banheiro da estação, um funcionário limpa exaustivamente o piso, a bancada e as paredes, nem parece que havia pessoas passando por ali, todos os rastros foram apagados pelo esfregão do faxineiro, lavo as mãos e sigo cruzando pela passarela, enquanto mais pessoas seguem no sentido contrário ao meu, desço as escadas e chego até as catracas para então sair do sistema de transportes da CPTM, cruzo um portão metálico e chego até uma calçada feita de pedras portuguesas e alguns pisos táteis colocados de qualquer maneira, com uma árvore enorme em um canteiro junto à estação. O cheiro muda, agora sinto aquele cheiro bom da pipoca salgada, do cachorro quente, pois alguns comerciantes aproveitam o aglomerado de pessoas e montam seus pequenos comércios ali mesmo, de maneira improvisada, alguns com carrinho de pipoca, com carrinhos de cachorro quente, outros com CDs e DVDs, capinhas para celulares, me sinto em uma mini feira, contorno a grande árvore e sigo pela calçada que já muda o piso, agora o piso é intertravado, uns bloquetes de concreto, atravessando este piso, um corredor composto por vegetação e gradil do lado da Rua João Dória e vegetação e edifício do outro lado, este é o caminho por onde eu sigo com outras pessoas e pessoas que vem em direção contrária a minha, rumo a estação de trem, os passos apressados são seguidos pelos sons das placas de pisos elevados do complexo de escritórios Rochaverá, estes barulhos são das placas que não estão assentadas de maneira fixa, e desperta um som curioso, apenas nesse trecho, que vai da estação até a Avenida Chucri Zaidan, ao chegar nesta Avenida, um semáforo interrompe o fluxo dos pedestres, todos param e os carros avançam, alguns estão parados em uma ilha central, que não comporta a quantidade de pessoas que passam por ali, alguns estão no próprio asfalto, no cantinho apertado, para esquivar-se dos automóveis, após a espera, o sinal abre para os pedestres, a correria em direção ao outro lado da avenida começa, a faixa de pedestres não possui tamanho suficiente para acomodar todos que passam por ali, a luz verde que dá vez ao pedestre apaga e o vermelho piscante começa, gerando ainda mais correria, alguns motoqueiros já aquecem os aceleradores, e vão aos pouquinhos ganhando a frente, os motoristas já pisam nos aceleradores, um barulho é semelhante a de uma largada de corrida de carros, os motoqueiros mais apressados já cruzam no vermelho piscante, enquanto há pedestres ainda atravessando, quando o vermelho fica acesso de maneira estática e o verde acende para os automóveis, o fluxo de pedestres é interrompido novamente e forma mais aglomeração na ilha central.

Consigo atravessar as duas pistas com passos longos, vejo mais um carrinho de pipoca e milho e alcanço a calçada do shopping Morumbi que leva o mesmo nome da estação e o mesmo nome da faculdade. Caminho por uma calçada larga feita de pedra portuguesa com rampas e escadas com acesso ao shopping de revestimento nobre e palmeiras que marcam sua fachada. Subo pelas largas escadas e continuo a contornar o empreendimento, atravesso em frente ao espaço destinado a carga e descarga, encontro um enorme pátio para circulação de veículos, melhor dizendo, um pátio para os clientes acessarem ao estacionamento no topo do edifício, vejo tudo aquilo como uma grande área e sem sinalização fico sem saber por onde vem os automóveis dos clientes. A fachada deste lado da Avenida Roque Petroni Junior é composta por granitos, vidros, formas piramidais e arcos, dão um toque pós moderno no entorno, rodeado por novas construções, que seguem por esta linguagem de arquitetura. Ao atravessar todo o pátio de acesso ao estacionamento encaro outro semáforo, desta vez, pouco movimentado, as pessoas cruzam sem se importar se está na vez ou não, e eu vou também. Sigo para outra calçada que também é feita com pedras portuguesas e tem o mesmo desenho da calçada do shopping, composta por uma escadaria de 14 degraus que nos leva até ao prédio do Morumbi Office Tower, outro prédio de linguagem pós moderna, com fachada composta por um pórtico e um arco, revestido por espelhos, porém mantém uma relação interessante com a calçada, não possui muros, usa apenas o desnível como “divisa”.

Na medida em que caminho para dentro do bairro, o movimento de pessoas andando nas calçadas é baixo, a Avenida Roque Petroni Junior é intensa no que se refere ao uso dos carros, e também tem um corredor de ônibus que liga esta região a cidade de Diadema. Nesta Avenida havia duas churrascarias, uma foi comprada, e hoje foi feito um edifício em seu terreno, a outra esta desativada e não sei no que pode ser transformado, neste trecho do percurso as calçadas já são feitas de concreto com marcas de juntas feitas por ripas de madeiras. Chego até um muro pré-moldado de concreto, pintado com desenhos de jogadores de futebol, uma placa grande com um desenho, leva a assinatura do Rivelino, outra placa no mesmo muro dizia ser uma escola de futebol, para aqueles desavisados que não entendem de futebol, ao olhar para o alto, avista-se os holofotes e grades das quadras, alguns gritos de comemoração ecoavam por de trás dos muros, e eu seguia a minha caminhada em calçadas estreitas com pouquíssima vegetação e o pouco que tinha estava plantado no meio da calçada, criando barreiras para que eu esquivasse por todas elas. É tudo muito cinza, a calçada parece que faz parte do asfalto, apenas um mínimo desnível faz a diferença, os carros passam a toda, bem próximo ao pedestre, poucas faixas para travessia estão ao dispor das pessoas, os semáforos são muito rápidos e mesmo que estejam fechados é sempre bom olhar antes de atravessar, atravesso a grande pista da Avenida Roque Petroni Júnior e chego até a faculdade, que está recuada da calçada, o acesso é por meio de rampas e escadas, e o edifício está em um nível mais alto que a calçada por onde andei, outros alunos fizeram o mesmo caminho que eu, conversavam e andavam apressadamente, como se quisessem sair da beira da avenida. Quando chego à faculdade, uma grande aglomeração de pessoas está neste patamar mais alto, sentadas em bancos de concreto sem encosto, os alunos conversam, fumam, enviam torpedos, encontram-se, esperam seus parentes buscá-los, sentados nas escadas dividem o espaço com o estacionamento da própria faculdade para professores e alunos. Entro para mais uma aula, quando saio já esta de noite.

O movimento na Avenida Roque Petroni Junior esta baixo, alguns carros passam pela grande pista, alguns alunos seguem o mesmo caminho da estação Morumbi, enquanto outros ficam no canteiro central da Avenida aguardando o ônibus com destino a cidade de Diadema. Em frente à faculdade o bar esta lotado, a música é alta, o ambiente é frequentado por jovens estudantes, que formam uma massa de gente na estreita calçada, bem próximo à via, o cheiro de cigarro atravessa a rua junto com o som alto das caixas, enfim um lugar para se divertir, um pouco de vida noturna em um lugar que só circula-se, porém este bar não resistiu aos poderes do mercado e foi comprado e demolido, ainda aguardo para saber no que vão transformar aquele humilde e divertido espaço.

Sigo pela grande via em direção a estação de trem, por meio de calçadas estreitas e com vegetação no meio do percurso, vou esquivando-me dos galhos mais baixos, abaixo a cabeça e sigo andando, entre buracos, poças de águas e o muro grafitado continuo insistindo em andar pela calçada, até chegar na esquina da Avenida Roque Petroni com a Rua Jaceru que antes havia uma churrascaria, hoje há um edifício em construção, as calçadas com buracos são o obstáculos da vez, o muro alto dá a sensação de corredor, sem nenhuma proteção ao pedestre, a próxima esquina é a Rua Bacaetava, reconhecida por ter um posto de gasolina e um ponto de ônibus no canteiro central da Roque Petroni, esta esquina mantém um movimento dos que abastecem seus carros e motos, o piso tradicional dos postos de combustíveis não tem buracos, porém a qualquer momento um carro cruza na sua frente para acessar o posto, atravessando este, encontra-se uma rede de hotéis, três hotéis estão implantados ali, e o grande movimento dos taxis e carros entrando e saindo é um obstáculo aos pedestres que ficam a mercê deste transito sobre a calçada, passando estes hotéis, uma grande árvore quebra a beira da calçada, próximo ao semáforo que utilizo para atravessar a avenida, que poderia se chamar, Avenida do Cordeiro, pois ainda podemos ouvir as águas deste córrego correndo pelos bueiros da avenida. Quando cruzo as faixas da avenida, novamente encontro o shopping Morumbi, neste horário é possível ver muitas crianças e adolescentes andando por ali, os movimentos dos táxis são intensos e alguns funcionários e pessoas que trabalham na região passam por ali em direção ao trem da CPTM, de volta a Avenida Chucri Zaidan os vendedores estão lá, vendendo milho, pipoca, DVDs, CDs, capinhas de celulares, entre outras mercadorias, as placas das calçadas do complexo de escritórios Rochaverá também estão fazendo o mesmo barulho, e as pessoas estão apressadas, o trem vem soltando faíscas dos trilhos, enquanto amanhã não chega.

 

Lucas Lavecchia

Entre faixas e corredores

A política do prefeito Haddad tem causado desconforto entre aqueles que, de maneira viciosa, são dependentes dos automóveis particulares, contagiados pelo individualismo e no consumo dos possantes poluidores, incentivados por falsas promoções e sensações de bem estar que a indústria automotiva e o governo insistem em nos iludir com ações publicitárias apelantes, para abarrotar as vias de nossas cidades com suas latas que pesam mais de uma tonelada.

Ao assumir o cargo de prefeito da cidade de São Paulo, uma modesta e necessária ação encheu de esperança os usuários de ônibus da metrópole. São as faixas e corredores de ônibus implantados e prometidos em sua gestão, 150 quilômetros de vias exclusivas para o transporte coletivo, até 2016 quando encerra seu mandato. A prioridade do transporte coletivo faz parte da política de mobilidade urbana democrática a fim de facilitar a integração entre moradia, trabalho, escola, lazer, cultura, em uma cidade setorizada e segregada por regiões administrativas.

A medida simples e menos onerosa dos corredores e faixas restritas ao transporte coletivo, requer maior ênfase no projeto de urbanismo, nos corredores e faixas, sobretudo no seu entorno, considerando paradas articuladas com a cidade e o ônibus, calçadas, acessibilidade, pagamento adiantado, acima de tudo e não menos complexo, a fluidez dos ônibus em seus terminais, pois como se sabe a velocidade dos corredores aumentou satisfatoriamente, conforme matéria do Estadão[i], no entanto os ônibus não saem dos terminais com eficiência para atender a demanda de passageiros.

Embora atrasado, o plano de corredores e faixas de ônibus é de grande importância para a maior cidade do hemisfério sul, com 11,8 milhões de habitantes, segundo estimativa do IBGE para 2013[ii], e com 7,0 milhões de veículos em 2013 conforme o DENATRAN[iii], somando motos, carros, comerciais leves, caminhões, micro ônibus, e ônibus, o investimento em transporte público é essencial para a mobilidade urbana, assim como o direito constitucional de ir e vir.

A iniciativa de implantação dos corredores e faixas pelo prefeito Fernando Haddad iniciou em 2013 com 319 quilômetros, atualmente o total é de 424 quilômetros. Diferente dos gestores anteriores, o prefeito pretende intensificar o uso do transporte coletivo e enfraquecer o uso do carro particular, a pertinência desta providência justifica-se pelo caótico transito na cidade. Em média, o paulistano gasta (por trecho) no deslocamento casa e trabalho, 47 minutos para quem possui carro ou moto, e 57 minutos para quem usa o transporte, outros exemplos para o fomento das faixas e corredores esta ligada à diminuição do tempo de percurso, o ganho de velocidade do ônibus, o incentivo ao uso do transporte coletivo, a redução dos poluentes liberados pelos carros.

O importante exemplo curitibano contemporâneo a destacar, foi a atuação do prefeito Jaime Lerner, uns dos fundadores, do IPPUC (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba), com realce no transporte público, geração de crescimento urbano controlado, áreas verdes e reabilitação do centro histórico. Com base no plano diretor dirigido por Jorge Wilheim na década de 70, inicialmente criaram-se eixos norte e sul conectados ao centro, integrados por terminais, o sistema foi ampliado em 1977, agrupando o eixo Boqueirão, e em 1979 as linhas interbairros foram instaladas, um ano depois a RIT (Rede Integrada de Transporte), definiu o eixo leste e oeste e aderiu à tarifa única, com percursos mais curtos subsidiando os mais longos, outra medida adotada, refere-se à remuneração, que passa a ser por quilômetro e não mais por passageiros. No início da década de 90 a RIT experimenta os ligeirinhos (linhas diretas) para suprir demandas pontuais das estações em tubo, o pagamento antecipado da tarifa e os ônibus desenhados para este fim, arrematam o sucesso deste projeto de transporte coletivo que deve ser exemplo e prioridade para São Paulo.

Devido à setorização equivocada dos serviços, comércios, residências, lazer, indústrias, escolas, centro culturais, a desequilibrada distribuição de renda e o valor do solo, os deslocamentos em grande escala são inevitáveis, forçando um espalhamento de pessoas com o intuito de ir e vir, principalmente em horários de pico, situação que faz a cidade entrar em colapso diariamente, por não tratar o transporte coletivo de maneira prioritária nas décadas anteriores. Hoje o legado desta negligência urbanística é o frágil ordenamento e a falta de planejamento territorial. Isto posto, o prefeito Haddad enfrenta um enorme desafio de propor intervenções urbanas que minimizem, ainda que timidamente, os efeitos colaterais dos passageiros de ônibus. Os corredores e faixas de ônibus são maneiras menos custosas e mais rápidas para uma solução que apoio com ressalvas descritas no corpo deste texto.

 

 

Lucas Lavecchia

Notas e referências

 

[i] http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,viagem-de-onibus-em-faixa-exclusiva-e-meia-hora-mais-rapida-que-de-carro,1062740

 

[ii] http://cidades.ibge.gov.br/xtras/perfil.php?lang=&codmun=355030

 

[iii] http://www.denatran.gov.br/frota2013.htm

http://www.ippuc.org.br/mostrarpagina.php?pagina=32&%20idioma=1

Se essa rua fosse nossa

Oficina de desenho coletivo

São Paulo, 2014

Com o objetivo de compreender melhor a conjuntura social e política para a Reforma Urbana no cenário atual, neste ano a FeNEA – Federação Nacional de Estudantes de Arquitetura e Urbanismo organiza seu I Ciclo Nacional de Debates sobre Reforma Urbana, promovendo espaços de discussão e reflexão crítica sobre a questão urbana, com a colaboração de estudantes de arquitetura e urbanismo em diferentes cidades e regiões do país.

Dentro do Ciclo Nacional, a Regional São Paulo propõe em sua primeira atividade um momento de debate e reflexão com Paulo Von Poser e Lucas Lavecchia, seguido da realização de um desenho coletivo.

Como temática desta primeira atividade e do Erea São Carlos que acontecerá no segundo semestre de 2014, “E se essa rua fosse nossa?”, vem para questionar a percepção e o entendimento da posição que ocupamos.

A organização do evento, de responsabilidade do FeNEA, contou com a participação dos estudantes de diversas escolas de arquitetura: Lucas Lavecchia (convidado), André Azevedo, Lucas Barros, Tamires Oliveira, Julianna Pirani, Paulo Meira, Victor Melo, Stéphanie Dragan, Rafael Mlatsoma, Gabriela Almeida, Franklin Rezende e Gabrielle de Faria, das universidades Anhembi Morumbi, Mackenzie, FAU Santos e UNASP. A princípio teríamos também a participação do arquiteto Paulo Von Poser que infelizmente não pôde comparecer.

INTRODUÇÃO

Figura 1-Abertura da oficina de desenho coletivo-Tamires e Victor

O encontro aconteceu na parte superior do minhocão e em frente a praça Marechal Deodoro, e abordou assuntos de relevância social, política e urbana, foi conduzido pelo desenho coletivo dos participantes, colocando em questão, as péssimas condições do espaço público assim como a degradação gradual no entorno do minhocão, no período posterior à implantação do viaduto, bem como a escassez de espaços livres destinados a cultura, lazer, e urgência habitacional, pois indicadores apontam uma baixa dos preços dos imóveis nas bordas do elevado, assim como falta de interesse do mercado imobiliário em atuar nessas áreas, essa queda de valores monetários incentivam aqueles que não podem pagar por preços abusivos a ocupar os imóveis[i] ao redor, visto que o mercado imobiliário induz o afastamento de moradores de baixo poder aquisitivo para áreas mais distantes da capital com seus instrumentos de mercadológicos, essas são premissas da valorização do solo, mobilidade urbana e diferentes usos para a parte inferior do elevado assim como a superior, legislação urbana, entre outros tópicos de relevância sócio-urbana.

Dentre as mudanças desejadas, foi percebido que existe a necessidade de manter no âmbito da política habitacional, a ferramenta de proteção aos moradores que ali residem e aos que poderiam residir futuramente.

A atividade iniciou com ênfase no tema proposto, o elevado, este diálogo ganha força e torna-se mais intenso nos últimos anos, diante disso, fica a reflexão sobre os novos usos das estruturas elevadas, como foi o caso de Nova Iorque, com o high line park, construído nos anos 1930. Sabemos que são de diferentes dinâmicas, pois no caso americano tratava-se de uma linha de trem desativada, no entanto contou com a luta e perseverança contra as barreiras burocráticas públicas, os interesses do mercado imobiliário, a oposição do então prefeito Rudolph Giuliani e a descrença dos vizinhos. Enfrentamentos semelhantes para os paulistanos, no entanto a questão de extrema relevância é o intenso trafego de 40 mil carros diariamente no sentido leste, oeste e centro, que curiosamente não são usados por transporte coletivo, como ônibus por exemplo. Existe na Filadélfia a mesma discussão, com Reading Viaduct construído em 1890 e o exemplo nova-iorquino é a mais expressiva referência para sua futura transformação. O IAB/MG lançou recentemente um edital para o concurso de arquitetura onde a questão é dar novos usos para a parte inferior das vias elevadas de Belo Horizonte, outro estado que focou na intervenção dessas estruturas foi o Rio de Janeiro que demoliu a perimetral, importante ligação do centro com a zona sul, uma tentativa de justificar a revitalização do porto, cujo projeto chama-se Porto Maravilha. Isto mostra relevância do tema e a importância de tratar este assunto como forma de planejamento urbano.

A explanação percorre os caminhos do processo histórico e a transformação urbana e social desenrolada através do tempo, desde a construção das avenidas até o inicio da década de 70, quando foi construído o elevado. As Avenidas São João e Consolação marcavam a saída da cidade de São Paulo em direção ao interior, a primeira levava até a região de Jundiaí, enquanto a segunda direcionava a Sorocaba, duas igrejas marcam esta partida, a igreja de Santa Cecília junto com a Avenida São João e a Igreja da Consolação situada na avenida de mesmo nome. Anexo às igrejas estão duas praças, a Praça de Santa Cecília, uma grande área verde, projetada pela EMURB em 1983 e inaugurada junto com a estação de metrô, no primeiro momento sem grades, no entanto não demorou muito para que o fechamento da área fosse executado pelo órgão que administrava o espaço, neste caso a Companhia do Metropolitano de São Paulo, pois o medo e a situação social dos moradores de ruas foram o motivo para tal decisão precoce e absurdamente elitista. A outra praça é a Roosevelt, com linhas modernas e agrupada ao sistema viário, destaca-se pelos ideais das cidades americanas.

 

A grande intervenção urbana do pensamento rodoviarista é o Elevado Costa e Silva, executado pelo então prefeito Paulo Maluf que desengavetou o projeto que Faria Lima deixara guardado desde 1968. Paulo Maluf chegou à prefeitura com a indicação do segundo presidente do regime militar Costa e Silva. O discurso usado para viabilizar a construção do elevado é embasado no privilégio do automóvel sobre a cidade e na prioridade de circulação de mercadorias, deste modo o prefeito constrói o elevado que ligam as zonas oeste, leste e centro, beneficiando os acessos a essas áreas e também a fábrica Eucatex situada na zona oeste, propriedade de sua família. Como retribuição ao Presidente do regime militar pela recomendação ao cargo de prefeito de São Paulo seguido de vitória, Maluf batiza a obra de Elevado Presidente Costa e Silva.

 

Com 2,8 quilômetros de extensão, esta via flutua sobre a Rua Amaral Gurgel e Avenida São João, composta por inúmeros prédios art déco e neoclássicos que ainda resistem aos efeitos devastadores da falta de manutenção e investimentos ao patrimônio histórico. Em sua totalidade encontram-se duas estações de metrô, Santa Cecília e Marechal Deodoro respectivamente, ambas ligadas ao sistema da linha vermelha e o Terminal Amaral Gurgel de ônibus, que para enfatizar, fica sob o elevado, pois o absurdo e descaso são tantos que a estrutura flutuante é apenas para privilégio dos carros, enquanto que os ônibus não circulam na parte superior, deixando claro para nós que a construção da cidade atende apenas os interesses de mercado, neste caso o mercado de automóveis.

 

A elaboração do desenho coletivo iniciou após esta conversa, seguida por um conjunto de vontades no processo de transformação do minhocão. Esses desejos, no primeiro momento enfrentam as questões elaboradas por nós. Como criar espaços públicos de qualidade em áreas de grande degradação urbana? Para responder esta pergunta, discutimos a possibilidade de atribuir novos usos na parte inferior do minhocão, pois a importância do térreo é tão relevante quanto o nível superior, sendo assim, a proposta é incentivar a criação de feiras livres nos canteiros centrais, de modo que fiquem funcionando diariamente, sobretudo à noite, para que haja circulação e permanência de pessoas, moradores ou frequentadores do lugar. Nos edifícios que margeiam o minhocão o plano é manter o piso térreo com pequenos comércios, como bares, lojas, barbearia, papelaria, entre outros tipos variados de mercados, os demais pisos superiores estariam destinados a residências populares, implantando acessos diretos e livres no patamar do minhocão, desta forma, é possível acessar as residências diretamente da parte superior do minhocão.

DESENHO COLETIVO-5

Figura 2-Desenho coletivo-Lucas

Para a parte superior da via, fica destinado um parque em toda sua extensão, concebido como uma praça suspensa, com vegetação, calçadas, bancos, bebedouros, hortas, espaço para caminhar, correr, andar de skate, entre outras atividades de lazer, porém cabe salientar que, reservamos duas faixas centrais para o transporte coletivo, pois concebemos uma cidade integrada ao sistema de transporte de alta capacidade e a moradia, para tais efeitos transformadores, foi criado a Zeis do Minhocão, na qual tem o caráter de conter a especulação imobiliária em caso de valorização do solo, na possível intervenção, mantendo por meio de leis a garantia dos moradores que já possuem ou moram de aluguel, bem como aos cidadãos que reivindicam moradias, devendo ter prioridade no aluguel social e/ou na compra com valores acessíveis e compatíveis ao salário dos interessados.

O minhocão, nome dado pelos moradores, por seu desenho tortuoso parecido com uma minhoca, é uma grande resposta do autoritarismo. Para Arendt, o autoritarismo regulada pela força, pelo abuso de poder, desrespeito, intolerância, discriminação, por meio de um regime militar ditatorial, que subtrai liberdades, da esmagadora maioria, entre os valores dos direitos humanos e o desrespeito de tais valores no modo de viver, no caso brasileiro que foi de 1964-1985, assim, de maneira agressiva implantou e batizou o elevado com o nome do segundo Presidente do regime militar, Costa e Silva. Desta forma, considero a construção do elevado, o modo autoritário de urbanismo ligado aos interesses de favores aos grupos políticos. O povo por sua vez, apropriou do lugar a sua maneira, adaptando-se como pôde, revelando questões sobre a beleza, onde de imediato vemos o desprezível, praticando exercícios físicos, onde havia totalitarismo, abrindo as janelas ao invés de fecha-las, ou seja, aquelas e aqueles cidadãos batizaram esta estrutura com o nome e uso que eles acreditam ser melhor para suas vidas, pelo menos aos domingos, quando as pessoas enfim ocupam o lugar, demonstrando a derrubada simbólica da agressão ideológica que a ditadura nos impôs também na esfera do urbanismo.

No seu conjunto, as propostas de intervenções resultantes da oficina redefinem a importância de uma resposta justa e sincera às demandas por espaços públicos e de moradia popular que, privilegiam os pedestres residentes e os que circulam pelo entorno do minhocão. Apontando de maneira clara a maneira de olhar e compreender o território, considerando as questões da geografia urbana, os elementos de transportes existentes, as relações sociais entre o morador e o espaço, as questões históricas que direcionaram as transformações ocorridas e as que estão por vir no futuro. A oportunidade de professores, arquitetos e alunos discutirem problemas e soluções para questões urbanas de extrema relevância social foi concebido pelo encontro em pleno centro da maior metrópole do Brasil em uma tarde fria de domingo, com muita vontade política, por meio do ciclo nacional de debates “E se essa rua fosse nossa?”.

DESENHO-COLETIVO-MINHOCÃO (1)

Figura 3-Síntese do desenho coletivo

Texto: Lucas Lavecchia e Tamires Oliveira

[i] Queda de -1,9%, -1,4%, -0,8% nos meses de fevereiro, março e abril de 2014 respectivamente, no bairro da Vila Buarque. – Índice FIPEZAP.

Bibliografia

ALEX, S. Projeto da praça. 1ºed. São Paulo: Senac, 2008, p.292.

ARENDT, H. A condição humana. 10ºed. Rio de Janeiro. São Paulo: Forense Universitária, 2008.

DAVID, J; HAMMOND, R. High line a história do parque suspenso de nova york. 1ºed. São Paulo: BEI, 2011, p.327.

GORSKI, M. Funciona, mas não é bom. Arquiteturismo, São Paulo, 044.06, Vitruvius, out. 2010. Disponível em: http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/04.044/3636. Acesso em: 17/05/2014.

LEVY, W. Esfera pública, interesse público e o parque minhocão.  Arquiteturismo, São Paulo, 165.06, Vitruvius, fev. 2014. Disponível em: http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/14.165/5086. Acesso em: 17/05/2014.

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Acesso em: 17/05/2014.

Reading Viaduct, 25 maio, 2014. Disponível em: < http://readingviaduct.org/> Acesso em 28 maio 2014.

VARELLA, J. Demolição do Minhocão pode levar caos ao trânsito, alertam especialistas. São Paulo,NotíciasR7, mai. 2010. Disponível em: <http://noticias.r7.com/sao-paulo/noticias/demolicao-do-minhocao-vai-complicar-transito-da-regiao-alertam-especialistas-20100507.html>. Acesso em: 31/05/2014.

 

O urbanocrata

Um intelectual que escolhe seus amigos.

Ele esta na moda, revesti-se com os melhores materiais, preferencialmente os mais chiques, importados e modernos, odeiam pastilhas, são cafonas. Ao gosto da high society, tem o andar sempre imponente, e com olhar superior, destaca-se na multidão com seu brilho e talento, é diferente, descolado, esperto, algo como um neonerd, ostenta seu grande pé direito, quem disse que tamanho não é documento? É espaçoso, ocupa um quarteirão, é mimado e quer tudo só para ele, tem o discurso da moda, sempre atento às novas tendências de fora, costuma dizer que chegou para revitalizar o bairro, mesmo que para isso tenha que derrubar os velhos moradores, feios e pequenos, aos demais, apenas ficam admirando de baixo para cima, a seus pés, pois para olhar não paga nada, até o falecido Oscar dizia que a arquitetura era para causar espanto, pois aqueles que não podiam, se contentariam com a contemplação.

O urbanocrata quer mudar a cidade, mas só frequenta a badalada zona oeste, Vila Mada, Pinheiros, Lapa e Higienópolis são seus lugares preferidos, cabe aqui uma pausa e refletir, sim, esses bairros estão tão carentes, tenho dó. Evitar zonas distantes é o seu bordão, odeia gente diferenciada e se puder evitar o metrô, melhor, pois “agrega valor” e fica mais elitista, dando um toque sofisticado e intelectual.

Pequeno por fora, grande por dentro, adora inovar com frases de efeito usadas por propagandistas especialistas em vendas, seu design é único, uma belezura, aliás, para isso foi desenhado por brasilian super-top-god-popstar architects! Aquele toque retrô ou vintage é o grande pulo do gato, suspensos por pilotis (em francês fica chique demais!), resgata a ideologia moderna da igualdade e liberdade atuais. Isso sim é respeito, seu nome é de gente importante, e sempre acompanha uma boa ideia, algo exótico como pitaya ou tamarillo. Quanta elegância! Garante o temor pelos famosos e respeitados críticos de arquitetura, sua influência é tamanha, que por alguma palavra fora da linha será amaldiçoado pela repressão, liberdade de expressão é usada apenas a favor do urbanocrata, gosta do povão, mas só é visto com a elite cult nas revistas de fofocas mais interessantes da cidade.

Sua beleza causa inveja até na Sabrina Sato, sua dica de beleza esta no ângulo do fotógrafo, de perfil é “mais tudo”, sempre leve e magro nas fotos, sua frase favorita que conseguiu decorar é “menos é mais”, nem precisa citar o autor desta máxima, este incrível minimalismo brasileiro assume formas por meio de linhas retas, caixas e retângulos. Não interessa! Todos adoram o cubo!

O discurso do popular chapa branca é revitalização do entorno e a arquitetura inovadora, que vai melhorar a vida de todos, todos que podem pagar é claro, cuidado se estiver com uma casinha simples em seu território de ataque, não vai restar pedra sobre pedra, como se estivesse na passarela, o brilho do flash é só para ele, seu figurino costuma ser em cores pastéis, o colorido irrita, é muito carnaval, no máximo arrisca um Mondrian básico.

Gosta de falar em amor como desejo, o desejo das pessoas, por aquilo que ainda não tem, pois quando conquista este objetivo o desejo acaba, algo semelhante ao amor platônico, ou Eros, como diria o próprio Platão, desejo por aquilo que não tem. Seu alto padrão é justificado por qualquer cifra, uma vez que sua grife não pode ser usada por qualquer um e glorifica o tal entorno.

 

Lucas Lavecchia

Dispensas Intelectuais

Me formei.

Durante o curso inteiro tive apoio de professores que se tornaram amigos e os mesmo foram os que me deixaram à vontade sobre o trabalho de conclusão de curso. O orientador, que na verdade, acumulou meu cérebro com tanta informação que cheguei ao ponto de perguntar-me como poderia construir uma tese de conclusão de curso com tantas coisas fora da arquitetura e mais (a)dentro da torrente enigmática de literatura lusófona e colombiana em que paralelamente ocupava meu tempo, foi quem me lançou no abismo da dúvida e nessa queda acabou de desorientando. Foi fundamental. Eu queria era escrever sobre arquitetura e escrever sem pretensão, sem aquela necessidade de correção orto-gráfica, como uma regra paramétrica, coisa que assimilava quase que instantaneamente com trabalhos de conclusão de curso de minha sala, da faculdade, de outras universidades e tentava de qualquer jeito e maneira entender todo o contexto. Queria ser diferente, tinha todas as chances, tinha até uma certa liberdade.

Não fui diferente.

Mas escrevi, sim, escrevi muito, tanto que nem coloquei metade do que queria na dita cuja mono-grafia, mas me ative na construção do conceito, conversando com o Hélio, um sujeito simpático que cuida até hoje de toda parte de documentação da faculdade de onde me formei. Ele me fez refletir sobre a  didática e a própria comunicação, a proximidade com o leitor, coisa que divaguei e quis aplicar em outras coisas, mas era na arquitetura e no urbanismo, nesta esfinge dolorosa da formação no Brasil, nesse hiato, era ali que eu deveria me destrinchar. Minha monografia ficou sendo como uma cacofonia, poli-grafia de vários sentidos que me ocuparam quando anos antes fui a Évora e conheci outros amigos com sensibilidades ácidas com relação ao conceito de espaço e civilização.

Tentei ser organizado.

Fui até certo ponto, mas deixei fluir como se fosse um rio, deixando que afluentes se juntassem, contribuíssem, pois eu precisava disso, precisava ver as coisas se amontoarem e ganharem certa vazão, mas a organização dos pensamentos não parecia coerente, parecia apenas um método imposto, contingente, claro, para a explanação de uma ideia pessoal, para que ela fosse repassada para pessoas que iriam me ouvir e iriam me avaliar e veriam se havia alguma linha de raciocínio, ou não.

Apresentei uma loucura.

E foi uma loucura. Durante a banca me senti relaxado para apenas ser um pouco mais estudante e menos um proto-arquiteto-urbanista. Esferveci, perdi a conta do tempo, a apresentação que tanto foi revisada e organizada me pareceu fora do ritmo da minha fala e dos meus tiques de repetição, de autocorreções. Elaborei um quadro-maquete nada detalhista e mal-explicativo, mas ali estava para testar-me, sim, como se seis anos de completa dedicação ao procurar aprender a projetar em diferentes escalas fossem resumidas a quarenta minutos que foram recompensados com conselhos e felicitações, pois eu estava sendo aprovado e convidado para dar aula, mesmo sem saber fazer conta de cabeça e entender somente no último ano o conceito de trabalhar em grupo, quando a revista linha e o gafaam encheram o pulmão psíquico com novos ares, o que me devolveu ao compromisso com uma vida instigante.

No final, a coisa não acabou.

Hoje: ver o que aprendi nesta etapa final amontoando os sorrisos e crises de trabalhos colados, honestidades fingidas e mensalidades mal pagas, não saberia imaginar que abriria um estúdio, que participaria de certos trabalhos inimagináveis, que conseguiria participar efetivamente de uma mudança urbana em que pude contribuir na linha de frente, com toda essa desorganização que é o tema “políticas – públicas” ao lado de pessoas que colocaram primeiro o pescoço e toparam dar o pouco tempo vital do descanso para desenhar mapas e mais mapas. Trabalho e recebo o suficiente para pagar as contas e fazer outras dívidas, lendo agora mais sobre a anestética da arquitetura e alguns gibis fora de moda, tendo conversa com esses professores companheiros que falam  não fazer arquitetura ou urbanismo se não houver tesão e dúvida, se não houver angustia, se não houver essa dose de irresponsabilidade com relação ao que pode ser o resultado final.

Não posso ser professor universitário, preciso de um mestrado, de mais um título de compatibilidade, sem levar em conta que a sociedade do mercantilismo não quer só uma graduação, ela quer mais, quer mais produção e medalhas honorificas, quer mais objetivo de vida, quer mais desse tal propósito e ganancia, como se isso fosse realmente um combustível que queima sem queimar e na verdade só queima a pouca vontade que resta de mudar.

Ainda há em mim uma vontade de estudar e estudar na bagunça de uma vida que não para pra esperar o tempo passar. O tempo passa do mesmo jeito mas fazer desse tempo uma fotografia prazerosa da olhar, parece que é parte do meu projeto de vida, meu planejamento corpóreo.

Finalizar um curso não é dizer chega aos grandes mestres e sim confirmar a sentença de que “eles tinham razão” e ainda mais, “talvez eles estivessem errados”, mas tecer uma autocrítica sobre os trabalhos e a formação vigente, entre maquetes eletrônicas mentirosas e lapiseiras escorregadias, papéis sem conteúdo e pranchetas ocupadas por mãos-de-obra mecanicistas, não, não me permito a me sub-julgar a uma vida de comodismo sentenciado onde apenas vejo o ensino de minha querida e irônica faculdade ter mais uma estrela nos classificados do ensino.

É por isso que às vezes deixo de trabalhar para falar sobre tropicalismo, fotografia construtivista russa e marcas de cervejas, morros, bicicletas, gibis para juniores, é por isso que esqueço do horário, esqueço de ver o saldo no banco e fico roendo as unhas para pagar as contas duas semanas depois, não podendo dormir sem terminar um plano urbanístico que não sei se será executado ou pior, não será criticado, me martirizando por faltar mais uma sexta-feira nos ensaios eufêmicos, ou nas monitorias esporádicas e não-convencionais.

Gosto dessas narrativas estóicas, quase tortas, como se a produção acadêmica fosse uma brincadeira de bom gosto, como pular corda e empinar pipa, e se neste espaço virtual, onde a partilha é divulgada como interesse comum, reivindico meu direito de dizer que o medo liquido, que a disfunção da cidade contemporânea latino-americana, que o id, o ego e o superego, o flaneurismo corpulento e as gargalhadas desses autores mais velhos já mortos pelo tempo e ressuscitados pelos livros, reverberam em constância, trazendo motivos pertinentes pelos quais não deixo que essa virgula de problemas impostos pelo acaso bloqueie o meu-nosso, pensamento fluir.

Filipe Faria